APRENDENDO COM MOVIMENTOS SOCIAIS: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DE UMA DISCIPLINA IN(VE)STIGADORA INTRODUÇÃO Desde 2017 lecionamos a disciplina Movimentos Sociais, Identidades e Cidadanias Interculturais (MSICI) no Programa de Pós-graduação em Educação, Culturas e Identidades (PPGECI), um programa associado entre Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ - autarquia do Ministério da Educação sediada no Recife/PE). Este programa, originado dessa parceria, completou 10 anos de existência em 2024 estando, portanto, em processo de consolidação com vistas a implantação do curso de doutorado proximamente. Não obstante ser um programa ainda muito novo, este vem sendo o programa mais concorrido entre os 45 existentes na UFRPE e entre os vários programas de pós-graduação em educação e/ou ensino existentes no Estado de Pernambuco. Isto vem do interesse das pessoas por uma proposta de formação que se coloca na educação em relação com as culturas e identidades diversas que caracterizam a sociedade brasileira na contemporaneidade, atraindo, por isso, profissionais que vêm não apenas dos sistemas de ensino escolar, como também educadores sociais, além de outros que atuam em movimentos sociais, ONGs e mesmo em instituições públicas nas áreas de cultura, assistência social e saúde. O PPGECI se afirma como um programa de formação situado no território da trans e interdisciplinaridade, da interculturalidade e da interseccionalidade na construção de processos educativos de enfrentamento aos fundamentos patriarcais, racistas, sexistas e classistas que sustentam as imensas desigualdades sociais brasileiras. Nesse ambiente educativo a disciplina Movimentos Sociais, Identidades e Cidadanias Interculturais (MSICI) vem se constituindo como um lugar de encontro e produção coletiva de conhecimentos sobre e com os movimentos sociais, lugar movimentado por pesquisadores/as da academia e militantes/profissionais dos movimentos sociais. É sobre isto que trata este texto, sobre as relações entre pesquisadores e movimentos sociais, e de como essas relações podem mover aprendizados mútuos entre os sujeitos envolvidos, tomando como campo empírico as experiências de ensino da disciplina MSICI, particularmente durante o ano de 2023, momento este que essa experiência se tornou um estudo de caso de um projeto de pesquisa mais amplo, que se valeu da observação participante, registros audiovisuais e entrevistas com estudantes e ativistas de movimentos sociais participantes da disciplina nesse ano. Neste texto apresentamos brevemente os pressupostos epistemológicos e metodológicos da disciplina; os trabalhos de campo desenvolvidos no ano de 2023 que nos permitiram refletir sobre as implicações dessa proposta para a renovação das práticas formativas na pós-graduação. PRESSUPOSTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS Não são poucas as vozes que se levantam fora e dentro da academia para denunciar o monoepistemologismo do qual o sistema escolar-acadêmico faz parte. José Jorge de Carvalho, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para a Inclusão no Ensino Superior e Pesquisa, a partir do programa Encontro de Saberes, persegue o objetivo de fissurar esse monólito epistemológico acadêmico promovendo a inserção de mestras e mestres das sabedorias populares em cursos de graduação de várias universidades do país e exterior (Carvalho, 2014; Carvalho e Aguas, 2015). Desse programa já participaram Ailton Krenak e Antonio Bispo dos Santos, entre muitos outros mestres e mestras. Krenak, em várias obras publicadas (2019, 2022) nos propõe a ampliação do que entendemos como humanidade, natureza, cultura, demostrando com inúmeros exemplos como nosso pensamento está limitado pela cultura chamada ocidental, em sua forma dicotômica e tecnicista de ver o mundo. Antonio Bispo dos Santos (2023) nos convida a semearmos palavras, tal é o grau de contaminação de nossos pensamentos por palavras que, a exemplo de desenvolvimento, aprisionam nosso pensamento. Aliás, denúncia que há muito vem sendo feita mesmo dentro da tradição científica ocidental, como quando Pierre Bourdieu (1996) advertia os cientistas sociais sobre as estruturas estruturadas e estruturantes do pensamento e da linguagem, e, antes dele, Bakthin (1929), Vygotski (1930) e Wittgestein (1956). Sinteticamente falando é a linguagem científica, portanto, que confere ao sistema escolar um lugar con-sagrado na hierarquia social, constituindo-o como lugar especialista na educação, produção e circulação de conhecimentos. Como fruto de um longo processo histórico de dominação colonial eurocêntrica sobre outros territórios e culturas do mundo, a ciência moderna foi se constituindo como um saber “neutro”, moldado por uma cultura específica que aposta na cisão entre o corpo e o espírito, os sentidos e a razão, o sujeito e o objeto, a objetividade e a subjetividade O racionalismo científico construído por este modo de pensar é capaz de tudo transformar em objeto, logo, não-sujeito. O olhar científico, “examina, compara, esquadrinha, mede, analisa, separa... mas nunca exprime”, como afirma Alfredo Bosi (1988, p. 77), sobre a dissecação da realidade pelo olhar científico. O resultado do desenvolvimento desse paradigma científico hegemônicos ficou explicito com a captura da ciência, especialmente na dimensão tecnológica, pelos poderes econômicos e políticos interessados principalmente no desenvolvimento da produção industrial e das tecnologias para fins militares. Diante da bomba atômica e inúmeras outras tecnologias de destruição em massa, da perpetuação da fome, epidemias e, mais recentemente, da mudança climática que vem se manifestando cotidianamente na vida das pessoas e em eventos extremos, a ideia de que a ciência seria suficiente para orientar e guiar a humanidade com segurança para preservar o futuro da espécie já não é muito convincente. Hoje sabemos que a ciência serve tanto para inventar meios de preservar a vida, quanto para inventar meios de destruição, e neste momento, saber para que serve a ciência não é uma questão tão pertinente quanto o saber a quem ela serve. Podemos então, hoje, retomar a experiência como fonte de pensamento e, desta forma, recusar o monopólio do racionalismo científico ocidental na forma como ele foi construído, excluindo o mundo sensível na produção das “verdades”. Há um pressuposto que tem nos orientado. Concebemos os processos de organização e de criação cultural como resultado complexo da condição cosmo-perceptiva e cultural cognitiva humana, que se desenvolve por intermédio das experiências históricas cotidianas. Todos os seres humanos são portadores dessa condição. Sendo assim, as culturas humanas entrelaçam as dimensões mítico-simbólica, lógico-epistêmica e mistérica, como afirma Coll (2002, p. 81). Os mistérios são pressupostos e chave para a produção contínua de conhecimentos. Os processos de desenvolvimento dos movimentos sociais também são resultados dessas condições. Esse entrelaçamento de experiências cria um diversificado campo cultural, que pode ser lido enquanto um patrimônio das experiências da condição humana. Herdamos, então, um patrimônio extraordinário e complexo de sabedorias e de tradições culturais, na forma de diferentes artefatos musicais, artísticos, epistêmicos, gastronômicos, de ritos celebrativos, entre outros, nos quais os movimentos sociais estão imbricados. Contudo, para Galvani (2002), há dois desafios fundamentais, colocados para a humanidade nas encruzilhadas dos tempos hodiernos. O primeiro está relacionado ao desequilíbrio ecológico devido à busca incessante do lucro. O segundo, de natureza antropológica, relativo às trocas transculturais. Concebemos ambos os desafios enquanto resultantes de uma cosmo-percepção-cultural-cognitiva, ocidental de se relacionar e produzir nesse mundo. Um modo que reduziu o real a apenas um nível de realidade. Essa visão redutora, egocêntrica da realidade, impôs uma ideologia cientificista como central à formação humana, que divide as culturas humanas, segundo uma lógica nacionalista, referenciada na dificuldade de perceber o outro na sua expressão transcultural. O sistema escolar abandonou as tradições culturais específicas, abraçando como verdade unicamente o conhecimento técnico-científico supostamente universal, que inferioriza outras formas de conhecimento (Krenak, 2022). O sistema de ensino superior coroa e conduz esse processo de apagamento e desvalorização de todas as cosmopercepções e cosmovisões, epistemes e métodos de construir conhecimentos e ensinar que não tenham origem na racionalidade técnico-científica ocidental. Essa ação produz epistemicídios e desequilíbrios sistêmicos nos diferentes ecossistemas cognitivos. CONSTRUINDO UMA DISCIPLINA IN(VE)STIGADORA Não “inventamos a roda”, muito pelo contrário, para desenhar a disciplina Movimentos Sociais, Identidades e Cidadanias Interculturais bebemos em fontes diversas, dentro e fora da academia, sobretudo na Educação Popular como vem sendo desenvolvida em muitos lugares do país, da América Latina e outras terras além. Desde a Sistematização de Experiências (Jara, 2021), passando e pelas metodologias de pesquisa-ação e pesquisa participante (Fals Borda, 2010; Brandão, 2007; Thiollent, 1999), buscamos as experiências dialógicas (Freire, 1996) para o estudo de experiências de movimentos sociais e outras formas de organização da ação coletiva. Com foco no território pernambucano, mas não exclusivamente local, provocamos nossos estudantes a estarem atentos as formas específicas de atuação e formação de militantes pelos movimentos sociais, e que estejam atentos às inventividades, adaptabilidades que revelam estratégias e táticas de resistência e resiliência, enfim, atentos às camadas que “encobrem” o que realmente sustenta e explica a permanência de tradições culturais em grande parte ancoradas em culturas afrodiaspóricas e indígenas oprimidas pelo sistema capitalista. Entendendo que a interação entre pesquisadores/as acadêmicos/as e movimentos sociais exige esforço para diminuir os efeitos das hierarquias socialmente construídas sobre uns e outros, a disciplina MSICI se baseia na construção de experiências dialógicas de caminhos investigativos protagonizados por grupos de estudantes da disciplina junto aos movimentos sociais e coletivos locais que atuam como forças catalizadoras de ações coletivas voltadas, geralmente, à defesa e conquista de direitos sociais relacionados às políticas de moradia, emprego e renda, sexualidade e gênero, saúde, educação, comunicação e cultura, considerando também a diversidade de grupos que atuam nas tradições culturais afroindígenas como maracatu, cavalo marinho, caboclinho, afoxé, etc. A cada edição da disciplina são discutidas e realizadas pesquisas exploratórias com esses movimentos e coletivos, em que os discentes, divididos em grupos de 4 ou 5 integrantes, interagem com os participantes do movimento/coletivo. Valendo-se de métodos como observação (participante ou não), entrevistas individuais e grupais, produzindo registros audiovisuais e escritos (caderno de campo), os grupos buscam referências em outras pesquisas para elaborar textos interpretativos dos achados. E, por fim, organizam rodas de conversa onde os ativistas dos movimentos sociais são chamados a palestrar e debater com o público. Muitos destes trabalhos realizados desde o ano de 2017, não todos, estão publicados no blog “Movimentos Sociais, Educação e Identidades” (
www.movimentossociaiseduca.org). CONSIDERAÇÕES FINAIS As experiências desencadeadas na disciplina produziram processos formativos que transitam entre os lugares da academia e dos diferentes territórios dos movimentos sociais. A busca pela constituição de dinâmicas pluripistêmicas nos processos de produção de conhecimentos e de formação não é simples, nem acontece automaticamente. Durante o ano de 2023, os 4 grupos formados pelos mestrandos e mestrandas tomaram como foco a atuação dos movimentos sociais no campo da cultura. Conseguimos chegar no território do povo indígena Pankararu do sertão para pesquisar sobre a IV Mostra Pankararu de Música, realizada em setembro de 2023. Estudamos também a atuação dos movimentos culturais negros da região metropolitana do Recife, com um grupo estudando o movimento negro nas artes cênicas e outro estudando a atuação dos Afoxés na música. Tivemos também a oportunidade de mergulhar no universo da Rede de Bibliotecas Comunitárias, com suas riquezas e pluralidade de modos de atuar e educar nas periferias do Recife e de Olinda. Além de várias lideranças locais, contamos também com a participação de Vitor da Trindade, neto do pernambucano Solano Trindade, ativista, ator, autor, dramaturgo, que fixou as tradições culturais pernambucanas em São Paulo, que participou da Roda de Conversa “MOVIMENTO NEGRO EDUCADOR: Corpo negro em movimento(S) de (R)existência”, que, como as demais rodas de conversa, é aberta ao público, desencadeando um processo relacional efetivo entre a Pós-graduação e a sociedade. Os diferentes trabalhos escritos produzidos compreendem diferentes gêneros, artigos acadêmicos, trabalhos para apresentação em congressos, podcast e matérias para o blog da disciplina. Podemos afirmar que as experimentações pluriepistêmicas têm criado um campo fértil para repensar os processos formativos na pós-graduação, que, para além de proporcionar formação por meio de disciplinas teóricas, se transforma em um espaço de criação e trocas culturais coletivas, que inclui o estímulo à criação literária, acadêmica ou não, e de outras criações artesanais e audiovisuais. REFERÊNCIAS BISPO DOS SANTOS, Antônio. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora / Piseagrama, 2023. BOSI, A. Fenomenologia do olhar. In: NOVAES, Adauto (org.). O olhar. São Paulo: Cia. das Letras, 1988. CARVALHO, José J.; ÁGUAS, Carla. Encontro de Saberes: um desafio teórico, político e epistemológico. In: CUNHA, Teresa; & SANTOS, Boaventura S. (orgs.), Colóquio Internacional Epistemologias do Sul: Aprendizagens Globais Sul-Sul, Sul- Norte e Norte-Sul - Atas, Coimbra: Centro de Estudos Sociais͕, p. 1017-1027, Junho 2015. COLL, A. Nicolau. As culturas não são disciplinas: existe o transcultural. In: NICOLESCU, Basarab et al. Educação e transdisciplinaridade. São Paulo: Triom, 2002. p. 73-92. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. GALVANI, Pascal. A autoformação, uma perspectiva transpessoal, transdisciplinar e transcultural. In: COLL, A. N. et al. Educação e transdisciplinaridade II. São Paulo: Triom, 2002. p. 93-122. KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Cia. das Letras, 2019. ______. Futuro Ancestral. São Paulo: Cia das Letras, 2022.