CIBERCORPOS DANÇANTES NO TIKTOK: QUANDO JOVENS MULHERES SÃO ALVO DE COMENTÁRIOS DE SEXUALIZAÇÃO E ASSÉDIO INTRODUÇÃO O texto traz os resultados de uma pesquisa de mestrado em andamento que tem como objetivo investigar os sentidos dos cibercorpos femininos em danças compartilhadas no TikTok. Nos últimos anos, especialmente durante a pandemia, o TikTok se consolidou como uma das plataformas digitais mais populares entre jovens ao redor do mundo (Kleina, 2020). As populares “dancinhas” se destacam não apenas como tendências culturais, mas também como potentes formas de constituição identitária. No atual cenário cibercultural, marcado pela mediação do digital em rede (Santos, 2011), os cibercorpos juvenis femininos são atravessados por discursos e relações de poder e precisam ser analisados a partir de um olhar que considere os marcadores sociais de gênero, sexualidade e corporalidade. Os cibercorpos dizem respeito às manifestações dos corpos em tempos de cibercultura (Nolasco-Silva; Maddalena, 2022), o que nos convida a uma melhor compreensão sobre como as/os jovens negociam normas sociais e culturais no ciberespaço. No TikTok, as performances juvenis femininas não apenas reiteram normas e padrões sociais, mas desafiam estereótipos de gênero e sexualidade, refletindo a diversidade social e cultural da sociedade. As “dancinhas” vão além de simples coreografias, elas vêm se constituindo como expressões de cibercorpos que tensionam as heteronormas patriarcais (Butler, 2019). METODOLOGIA A pesquisa adota a cartografia online como metodologia para investigar as “dancinhas” no TikTok. Para isso, nos alinhamos com Carvalho e Pocahy (2020) e reconhecemos que cartografar é um ato político que exige compromisso ético com as análises realizadas do presente. Cartografar, em tempos de cibercultura, é acompanhar processos comunicacionais em/na rede, buscando afetar e se afetar em um território que apresenta uma enorme variedade de informações, incluindo memes, hashtags e comentários (Teixeira, 2022). No entanto, como alerta Kastrup (2015), há de se focar no que provoca estranhamento, abrindo espaço para novas entradas de problematização. O trabalho de campo, iniciado em abril de 2023, vem acompanhando os perfis de 102 jovens brasileiras criadoras de conteúdos ligados à dança, priorizando interações nos comentários que afetam, incomodam e fazem refletir. De modo preliminar, identificou-se que esses comentários evidenciam a força de heteronormas que estruturam interações e relações de poder na plataforma. Ademais, esses comentários espelham normas de uma sociedade ocidental do Sul global, estruturada sob um regime heterocentrado (Preciado, 2014), o que demanda um olhar crítico para os enquadramentos impostos aos corpos femininos. Conforme Louro (2013), as relações de gênero permeiam e são influenciadas por todas as esferas sociais, algo evidente nas interações dos internautas, que, de forma explícita ou sutil, reproduzem e reforçam determinadas dinâmicas sociais na plataforma. RESULTADOS PARCIAIS E DISCUSSÃO Cartografar vídeos e comentários produzidos e disseminados por internautas é um convite para refletir sobre as disputas de sentidos em torno dos corpos femininos em tempos de cibercultura. Para este texto, optou-se por trazer os resultados parciais e a discussão de uma das categorias do estudo, intitulada de “sexualização dos corpos femininos”. O TikTok, inicialmente reconhecido como uma plataforma voltada ao entretenimento, evidencia como os cibercorpos femininos são alvos frequentes de sexualização e assédio. Esse aspecto reflete um regime heteronormativo e patriarcal, no qual as normas regulatórias de gênero moldam expectativas rígidas sobre como os corpos femininos devem ser vistos e avaliados (Butler, 2019). Assim, mesmo em um espaço de criatividade e expressão, as jovens enfrentam a objetificação e a vigilância constante de seus corpos no TikTok. A análise dos comentários dessa categoria revela diferentes formas de regulação dos corpos femininos, desde assédios explícitos até discursos velados que, sob o disfarce de elogios ou supostas preocupações, reforçam o controle social sobre essas jovens. Comentários explícitos como “meu negocio fica parecendo uma pedra”, “Tá eu e o binho chorando debaixo da coberta”, “kiku-zao”, “matava-napika” e “agora só é esperar a xerec….”, mencionam partes íntimas, sugerem conotações sexuais ou impõem leituras eróticas sobre a dança, evidenciando uma agressividade simbólica que desumaniza e reforça a cultura do assédio. Os comentários velados, como “Aiiii mano, sou apaixonado nessa garota”, “caso na hora”, “se vc quiser me dar”, “joga ela pra nós” e “até esqueci que namoro” reduzem as jovens a objetos de desejo ou reforçam a conformidade com papéis tradicionais de gênero. Esses comentários refletem o modo como esses corpos são constantemente bombardeados por meio de discursos normativos no regime heterocentrado, responsável pela desumanização e objetificação de determinadas vidas (Preciado, 2014). Diante desse cenário, torna-se fundamental adotar uma perspectiva crítica que vá além da categorização dos discursos, buscando compreender como essas práticas discursivas se entrelaçam para reforçar normas sociais opressoras e como podem ser subvertidas. O percurso cartográfico traçado até o momento revela que, embora o TikTok possibilite maior visibilidade e agência para jovens mulheres, também vem operando como um espaço onde os marcadores sociais de gênero, sexualidade e corporalidade estão em disputa. CONSIDERAÇÕES FINAIS O TikTok se tornou um espaço de expressão cultural e identitária para jovens, permitindo que criadoras compartilhem suas performances e ganhem visibilidade. No entanto, essa exposição também as torna alvo de sexualização e assédio, refletindo as dinâmicas patriarcais e heteronormativas da sociedade. A pesquisa vem tratando como os cibercorpos femininos no TikTok podem desempenhar formas outras de agenciamentos e, simultaneamente, serem subjugados, evidenciando a tensão entre agência e controle social. Esses comentários variam entre sexualização explícita e assédios velados, ambos reforçando a percepção das mulheres como objetos de desejo e controle. Os cibercorpos femininos confrontam as normas regulatórias de gênero e transformam o ciberespaço em territórios de experimentação e expressão. Ao subverterem expectativas heterocentradas, essas jovens reconfiguram a relação entre corpo, identidade e tecnologia, tensionando os enquadramentos que reduzem seus corpos a objetos de consumo. Para romper com essa lógica, é fundamental ampliar as possibilidades de agência e liberdade, permitindo que suas experiências corporais sejam reconhecidas não apenas como entretenimento para si e junto a outras/os, mas como formas legítimas de expressão cultural. Isso implica questionar a estrutura patriarcal que, ao invés de valorizar as vivências e criações das juventudes femininas, as submete a mecanismos de controle e vigilância. A resistência nesse contexto passa por reivindicar a legitimidade das expressões corporais em tempos de cibercultura e reconfigurar nossos olhares sobre esses corpos, deslocando-os do eixo da objetificação para a autonomia e a criação de novas narrativas no ciberespaço. Palavras-chave: TikTok. Cibercorpos. Sexualização. Assédio. REFERÊNCIAS BUTLER, Judith. Corpos que importam: os limites discursivos do “sexo”. Tradução de Veronica Daminelli e Daniel Yago Françoli. São Paulo: n-1 edições, 2019. CARVALHO, Felipe da Silva Ponte de; POCAHY, Fernando. O método cartográfico na/com a formação na cibercultura. RE@D - Revista de Educação a Distância e Elearning, Lisboa, v. 3, n. 1, p. 62-77, mar./abril 2020. Disponível em:
https://acesse.dev/q94TB. Acesso em: 10 ago. 2024. KASTRUP, Virgínia. O funcionamento da atenção no trabalho do cartógrafo. In: PASSOS, Eduardo; KASTRUP, Virgínia; ESCÓSSIA, Liliana (Orgs.). Pistas do método da cartografia: pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2015, p. 32-51. KLEINA, Nilton Cesar Monastier. Hora do TikTok: análise exploratória do potencial político da rede no Brasil. Revista UNINTER de Comunicação, v. 8, n. 15, p. 18–34, 2020. Disponível em:
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