A Apropriação da Linguagem Escrita na Alfabetização: Sondagem dos Conhecimentos sobre as Diversas Grafias do Alfabeto 1 INTRODUÇÃO Este trabalho é um recorte de uma pesquisa, intitulada Apropriação da linguagem na abordagem histórico-crítica: o ensino das diferentes grafias do alfabeto, desenvolvida através do Programa de Pós-Graduação em Formação de Professores da Universidade Estadual da Paraíba. O estudo investigou como esta proposta interventiva pode influenciar o desenvolvimento das habilidades de escrita em alunos que estão em fase inicial de escolarização, ancorados aos pressupostos teóricos da abordagem histórico-crítica (Saviani, 2021). Para isso, entendemos que a linguagem, o diálogo e a interação constantemente envolvem tanto o indivíduo quanto o outro. Vigotski (2009), ao desenvolver sua teoria do conhecimento, buscou mostrar como os seres humanos se constituem e se desenvolvem como sujeitos através das relações sociais por meio da linguagem. Segundo o autor, o processo de aprendizagem começa muito antes de a criança ingressar na escola, sendo constituído por suas experiências diárias e interações verbais com outras pessoas e com o contexto cultural em que está inserida, circunscrito historicamente. A contribuição de Vigotski (2009) para a educação, especialmente no que se refere à alfabetização, está na visão de que as funções psicológicas são formadas e consolidadas nas práticas sociais configuradas pelas mediações culturais estabelecidas nas relações interpessoais. Esse processo dinâmico permite que a criança entre em contato com o mundo ao seu redor, internalizando a experiência acumulada no discurso histórico-social. O autor observa que, assim como na evolução de uma língua, ocorre uma transformação de significados no processo de apropriação da linguagem pela criança. No contexto escolar, o autor enfatiza a importância da intervenção deliberada na zona de desenvolvimento proximal (ZDP), afirmando que a relação do ser humano com o mundo é mediada. Elementos como fala, comunicação e oralidade são cruciais nesse processo. Essa perspectiva é relevante ao sondar os conhecimentos dos alunos sobre grafias do alfabeto. Reconhecer, diferenciar e relacionar letras em formatos variados, como imprensa e cursiva, maiúsculas e minúsculas, é essencial para o desenvolvimento da leitura e escrita na escolarização inicial. Através da sondagem pedagógica, os professores identificam áreas que necessitam de maior atenção, permitindo intervenções eficazes. Assim, a teoria vigotskiana se concretiza na prática educacional, utilizando elementos mediadores e intervenções na ZDP para promover um ensino significativo, atendendo às necessidades dos estudantes. Refletindo então, o Caderno de Sondagem Diversas Grafias do Alfabeto foi desenvolvido como um instrumento didático-pedagógico para essa avaliação. O instrumento não apenas monitora o progresso dos alunos, mas também oferece uma base sólida para a criação de práticas pedagógicas futuras que atendam às necessidades específicas de cada estudante. A partir do resultado da sondagem, os professores podem adaptar suas estratégias de ensino, garantindo que todos os alunos avancem pedagogicamente de forma consistente e contínua. A sondagem dos conhecimentos prévios é especialmente importante no contexto da alfabetização, em que a diversidade dos conhecimentos entre os alunos pode ser significativa. Ao compreender detalhadamente o ponto de partida de cada aluno, os professores podem planejar atividades que promovam o desenvolvimento da escrita de maneira mais eficaz, contribuindo para a formação de leitores e escritores críticos e autônomos. Dessa forma, a sondagem dos conhecimentos se torna uma ferramenta indispensável para orientar as práticas de alfabetização e promover o avanço educacional dos estudantes. 2 DESENVOLVIMENTO 2.1 A integração das perspectivas da pedagogia histórico-crítica e da psicologia histórico-cultural A pedagogia histórico-crítica e a psicologia histórico-cultural consideram a educação um processo de formação humana, atribuindo valor ao ato educativo na medida em que este promove a emancipação do indivíduo. De acordo com o marxismo, os homens são moldados pelas relações de produção da vida, sendo indivíduos reais e sujeitos históricos que se formam através das interações sociais. Nessa perspectiva, a formação humana é analisada no contexto histórico, nas relações estabelecidas entre os homens e a natureza, através do trabalho que produz sua existência (Saviani; Duarte, 2012). Nessa perspectiva propõe-se que o trabalho educativo é o ato de desenvolver, direta e intencionalmente, em cada indivíduo, a humanidade que é produzida histórica e coletivamente pela sociedade (Saviani, 2021). Nesse sentido, destaca-se a relevância do papel do professor na transmissão do conhecimento produzido pela humanidade ao longo da história. A psicologia histórico-cultural, fundamentada na escola de Vigotski (2009), enfatiza a importância do papel do professor no processo de mediação da aprendizagem dos alunos. Essa abordagem defende que um ensino eficaz é aquele que se antecipa ao desenvolvimento do aluno, o que significa que o professor deve ensinar conteúdos que a criança ainda não consegue dominar por conta própria. Portanto, o professor deve estruturar o ensino de modo a trabalhar com os conteúdos escolares e empregar diversas estratégias metodológicas, permitindo que a criança avance continuamente em seu nível de aprendizagem. Dessa forma, a psicologia histórico-cultural sustenta que a aprendizagem é o motor do desenvolvimento. Nessa abordagem, o papel do professor é organizar o ensino de modo a mediar a aprendizagem dos conteúdos sistematizados pela humanidade, o que promove o desenvolvimento das funções psicológicas superiores. Tanto na psicologia histórico-cultural quanto na pedagogia histórico-crítica, o professor atua como um "mediador social", essencial no processo educativo, organizando o ensino com o fim de incentivar o desenvolvimento do aluno por meio dos "mediadores culturais", representados pelos conteúdos escolares (Vigotski, 2009, p. 52). 2.2 Atividades diagnósticas: o Caderno de Sondagem Diversas Grafias do Alfabeto Conforme a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), nas práticas de linguagem e análise linguística durante a alfabetização, as diferentes grafias do alfabeto devem ser tratadas como objeto de conhecimento nas salas de aula do 1º e 2º ano do Ensino Fundamental - Anos Iniciais. As habilidades de reconhecer, diferenciar e relacionar letras em formatos de imprensa e cursiva, tanto maiúsculas quanto minúsculas (EF01LP11)[1], assim como a capacidade de escrever palavras, frases e textos curtos nesses formatos (EF02LP07), são consideradas aprendizagens essenciais no documento. Dessa forma, ao concluir o 2º ano do Ensino Fundamental, espera-se que a criança tenha consolidado esses conhecimentos (Brasil, 2018). Considerando o que pressupõe a normativa, como estratégia metodológica para a seleção dos participantes da pesquisa, foi utilizado o Caderno de Sondagem Diversas Grafias do Alfabeto. Através dessa sondagem, é possível identificar com precisão o nível de conhecimento dos alunos em relação ao reconhecimento, à diferenciação e à relação entre as diversas grafias do alfabeto, incluindo letras em formato de imprensa e cursiva, tanto maiúsculas quanto minúsculas. O material é composto por uma série de atividades e questões que exploram diferentes aspectos das habilidades de escrita. Dentre essas habilidades, destaca-se o reconhecimento e a diferenciação de letras, onde os alunos devem demonstrar conhecimento das letras nos formatos de imprensa e cursivo (Questão 1), além de distinguir entre letras maiúsculas e minúsculas (Questões 2 e 3). Outro aspecto abordado é a relação entre os diferentes formatos de letras, exigindo que os alunos sejam capazes de estabelecer conexões entre letras maiúsculas e minúsculas (Questões 4 e 5), bem como associar palavras nos formatos de imprensa e cursivo (Questões 6 e 7). Além disso, o caderno inclui atividades voltadas para a escrita, incentivando os alunos a escreverem palavras (Questão 8), frases (Questão 9) e textos curtos (Questão 10) no formato cursivo, promovendo o desenvolvimento da fluência na escrita. Embora um único instrumento não seja suficiente para avaliar todo o conhecimento dos alunos, essa proposta fornece uma abordagem prática e viável para lidar com a questão, sendo de grande utilidade para os professores alfabetizadores. 2.3 Resultados e discussões da pesquisa A aplicação do Caderno de Sondagem foi realizada no dia 13 de junho de 2024, no turno da manhã, com 47 crianças – 25 meninos e 22 meninas – matriculadas no 2º ano do Ensino Fundamental em uma escola municipal de Algodão de Jandaíra, na Paraíba. A atividade iniciou com a organização das crianças em suas respectivas salas de aula e se dividiu em dois momentos distintos, cada um com duração de duas horas. Posteriormente, por meio dos resultados adquiridos, destacamos as categorias importantes observadas após a aplicação, estas que tratam sobre o nível de habilidades de escrita dos alunos participantes da pesquisa interventiva. Os dados revelam que apenas 13 alunos conseguiram desenvolver as habilidades de reconhecer, diferenciar e relacionar letras nos formatos de imprensa e cursiva, maiúsculas e minúsculas. Destes, apenas 2 alunos demonstraram a capacidade de escrever palavras, frases e textos curtos de forma autônoma nesses formatos. Esses resultados evidenciam a necessidade de uma intervenção pedagógica mais eficaz, pois a dificuldade em distinguir e utilizar diferentes grafias compromete a escrita e a leitura fluente. A baixa porcentagem de alunos que dominam essas habilidades indica que as estratégias de ensino atuais podem não estar sendo totalmente eficazes. Ainda, notavelmente, 17 alunos demonstraram capacidade em reconhecer, diferenciar e relacionar letras em formato de imprensa, tanto maiúsculas quanto minúsculas. A demonstração de tais capacidades por parte desses alunos sugere que lhes foram proporcionadas oportunidades adequadas de interação com a linguagem escrita, tanto formal quanto informal, dentro do ambiente escolar (Vigotski, 2009). Por outro lado, 5 alunos estão em transição da letra de imprensa maiúscula para a minúscula, o que indica um processo de aprendizagem em andamento. Esses alunos estão em um estágio intermediário e podem se beneficiar de estratégias específicas para fortalecer suas habilidades de diferenciação entre os diferentes formatos de letras. Tal processo de transição indica um momento crucial no desenvolvimento das habilidades de escrita e leitura. Além disso, 2 alunos demonstraram familiaridade com algumas letras no formato cursiva, apesar de ainda não dominarem completamente o reconhecimento e a diferenciação das letras em imprensa. Eles estão em um estágio inicial de aprendizagem que requer apoio adicional para a consolidação de suas habilidades. Para os alunos que demonstram familiaridade com letras cursivas, mas ainda estão se familiarizando com as letras na imprensa, vivências pedagógicas que utilizem tanto o formato cursiva quanto o de imprensa de maneira integrada podem ser eficazes, conforme pressupõe a ZDP, proposta por Vigotski (2009), na qual os alunos podem realizar atividades com apoio e orientação adequados para avançar em suas habilidades. Por fim, 10 alunos conhecem apenas as letras em formato de imprensa maiúscula, indicando a necessidade de intervenções didáticas específicas para o desenvolvimento das habilidades de reconhecimento de letras minúsculas e no formato cursiva. Esses alunos podem se beneficiar de atividades que visem ampliar seu repertório de conhecimento de letras em diferentes formas e formatos. Para os alunos que ainda não dominam a diferenciação entre letras maiúsculas e minúsculas, conforme nos aponta Vigotski (2009), o desenvolvimento das funções psicológicas superiores ocorre por meio da interação social e da mediação de ferramentas culturais, como a linguagem escrita. Portanto, atividades que visem ampliar o repertório de conhecimento dos alunos em diferentes formas e formatos de letras podem ser fundamentais para preencher a lacuna identificada. É necessário que os professores apliquem metodologias que considerem as necessidades individuais dos alunos e promovam um ambiente de aprendizagem colaborativo e mediado. Isso não apenas facilita o desenvolvimento das habilidades de linguagem escrita, mas também incentiva os alunos a se tornarem aprendizes autônomos e críticos ao longo de sua jornada educacional. 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS A análise dos resultados forneceu pressupostos necessários sobre o nível de conhecimento dos alunos, destacando avanços e desafios no processo de alfabetização. A utilização do Caderno de Sondagem Diversas Grafias do Alfabeto possibilita intervenções pedagógicas precisas, adaptando o ensino às necessidades especificas dos alunos e promovendo um ambiente educacional enriquecedor. Assim, compreendemos que as atividades de sondagem desempenham um papel crucial no acompanhamento do desenvolvimento dos alunos, permitindo uma avaliação contínua e detalhada de suas habilidades. Essas atividades são fundamentais para orientar o trabalho pedagógico, possibilitando uma prática sistemática e personalizada, que atende às necessidades reais dos alunos, contribuindo significativamente para o desenvolvimento de suas potencialidades educativas. Embora a avaliação do conhecimento dos estudantes não possa depender apenas de um único instrumento, este estudo oferece uma contribuição significativa para a prática pedagógica, proporcionando aos professores ferramentas práticas e viáveis para melhorar o ensino e a aprendizagem da linguagem escrita. Ao considerarmos as perspectivas da pedagogia histórico-crítica e da psicologia histórico-cultural, reafirmamos a importância de uma educação contextualizada e sensível às necessidades individuais e sociais dos alunos, promovendo uma formação integral, crítica e humanizadora. Ademais, acreditamos que as intervenções didáticas fundamentadas na abordagem histórico-crítica mostram-se eficazes na identificação e no desenvolvimento das habilidades de escrita dos alunos em fase inicial de escolarização. Dessa forma, a pesquisa permitiu um aprofundamento na compreensão das dinâmicas de ensino e aprendizagem, contribuindo para o desenvolvimento de estratégias pedagógicas cada vez mais eficazes e adaptadas às necessidades dos alunos em processo de alfabetização. REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica.Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, SEB 2018. Disponível em:
http://basenacionalcomum.mec.gov.br/ . Acesso em: 05 jul. 2024. SAVIANI, D. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações. 12. ed. Campinas, SP: Autores Associados, 2021. SAVIANI, D.; DUARTE, N. A Formação humana na perspectiva histórico-ontológica. In: SAVIANI, D.; DUARTE, N. Pedagogia histórico-crítica e luta de classes na educação escolar. Campinas: Autores Associados, 2012. p. 13-35. VIGOTSKI, L. S. A construção do pensamento e da linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2009. [1] EF= Indica a etapa de Ensino Fundamental; 01= indica o ano a que se refere a habilidade; LP= indica o componente curricular: Língua Portuguesa; e 11= posição da habilidade na numeração sequencial do ano ou do bloco de anos (Brasil, 2018. p. 30).