ZONA DISSOLUTA: uma proposição conceitual em dança para a elaboração tensiva entre corpos dissidentes e normativos. INTRODUÇÃO Sou artista e educador neurodivergente. Isso significa que meus processos de ensino-aprendizagem, mais especificamente no campo da dança, percorrem caminhos atípicos. Os assombros normativos no campo do ensino formal e não formal, me impuseram a condição de inventar um modo singular de habitar os ambientes de educação em dança. Logo, este modo de ser-estar volta-se à criação de espaços comuns para outros corpos interessados em encostar e se refazer enquanto sujeitos dançantes, sejam eles dissidentes ou não. Desse modo, me aproximei da Cia Giradança, grupo de dança que atua desde 2005 na cidade do Natal-RN, perspectivando a experiência DEF em relação a corpos normativos, no campo da dança. Entre os anos de 2013 e 2023, pude desenvolver, em formato de investigações teórico-coreográficas em dança, a proposição conceitual: “zona dissoluta”. Em 2025, com o suporte do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN, pretendo dar continuidade a esta investigação, a partir de uma metodologia guiada pela prática de um processo criativo em dança. Assim, o estudo investigativo no contexto do doutorado compreende um desdobramento/continuidade deste itinerário investigativo centrado na prática artística sem perder de vista que também sou um corpo que vai se constituindo por ela. Um corpo poroso e dissoluto que se faz e refaz aquilombadamente (Bispo, 2023). E quando pensamos o Brasil e sua complexa malha social, notamos que os corpos dissidentes e seus modos de existir são intensivamente levados à margem da realidade heterocisbrancanormativa, que por sinal também é bípede (Carmo, 2023) e, por isso parece aniquilar qualquer corporeidade desviante. Contudo, essa tal marginalização produz ajuntamentos interseccionais, modos de aquilombar, que permitem a criação de uma realidade rica e diversa de profusão de jeitos de estar em contra-ponto ao único jeito-de-ser que impera no projeto colonialista de mundo. É neste ponto de fala comum que convocamos as relações de alteridade para que esses corpos atípicos, tortos, estranhos (Teixeira, 2022), DEFs (Lapponi, 2023), com deficiência (Teixeira, 2021), Crip (Greiner, 2023), aleijados, não normativos e divergentes possam desenhar-se enquanto sujeitos autônomos no que tange seus próprios processos artísticos. OBJETIVO GERAL Analisar um processo criativo em dança, a partir das tensões entre corpos com e sem deficiência, tendo como referência o conceito de zona dissoluta. OBJETIVOS ESPECÍFICOS Realizar laboratórios de criação em dança, tensionando corpos com e sem deficiência em relação; Refletir sobre os limites e as possibilidades da dança contemporânea a partir da relação tensional entre corpos normativos e desviantes. ZONA DISSOLUTA: alguns aportes teóricos Ao utilizar a palavra “dissolução” (Lepecki, 2017) para pensar a relação dos sujeitos implicados em processos de formação no contexto de criação em dança, posso dizer que os indivíduos iniciam um processo de matização de seus próprios contornos. Neste sentido, somos processos intercorporais (Nóbrega, 2010), tecendo ecologias de saberes na coletividade, a partir de nossas singularidades. Assim, quando em piso comum de criação artística, nossos corpos sofrem, diretamente, a força incomensurável de processos educativos inerentes à dança, pois, intrinsecamente, dança é educação (Porpino, 2010). Mas de qual dança estamos falando? Para além do imaginário capacitista de seus complexos códigos, compreendemos a dança como produção de imagem a partir de uma provocação de que “é da natureza do corpo ser imagem” (Bittencourt, 2010). Assim, produzir dança é elaborar, multissensorialmente, a compreensão dos corpos como midiáticos (Katz e Greiner, 2016) e mediadores, desde seus modos únicos de ser. Dessa maneira, a dança contemporânea na qual situamos essa escrita, compreende que o corpo é imagem em fluxos cênicos de fricção e de tensionamentos em processos intercorporais de dissolução. Assim, entendemos que é possível a constituição de uma zona dissoluta em que os corpos em acontecimento de dança, ao se encontrarem cenicamente, “desencontram-se” e desaprendem na proporção em que as referências hegemônicas e normativas de corpo (e da própria dança) são desviadas pela presença de corpos divergentes, tortos, capengas e aleijados (Teixeira, 2021, Teixeira, 2022, Lapponi, 2023, Carmo, 2023). UM CAMINHO PERFORMATIVO Centrando-nos em um processo criativo em dança, a partir da relação tensional entre corpos divergentes e normativos situados na Torta Plataforma de Arte Expandida (RN), a qual compreende 10 artistas multimeios aquilombados por compartilharem vivências marcadas pela experiência DEF e neurodivergente, assumimos a postura de pesquisador performativo (Haseman, 2015) na medida em que compreendemos que esta pesquisa é predominantemente guiada-pela-prática. Logo, ao abandonarmos as lógicas de eficácia que o modelo produtivista da dança replica e abraçar os modos de fazer alinhados à qualidade sensível do mover, convocamos o engajamento dos dançarinos enquanto sujeitos de suas danças. Dessa maneira, para a pesquisa laboratorial dispomos de um método de investigação improvisacional organizado em 4 momentos nomeados a seguir, dispostos em 2 meses consecutivos, 3 vezes por semana, conformando 24 ensaios, todos na Escola de Dança do Teatro Alberto Maranhão (Ribeira, Natal-RN). São eles: (1) |RE| CRIAÇÃO, momento localizado nas duas primeiras semanas, ele consiste na mediação de práticas corporais que sensibilizem a escuta dos desejos dançantes dos participantes onde imaginamos e projetamos as vontades que iremos dançar na criação co-criação da peça; (2) IMPROVISAÇÃO, após o momento anterior iremos dispor das próximas três semanas para improvisar, a partir de técnicas advindas dos próprios dançarinos, os desejos levantados inicialmente; (3) ASSENTAMENTO, agora, com duração de mais três semanas, será discutido e refletido sobre aquilo que foi improvisado, ou seja, elaboraremos os materiais coreográficos e, consequentemente, reorganizaremos os acordos performáticos que farão a coreografia; (4) MANIFESTAÇÃO, após esses dois meses, chegaremos a performance pública do que investigamos, bem como seu registro audiovisual, com audiodescrição, legendas e tradução em Libras, para ser anexado à tese escrita. DISCUSSÃO DE RESULTADOS PARCIAIS Nesta circunstância educacional aberta pela zona dissoluta, encontramos um jeito de nos colocarmos como sujeitos de si frente às estruturas historicamente excludentes que dão suporte aos sistemas de arte. Assim, ao propormos, na |RE|CRIAÇÃO, a escuta dos desejos e a sensibilização de corpos com e sem deficiência em contato tendente, pudemos nos lançar ao infindável e complexo campo da IMPROVISAÇÃO fazendo emergir as singularidades desses corpos repletos de pulsão de vida, para então, elaborarmos, no coletivo, um ASSENTAMENTO de nossas vontades em formato de coreografia. Com isso, compreendemos que a coreografia operou desde o campo tensivo e desejoso decorrente deste encontro, numa ética orientada à diferença. Por último, a MANIFESTAÇÃO de nossa alegria se deu nas apresentações junto ao público que se mostrou impactado por uma dança contra-colonial, logo anticapacitista, antirracista, antilgbtfóbico e antimachista, que parece nos ensinar sobre o processo de aprender a desaprender os eficazes e coloniais padrões da Dança, para que possamos abrir espaço para outras sensibilidades e poéticas, valorizando as especificidades dos corpos e nos fazendo lembrar que conviver com a diferença é o coração de nossa existência. CONSIDERAÇÕES FINAIS: A Zona Dissoluta, ao abandonar modelos hegemônicos de formação e propor entendimentos de dança que levem em consideração a relação tensional entre corpos diversos, bem como a criação de outros modos de ser desde uma perspectiva aquilombada e intercorporal, parece convocar àqueles que a tocam, um certo estranhamento necessário a reelaboração de um mundo contra-hegemônico experienciado pelo viés das dissidências corporais. Esta pesquisa situa-se justo na vontade da troca, no convívio com o diferente e na disposição de deslocamentos que, sobretudo, a arte contemporânea parece proporcionar. PALAVRAS-CHAVE: zona dissoluta; educação; dança; deficiência. REFERÊNCIAS: BITTENCOURT, Adriana (2012). Imagens Como Acontecimentos: dispositivos do corpo, dispositivos da dança. Salvador: EDUFBA. CARMO, Carlos Eduardo Oliveira do (2023). Vocês, bípedes, me cansam! Modos de aleijar a Dança como contranarrativa à bipedia compulsória na Dança. Orientadora: Suely Aldir Messeder. 226 f., Tese (Doutorado) - Universidade do Estado da Bahia, Salvador. GREINER, Christine (2023). Corpos Crip, instaurar estranhezas para existir. São Paulo: N-1 Edições. HASEMAN, Brad (2015). Manifesto pela Pesquisa Performativa. Resumos do Seminário de Pesquisas em Andamento PPGAC/USP, v.3, n1, p.41-51: São Paulo. KATZ, Helena e GREINER, Christine - orgs (2016) . Arte e Cognição: corpomídia, comunicação e política. São Paulo: Annablume. LAPPONI, Estela (2023). Corpo Intruso: uma investigação cênica, visual e conceitual. São Paulo: Casa de Zuleika. LEPECKI, André (2017). Exaurir a Dança: performance e a política do movimento; Tradução Pablo Assumpção Barros Costa. - [1.ed.] – São Paulo: Annablume. NÓBREGA, T. P (2010). Uma Fenomenologia do Corpo. São Paulo: Editora Livraria da Física. PORPINO, K. de O (2006). Dança é educação: interfaces entre corporeidade e estética. Natal, RN: EDUFRN – Ed. da UFRN. SANTOS, Antônio Bispo dos (2023). A Terra Dá, A Terra Quer. São Paulo: Ubu Editora/PISEAGRAMA. TEIXEIRA, Carolina (2021). Deficiência em Cena: a ciência excluída e outras estéticas. - 2d.- Natal: Offset. TEIXEIRA, Jéssica. C. (2022). E.L.A. São Paulo: Nossa Editora.