ALIANÇAS AO SUL: POLÍTICAS DE EDUCAÇÃO POPULAR ENQUANTO FORMAS DE RESISTÊNCIA O trabalho em tela, aborda o projeto educacional de Moçambique no período de 1964-1974, delimitada ao estudo das políticas de educação popular adotadas sob a perspectiva pós-colonial. Intenciona-se (re)construir as linhas de solidariedade e de resistência construídas no Sul global, interpretando princípios comuns entre pensamento de Paulo Freire e da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO[1]). Demonstra-se como foram articulados, na prática, os contatos entre Paulo Freire e a FRELIMO, no plano do projeto educacional e de descolonização. O material bibliográfico e a entrevista que suportam a argumentação resultam do recorte da pesquisa do doutorado em andamento que tem demonstrado interseções entre projeto político de descolonização e a promoção da educação popular no período estudado. Em termos metodológicos seguimos o filosófico Ujamaa em triangulação com a etnografia à distância, pela sua capacidade de combinar a investigação social, prática política e a educação em um processo interligado, que atua em complementaridade entre o conhecimento acadêmico e popular. A filosofia Ujamaa, praticada em todo território Tanganyikano se funda nas tradições e valores compartilhados pelos pobres e marginalizados e defende seu bem-estar e, ao mesmo tempo, se coloca a favor da libertação das epistemologias ocidentais (Hall, 2005). Segundo Hall[2] (2005, p. 5) é da experiência da filosofia Ujamaa que nasce o método da pesquisa participativa, pois, “foi articulado pela primeira vez na Tanzânia no início da década de 1970 para descrever uma variedade de abordagens baseadas na comunidade para a criação de conhecimento. Juntas, essas abordagens combinam investigação social, educação e ação em um processo inter-relacionado". Em parte, a este contexto, se justifica o fato de a Tanzânia ter sido o primeiro território africano no qual Paulo Freire adentrou em África, a partir de uma visita a convite da Universidade de Dar es Salaam, em setembro de 1971. A esse respeito, Freire (1997. p. 9) confirma que “meu primeiro encontro com a África não se deu, porém, com a Guiné-Bissau, mas com a Tanzânia, com a qual me sinto, por vários motivos, estreitamente ligado.” Tanzânia, nessa altura, tinha se tornado referência na alfabetização de Adultos, pois, junto à universidade de Dar es Salaam, o Instituto de Educação de Adultos era responsável por formar educadores de adultos e fazer pesquisas sobre vários métodos de educacionais, por isso, em 1976, realiza a Primeira Assembleia Mundial do Conselho Internacional de Educação de Adultos, que reúne pesquisadores de quase todos os continentes. O trabalho de Freire na Tanzânia aparece documentado em forma de brochura organizada na série Studies in Adult Education, cujo título é Palestra de Paulo Freire, editado por Budd Hall. Enquanto Paulo Freire realizava sua atividade de visita na Tanzânia, recebe de um dos dirigentes da FRELIMO o convite para visitar a escola e os campos de Bagamoyo. Referindo-se a esse encontro Freire (2022, p. 204) escreve que Aquele encontro em Lusaka, tal qual o que tive em Dar Es Salaam, com a liderança da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) que me levou ao Campus de Formação de quadros, um pouco afastado de Dar, num lindo sítio cedido pelo Governo da Tanzânia, me marcou fortemente. Naquele contexto histórico e geopolítico, a preocupação dos militantes da FRELIMO era uma reflexão crítica sobre a alfabetização, ou seja, “o que eles queriam era entregar-se” junto do Freire “à reflexão crítica, teórica, sobre sua prática, sobre sua luta” (Freire, 2022, p. 204). Tratam-se de encontros que ficaram marcados e transformaram o pensamento freiriano como sinaliza no livro posterior à viagem Esta foi uma satisfação – a de, sendo um pensador da prática educativa, ter sido compreendido e convidado por militantes em luta, ao diálogo em torno de sua própria luta, armada ou não, que me acompanhou por toda a década de 70 e se prolonga (...). Mas, ao lado da satisfação desses encontros, a alegria de muitos outros, nos quatro cantos do mundo, com gente progressista, sonhando o sonho possível de mudar o m undo (Freire, 2022, p. 204). Nessa altura, a FRELIMO buscava inverter a história da educação do período colonial em Moçambique, fortemente marcada pela presença do elitismo e exclusão. A educação oferecida para os filhos dos brancos era diferente da oferecida às classes populares negras. A educação reproduzia a fragmentação social e se guiava pela lógica colonial. Aos considerados indígenas era oferecida a instrução apenas para servir ao mercado colonial. A história ganha uma inversão ideológica quando a FRELIMO inicia a luta anticolonial, em 1964, pois tomou a educação como base para a assimilação crítica da luta realidade e dos objetivos de luta. Assim, desencadeia um conjunto de ações que visavam construir uma política educacional voltada para os objetivos de libertação. No I Congresso, realizado em 23 a 28 de setembro de 1962 em Dar-Es-Salaam, decidiu-se incluir na sua política de descolonização as atividades do departamento da Educação e Cultura. O Comité Central foi instado a “estabelecer uma seleção de jovens moçambicanos, capazes de continuar os seus estudos e de lhes proporcionar os meios de sair do país para o estrangeiro, onde pudessem encontrar lugares nas instituições secundárias e superiores” (FRELIMO, s/d, 78). Como país parceiro, Eduardo Mondlane, optou inicialmente pela parceria com o Brasil. Nessa via, há registro de um "memorando" intitulado limitless potential (potencial ilimitado). No volume que tivemos acesso há registro de trocas de correspondências entre Eduardo Mondlane e Francis Sutton (este último representante da Ford nos EUA[3]), num dos documentos existe uma nota manuscrita indicando que a Ford em Nova York deveria interceder o pedido de Mondlane ao representante da Fundação Ford no Rio de Janeiro, Reynold E. Carlson. Sabe-se que a partir de Rio de Janeiro foram enviados vários livros didáticos para o Instituto moçambicano em Tanzânia. Apesar de não existir no lote de informações disponíveis o registro de envio de professores brasileiros para o Instituto Moçambicano, os nossos entrevistados Frouke e Jan Draisma, afirmaram que na Escola de Bagamoyo da FRELIMO mais tarde participaram do projeto educacional os professores brasileiros Kunio Suzuki em 1973-1975 e Valentina Peixoto[4], em 1974. Tivemos em Bagamoyo um colega brasileiro, nos anos 1973-75. Era Kunio Suzuki, professor de História. De 14 de abril a 14 de maio de 1974 houve em Bagamoyo um seminário sobre Alfabetização de Adultos, com participantes de vários Centros educacionais da FRELIMO. Participou também uma especialista brasileira, Valentina Peixoto” (Frouke e Jan Draisma, 2025, entrevista cedida). Depois desse seminário houve espaço de troca de experiência e produção de um relatório sobre o trabalho desenvolvido e o que deveria se seguir no processo de alfabetização desenvolvido pela FRELIMO. Sobre o contato entre Paulo Freire a FRELIMO Frouke e Jan Draisma afirmam que Em setembro de 1971 veio para Bagamoyo o especialista brasileiro Paulo Freire, que explicou aos professores de Bagamoyo, e talvez também a uma pequena parte dos alunos, o seu método de alfabetização. Nós ouvimos durante alguns dias as ideias dele[risos] parecia um teatro, o encontro foi numa sala que antes era um restaurante alemão no tempo colonial, em frente do oceano índico, muito bonito por sinal, que tinha sido transformado em uma sala, tinha na sala garrafas de gás, azulejos, ele se sentou por ali e falava do seu método, por vezes, ele ficava cansado e se deitava [risos]. Depois de ouvirmos penso que os professores: Elisabeth Siqueira, Luís Paulo e Libombo, fizeram o livro de alfabetização e o manual do professor que foram usados posteriormente, na capa vinha um guerrilheiro-alfabetizador e uma arma na mão, explicando algo num livro a um camponês (entrevista cedida, em 2024). Fonte: Xénia de Carvalho (2023, p. 14) Publicação autorizada pelos nossos entrevistados. Livro de Alfabetização de 1972 (capa do livro) impresso em Dar es Salaam e foto descrita pelos Draismas: “Os estudantes estão saindo para atividades de férias no norte de Moçambique e no sul da Tanzânia. Na foto, vários alunos do primeiro grupo (1970) podem ser vistos, bem como um participante de um programa de treinamento de professores. Portanto, a foto pode ter sido tirada no final de 1971, ou no final de 1973”.© Arquivo pessoal de Frouke e Jan Draisma. E, para ir fechando provisoriamente o texto, em jeito de notas finais, a pesquisa tem revelado que o período em estudo, 1964-1974, é muito rico na produção de materiais ainda inéditos na educação Popular Moçambicana, pois os contatos, a partilha de conhecimentos embasados no pensar coletivo e na necessidade de Ser mais freiriano, por um lado, contribuíram para o desenvolvimento de uma educação popular em Moçambique e, por outro lado, ofereceram ao Paulo Freire instrumentos pedagógicos que concorreram para a concepção do materialismo histórico na educação em contextos diferenciados. Quer a FRELIMO, quer Paulo Freire corroboram a compreensão da educação como prática emancipatória e comprometida com a liberdade dos sujeitos, e não como instrumento neutro e desapaixonado de compreensão da realidade. Em ambos a educação representava um ato de solidariedade e de engajamento político, através da permanente ação de transformação da realidade concreta, que atravessada pelo regime colonial, desumanizava a todos, em especial, o povo moçambicano. E esse processo educativo lhes possibilitava a sua conscientização como seres históricos-sociais, que lutavam pela dignidade humana (Freire, 2020). REFERÊNCIAS CARVALHO, Xénia Venusta. Memories of (Un)Freire literacy policies in Southern Africa from the 1970s on: telling the (hi)story through life histories and photography (dis)empowerment in Mozambique. LUSOTOPIE, 2023. Disponível em:
https://repositorio.iscte-iul.pt/handle/10071/29462 . Acesso em: 04 de março de 2025. FREIRE, Paulo. Cartas a Guiné-Bissau: Registros de uma experiência em processo. Paz e Terra. 1997. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança: Um Reencontro com a Pedagogia do Oprimido. Paz & Terra, 2022. FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 2020. HALL, Budd. L. In from the cold? Reflections on participatory research from 1970-2005. In Convergence, 38,(1).p. 5-24. [1] FRELIMO, Frente de Libertação de Moçambique, movimento político, libertador e revolucionário fundado, a 25 de junho de 1962, é responsável por desencadear a luta anticolonial que culminou com a independência de Moçambique, em 25 de junho de 1975. [2] Budd Hall, próximo de Orlando Fals Borda, foi professor do Instituto de Adultos na Universidade de Dar-Es-Salam entre 1970-1974, próximo de Julius Nyerere, era amigo de Paulo Freire,” foi ele a pessoa responsável pela visita de Freire à Tanzânia em setembro de 1971 e o apresentou a Julius Nyerere" (Carvalho, 2023, p. 95). [3] A Fundação Ford ao conceder apoio à Eduardo Mondlane e sua esposa, Janeth Mondlane, não estava ciente de que estava a apoiar o movimento de libertação de Moçambique, porque para além de ser rara a referência direta ao Instituto Moçambicano, o projeto inicial era de recrutar estudantes refugiados moçambicanos para ingressarem às universidades no estrangeiro, sem nenhum compromisso de retornarem ao seu país de origem. Mondlane encontrou uma forma de usar os fundos da Ford para a Libertação, para isso, os fundos eram encaminhados para uma Instituição indireta, esta por sua vez repassava à Eduardo Mondlane. Sabe-se que, quando a Fundação Ford soube da ligação entre o projeto por eles financiado e a FRELIMO retiram o financiamento, porque não poderiam quebrar o pacto colonial com Portugal. [4] Neste momento esperamos desenvolver ações de pesquisa e investigação que nos podem encaminhar até aos professores brasileiros referenciados.