ARTE/EDUCAÇÃO E TERREIRO: O BAIÃO DE PRINCESAS COMO FERRAMENTA METODOLÓGICA DE EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA Introdução A referida pesquisa explora o Baião de Princesas como uma proposta metodológica viável para promover a educação antirracista no ensino de arte. Ao vislumbrar a possibilidade este ritual afro-maranhense no currículo de arte, visamos promover práticas pedagógicas que valorizem e respeitem a diversidade racial, enquanto enriquecem o aprendizado artístico do(as) discente. A questão que permeia este estudo está centrada na seguinte indagação: De que forma o Ritual Baião de Princesas, enquanto expressão religiosa afro-maranhense, pode torna-se uma proposta metodológica antirracista no ensino da arte? À luz do questionamento elaboramos o seguinte objetivo geral, que é investigar a possibilidade do Ritual Baião de Princesas torna-se uma ferramenta metodológica antirracista no ensino da arte. No contexto educacional, o Baião de Princesas pode ser integrado ao ensino de arte devido às suas expressões artísticas marcantes, como artes visuais, música, dança e teatro. As religiões de matriz africana, trazidas pelos africanos escravizados, se espalharam e se transformaram ao longo dos séculos no Brasil, exigindo uma compreensão da complexidade e das influências da diáspora. Na entrevista com nossos(as) professores(as) colaboradores(as) da pesquisa, questionamos sobre as potencialidades do ensino através da arte para combater o racismo. Dessa forma, selecionamos duas respostas das educadoras, por considerarmos relevantes. A professora Eliete Lima (2022) afirma que o ensino de arte pode combater o racismo ao promover discussões, pesquisas, e a representação de pessoas negras e suas culturas. Incluir a participação de artistas negros e manifestações culturais negras na escola ajuda a refletir sobre a representatividade e contribui para a conscientização diária sobre o papel do negro na sociedade, devendo ser uma prioridade na atuação do professor. A professora Andréa Frazão (2022) destaca que o ensino de arte, quando fundamentado na perspectiva antirracista, é eficaz no combate ao racismo e outras formas de opressão. A inclusão e discussão de obras de arte de artistas negros em sala de aula permite que os alunos reconheçam a contribuição cultural e artística de seus ancestrais, promovendo um conhecimento positivo e inclusivo. Concordamos com a importância destacada pelas professoras sobre a inclusão de conteúdos de arte afro-brasileira e africana no currículo escolar de arte. Reconhecemos a urgência de valorizar e reconhecer a cultura afro-brasileira no ambiente educacional. Portanto, é essencial uma reconstrução curricular que abrace as diversas manifestações culturais afro- brasileiras e africanas, incluindo a narratividade corporal. A professora colaboradora Eliete Lima (2022) destaca a importância não apenas do conteúdo abordado em sala de aula, mas também do engajamento ativo dos(as) educadores(as) na promoção de um ensino antirracista. Isso permite que o ensino de arte seja uma ferramenta para uma aprendizagem humana e equitativa. Como André Taguieff (1997) sugere, o antirracismo representa uma busca por uma humanidade mais completa, uma melhoria na doutrina daqueles que aspiram a um mundo melhor. Segundo Stuart Hall (2023), a cultura resulta da fusão de elementos africanos, asiáticos e europeus na sociedade colonial. Canclini (2019) destaca que a hibridização pode gerar novas estruturas e práticas sociais. Nas religiões afro-brasileiras, esse processo não só cria novas práticas religiosas, mas também novas formas de interação social e organização comunitária, evidenciando uma negociação e fusão cultural que resulta em expressões ricas e complexas. No Baião de Princesas, a hibridização cultural é evidente em práticas litúrgicas, altares, performances musicais e na celebração de Santa Luzia. A presença de santos católicos nos altares dos terreiros revela a influência do catolicismo nas religiões afro-brasileiras, demonstrando resistência e adaptação durante a colonização. Segundo Burke (2022), esse processo resulta de múltiplos encontros culturais ao longo do tempo, incorporando novos elementos e fortalecendo os existentes. Além disso, o Baião de Princesas incorpora elementos da cultura hispânica, como leques e castanholas, enriquecendo a ritualística e exemplificando a dinâmica de hibridização cultural que moldou as práticas culturais brasileiras. Em continuidade a nossa entrevista perguntamos de que maneira os elementos das religiões de matriz afro-maranhense podem ser integrados ao ensino de arte sob uma perspectiva antirracista. A docente Andréa Frazão (2022) afirma que inserir religiões de matriz africana na escola é desafiador devido ao preconceito e racismo religioso. Ela sugere que a inclusão de elementos como a música do Tambor de Mina, a simbologia das cores dos guias e a análise fotográfica do ritual é essencial para contextualizar essas religiões e promover debates sobre intolerância e racismo, utilizando a arte dessas religiões para fomentar discussões antirracistas. A afirmativa da educadora destaca uma questão crucial no contexto escolar contemporâneo: a diversidade de credos religiosos e os desafios enfrentados, especialmente o preconceito e o racismo religioso presentes nas instituições de ensino. Cavalleiro (2005) enfatiza a importância crítica de abordar a diversidade no ambiente escolar, especialmente ao lidar com o racismo. A falta de reflexão sobre relações raciais no planejamento educacional brasileiro compromete o estabelecimento de relações interpessoais respeitosas e igualitárias na escola. A ausência de diálogo sobre racismo, preconceito e discriminação contribui para perpetuar desigualdades entre negros e brancos, reforçando estereótipos prejudiciais e limitando o potencial intelectual de alunos de diversas origens. O antirracismo implica em reconhecer e valorizar cada indivíduo na sociedade, promovendo uma convivência baseada na igualdade e na valorização das diferenças. Segundo Taguieff (1997, p. 110), combater o racismo significa enfrentar ativamente obstáculos ao estabelecimento de um ambiente justo e igualitário para todos. No contexto brasileiro, apesar do país se autodefinir como uma democracia, os(as) seguidores(as) de religiões não legitimadas pela hegemonia cristã e pela matriz colonial (Grosfoguel, 2016), como as de matriz africana e indígena, enfrentam significativa intolerância, discriminação e estigmatização. Essas práticas religiosas são frequentemente associadas a estereótipos negativos e percebidas como ameaças pelos grupos dominantes na sociedade brasileira. Frantz Fanon (2008) afirma que o racismo utiliza estratégias de inferiorização para marginalizar esses indivíduos. Espera-se que a escola promova a consciência social, a diversidade cultural e práticas pedagógicas alinhadas aos direitos humanos, integrando o antirracismo ao desafiar a intolerância religiosa e fomentar práticas sociais e culturais transformadoras. Posturas antirracistas são essenciais porque, em uma sociedade fundamentada no racismo, a inação contribui para sua perpetuação. Nesse contexto, o antirracismo brasileiro desenvolveu a "Cultura de Consciência Negra", abrangendo interpretações dos referenciais históricos, simbólicos e estéticos de origem africana, enriquecidos pela experiência afro-brasileira (Pereira, 2013, p. 21). Isso implica na criação de narrativas que valorizam esses referenciais diante das novas circunstâncias sociais, contribuindo para o combate à intolerância religiosa. Essa cultura amplia as narrativas que enaltecem os elementos africanos, essenciais para a identidade afro- brasileira, promovendo compreensão e respeito às práticas religiosas em novos contextos sociais (Pereira, 2013). Assim, fortalece-se a aceitação e valorização das diversas expressões religiosas na sociedade brasileira, combatendo preconceitos e fomentando a inclusão cultural. Metodologia A pesquisa adota uma abordagem exploratória qualitativa, utilizando entrevistas semiestruturadas e análise de conteúdo para investigar profundamente as experiências e percepções dos professores sobre o fenômeno estudado. Prioriza a profundidade na coleta e análise de dados, característica da pesquisa qualitativa que busca compreender o contexto mais do que quantificar numericamente (Silva e Menezes, 2005). Além das entrevistas, foram conduzidas rodas de conversa e uma visita à Casa Fanti Ashanti, proporcionando aos professores experiências práticas do Baião de Princesas. Esses métodos não apenas enriqueceram a coleta de dados, mas também fortaleceram os laços entre pesquisadores e participantes, valorizando suas vozes e experiências. Resultados e Discussões A pesquisa revela que a educação decolonial busca desconstruir modelos educacionais que perpetuam a colonialidade do saber. Segundo Walsh (2018), Oliveira (2018) e Candau (2018), essa abordagem pedagógica visa transformar a sociedade ao desafiar estruturas epistêmicas coloniais através do desaprendizado do conhecimento convencional. A partir das respostas das professoras colaboradoras, observa-se que a pedagogia decolonial valoriza as religiões de matriz africana e suas expressões artísticas. Ela oferece ferramentas pedagógicas que exploram em sala de aula as experiências estéticas das manifestações afro-religiosas através das artes visuais, dança, música e teatro. O pensamento decolonial rompe com a ideia de hierarquia cultural, promovendo um diálogo intercultural que valoriza a diversidade e a igualdade entre diferentes grupos sociais. Segundo Mignolo (2008, p. 305), "descolonial implica pensar a partir das línguas e das categorias de pensamento não incluídas nos fundamentos dos pensamentos ocidentais". O papel fundamental do professor de arte na inclusão das religiões de matriz africana no currículo escolar é destacado pela promoção do respeito às crenças e tradições afro-brasileiras através de práticas pedagógicas que valorizam a diversidade cultural. Ao explorar os elementos artísticos das religiões afro-brasileiras na escola, os educadores enriquecem o repertório cultural dos estudantes e promovem uma educação antirracista. Isso capacita os estudantes negros a reconhecer e enfrentar ativamente diversas formas de opressão na sociedade contemporânea, enquanto incentiva os não negros a respeitarem e valorizarem as diferenças culturais e étnicas. O Baião de Princesas, conforme destacado por Barbosa (2008), permite a exploração de aspectos rituais, história e resistência, transmitindo valores e ancestralidade. A promoção do diálogo intercultural no ensino de arte é uma estratégia crucial do educador para que os alunos compartilhem suas experiências culturais, fomentando o respeito à diversidade e construindo relações mais igualitárias. Candau (2016) sublinha que a educação intercultural desafia a escola a transformar posturas educacionais e concepções sobre conhecimento, sujeito, sociedade e cultura. Conclusão Concluímos que a educação antirracista é crucial, especialmente no ambiente escolar, para promover igualdade e respeito à diversidade étnico-racial. O antirracismo implica em reconhecer e valorizar a importância de cada indivíduo na sociedade, incentivando uma convivência baseada na igualdade e na valorização das diferenças, “o anti-racismo levado pelo ideal do bem de todos os homens estará, portanto, em revolta contra certo número de factos ou de fenómeno observáveis, supostos serem obstáculo ao estabelecimento do reino do bem aqui na terra” (Taguieff, 1997, p.110). A formação de professores(as) é fundamental para desenvolver essas práticas. Integrar o Baião de Princesas no Ensino de Arte pode estimular reflexão crítica e oferecer experiências estéticas enriquecedoras. Silva (1994) descreve a experiência estética na religião afro-brasileira como uma vivência ritualística que envolve comunicação com forças divinas e ancestrais, expressão emocional e corporal da fé. REFERÊNCIAS BARBOSA, Ana Mae. Tópicos utópicos. São Paulo: Cortez, 2008. BURKE, Peter. Hibridismo Cultural. Editora UNISINOS, 7° impressão, 2022. CANCLINI, Néstor Garcia. Culturas Hibridas: estratégias para Entrar e Sair da Modernidade. São Paulo: EDUSP, 2019. CAVALLEIRO, Eliane dos Santos. Introdução. IN: BRASIL. Educação anti-racista: caminhos abertos pela Lei Federal nº 10.639/03. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade. – Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, 2005. CANDAU, Vera Maria (Org.). 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