A EDUCAÇÃO PROFISSIONAL DIANTE DA EMERGÊNCIA CLIMÁTICA: CONTRIBUIÇÕES DE PESQUISADORES DO CAMPO CRÍTICO MARXISTA

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Resumo
A EDUCAÇÃO PROFISSIONAL DIANTE DA EMERGÊNCIA CLIMÁTICA: CONTRIBUIÇÕES DE PESQUISADORES DO CAMPO CRÍTICO MARXISTA Nós somos passageiros de um trem suicida. Esse trem se chama civilização capitalista moderna. Ele está indo numa velocidade crescente em direção ao abismo que se chama catástrofe ecológica, catástrofe climática. A nossa tarefa revolucionária é parar esse trem suicida e louco. E mudar a sua direção. (Michael Löwy em 2023) Antes do recorte principal – anunciado desde o título acima –, vale dizer que este trabalho tem como pressuposto um encontro, entre o que denominamos como sendo a Educação Ambiental Crítica (EA-Crítica) com a Educação Profissional (EP). Um encontro teórico-político que alguns pesquisadores dos campos científicos em Trabalho-Educação (TE) e da EA-Crítica nos deram, no contexto de autores brasileiros (cf. Bomfim, 2011, 2011b; Löwy, 2013, 2005; Trein, 2022; entre outros), como também de autores estrangeiros (Mészáros, 2002; Foster, 2005; Lipietz, 2003; Saito, 2021; Chesnais e Serfati; entre outros), nesse primeiro quarto do século XXI. Em que o referencial teórico protagonista, no caso, o materialismo histórico-dialético é ponto de convergência. Afinal, o que os pesquisadores e seus estudos da área em TE oferecem à Educação Ambiental? E considerando a contrapartida, o que essa EA-Crítica tem a dizer à Educação Profissional, especialmente o que tem a dizer à área de TE? Nosso caminho teórico-metodológico Assim, propõe-se também o caminho teórico-metodológico: dentro do materialismo histórico-dialético. Por aqui, buscamos entender como a Educação Profissional pode se construir ou se reconstruir diante das questões atuais postas pelo que chamamos de emergência climática. Isso é o que apresentamos aqui nesse breve trabalho. A Educação Ambiental que nos referimos é, antes de tudo, anticapitalista! Para se diferenciar de outras, precisamos adjetivá-la como Educação Ambiental Crítica (EA-Crítica), porque não conseguimos ver solução para o meio ambiente dentro do modo de produção capitalista. Nossa EA-Crítica tem como pressuposto a luta de classes para entender a degradação ambiental, por conta disso, busca apreender a realidade a partir dos conflitos socioambientais. Uma das tarefas dessa EA-Crítica é revelar o conflito socioambiental não evidente. Nossa EA-Crítica não compactua com a proposta de Desenvolvimento Sustentável – termo cunhado sobretudo no relatório Brundtland, 1991, mas fortemente criticado por autores como: Foladori (2001), Layrargues (1997) etc. destaque especial por Ignacy Sachs (1986, 2002, 2004) –, porque entende que esse caminho é um paliativo proposto pelo sistema do capital (Mészáros, 2002). Essa EA-Crítica é interessada nas questões políticas, econômicas e sociais, porque se constitui humanista, quer dizer, não se reduz ao biocentrismo, contudo também não é antropocêntrica. Em última instância, se não há saída para classe trabalhadora no sistema do capital, também não há para a natureza. Análise e discussão de resultados: da construção dos conceitos até um horizonte Emergência climática Emergência climática é a constatação de que já vivemos as mudanças climáticas de grandes proporções, de extensão planetária, em que se observa aumento de temperatura de maneira geral, em que vemos maior frequência de eventos extremos (como recordes pluviométricos, ondas de calor, como também períodos de frio excessivo, de seca prolongada, inundações de rios etc.), em que vemos a descaracterização do microclima das regiões, a perda de identidade das estações do ano, imposição de maior imprevisibilidade aos meteorologistas (IPCC, 2021). Emergência Climática é a percepção de que os problemas ligados ao ambiente impuseram alterações ao próprio clima e com a iminência de seu agravamento. Eis a questão principal: o que ainda dá tempo para se fazer? Da prudência ecológica à luta anticapitalista Acima já nos opomos à ideia de “Desenvolvimento Sustentável”, porque não traz nenhuma trava ao sistema do capital. O sistema do capital continua potente para: desmatar a favor da agricultura; escavar o solo, destruir cenários e poluir as águas pela mineração; expulsar populações originárias; submeter fauna e flora com a justificativa de que é pela segurança alimentar etc. Definitivamente, não é possível conciliar desenvolvimento com preservação ou conservação ambiental. Vemos que não tem sido possível desenvolver sem degradação na sociedade capitalista – pelos parâmetros que possuímos hoje. É possível levantar uma proposta para além do capital? Voltemo-nos ao conceito de “prudência ecológica”. Comumente associado ao conceito de Desenvolvimento Sustentável (vale conferir ISA, 2024), prudência ecológica é partícipe de um tripé, que se complementaria com a “eficiência econômica” e com a “justiça social”. Quer dizer, de fácil de observação, a justiça social nunca foi e nunca será propósito do capitalismo. Parece-nos que a eficiência econômica é o que mais se deseja. E a prudência ecológica? O que argumentamos aqui essa tríade é uma aporia, que eficiência econômica não é somente inconciliável com justiça social, como também é em relação à prudência ecológica. Se o primeiro entra, os outros dois itens saem, pois é uma relação trade-off no sistema do capital. O capitalismo não pretende ser prudente. Não obstante, entendemos que “prudência ecológica” deveria ser a ação cautelosa que, considerando a reprodução de nossas vidas, tanto em seus aspectos materiais quanto imateriais, não perde de vista o propósito de melhorar a relação com o ambiente. No fim das contas, seria a compreensão ampla de trabalho humano reconectado à natureza. Assim, chegamos que o Trabalho (expressão da atividade humana) e em sua relação com a Educação, precisa imprescindivelmente reconsiderar de que maneira deve se relacionar com a natureza, como se constituir menos agressivo, no fim, mais cauteloso. Se vamos seguir com essa “luta ecológica” (Acselrad, 2010), será que podemos influenciar o desenvolvimento científico-tecnológico? Dentro do capitalismo será muito difícil, mas partindo com essa ideia de que se trata de uma luta, talvez possamos indicar um caminho... Como fica a Educação Profissional diante da Questão Ambiental? Primeiramente, agora que vamos refletir sobre a Educação Profissional (EP) propriamente, vale demarcar logo uma posição: supomos possuir ainda tempo para reverter o atual processo de degradação ambiental para algo favorável ao homem e à natureza atual. Depois disso, a EP que precisamos construir, para enfrentar à problemática ambiental, precisará se posicionar na esteira crítica dos filósofos da práxis. Terceiro, precisa se desvencilhar da sedução que o sistema do capital exerce com sua educação ambiental alienante (que podemos adjetivar de inúmeras formas: educação ambiental conservadora, educação ambiental para o desenvolvimento sustentável, educação ambiental conciliatória etc.). Podemos obter uma Educação Profissional Ambientalmente Crítica que: não se deixe associada ao tecnicismo, presente nas tais tecnologias verdes; não se restrinja às propostas paliativas de mitigação; rejeite o mercado de créditos de carbono, desconfiando do mercado verde etc. O que estrategicamente talvez não signifique renunciar esses lugares, mas compreender que são insuficientes, que não são pontos de chegada. Não adianta trabalhar em plásticos biodegradáveis se o processamento de plásticos perenes não esbarrar em políticas para sua diminuição, não adianta se preocupar em mitigar as consequências dos gases de efeito estufa (GEE) enquanto o sistema não recua para manter produção e mercado em energia de base fóssil. A questão ambiental precisa entrar na EP da mesma forma que entra para os educadores ambientais. É imprescindível ter o meio ambiente como um tema central. Depois disso, pressupondo que tanto a EP e a EA estão postos do lado contrário ao sistema do capital, vale: (a) teorizar e agir no contraponto à lógica desenvolvimentista; (b) romper com a estrutura hegemônica que camufla a incontrobilidade do capital, denunciando a relação antagônica entre esse modo de produzir e o meio ambiente (relação trade-off); (c) não supervalorizar o avanço técnico-tecnológico como garantia de um ambiente favorável às gerações futuras; (d) observar que os incrementos tecnológicos não são apolíticos, por possuírem suas próprias características sociais-culturais inscritas, nem sempre garantirão desenvolvimento ético-ecológico. Na tríade atribuída ao Desenvolvimento Sustentável, é importante que a EP não dê prioridade maior à eficiência econômica, mas muito mais à justiça social e à prudência ecológica. Não obstante, tanto a EP quanto a EA, que se pretendem críticas, sabem que essa realização em sua plenitude só pode ocorrer numa outra economia, noutro modo de produção, noutro sistema social... Esse é o horizonte a ser perseguido! Nossas considerações finais: que relação entre Trabalho, Educação e Ambiente, afinal? Em relação ao encontro da ciência e a educação com a questão ambiental, torna-se indispensável considerar essa realidade iminente em todos os instantes, do momento da pesquisa ao momento do ensino, passando pela divulgação até a ação política. Nosso pressuposto é que pesquisadores alinhados aos grupos hegemônicos precisarão se esforçar mais e mais para esconder suas contradições. Isso deverá ocorrer pelo aumento de mecanismos de produção de mentiras ou uso absoluto da violência. Estamos perigosamente flertando com o que os ambientalistas chamam de “ponto de não retorno”, por que não consideramos isso como algo iminentemente perigoso? Até quando vamos chamar ambientalistas de alarmistas-extremistas? Em nome de quê? Da vida que levamos hoje, pela manutenção deste sistema que já tem sido ruim para maior parte das pessoas? A Educação Profissional (EP), em especial, terá que ser atravessada integralmente por essa Educação Ambiental Crítica (EA-Crítica), desde o acolhimento de seus alunos, da formação inicial até sua formação continuada, desde seu aspecto técnico-tecnológico até o político. Claro, não estamos num modo de produção favorável, sabemos que não é possível que qualquer educação se realize plenamente aqui, já que os impedimentos do próprio sistema do capital são enormes. Mas, nessas condições o que é possível realizar? Podemos vislumbrar uma travessia? Não podemos potencializar as contradições? Para isso, precisamos enxergar as contradições, estudar e pesquisar, considerar os conflitos de interesse, indicar caminhos contra-hegemônicos... Isso é praticamente o que os filósofos da práxis da área de Trabalho e Educação sempre fizeram com a EP, com o intuito de fazê-la a favor da classe trabalhadora (Bomfim, 2011a). Teórico-metodologicamente estamos perto da maior contradição para o ser humano: a constatação que a economia do sistema do capital não é capaz de dar solução ao próprio problema ambiental que engendrou (Löwy, 2013). Ainda lutamos por apreender o futuro, mas disputamos esse futuro com as classes dominantes. Até supomos que essas mesmas classes não queiram a destruição do planeta, mas se esforçam em impor, de forma hegemônica, que a economia que sustentam não tem total responsabilidade com isso. Isso explica por que a Ciência está do nosso lado, porque não queremos só a “prudência ecológica”, mas também a “luta ecológica”, porque precisamos sacudir as estruturas desse modo de produção agora. Isso deve ser a motivação dos educadores e pesquisadores críticos, do início de cada manhã e até a hora de dormir, sete dias por semana, para todos meses e anos que estão vindo... REFERÊNCIAS ACSELRAD, H. Ambientalização das lutas sociais - o caso do movimento por justiça ambiental. Dossiê teorias socioambientais. Estudos Avançados. 24 (68). São Paulo: Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo - USP, 2010. Versão on-line ISSN: 1806-9592. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ea/a/hSdks4fkGYGb4fDVhmb6yxk/?lang=pt# BOMFIM, A. M. Educação Ambiental (EA) para além do capital: estudos e apontamentos para a EA sob a perspectiva do trabalho. Revista Trabalho Necessário, Niterói, ano 9, n. 13, p. 1-20, junho. 2011b. Edição especial. Disponível em: https://periodicos.uff.br/trabalhonecessario/article/view/6849/5132. Acesso em: 21 jun. 2024. BOMFIM, A. M. Trabalho, Meio ambiente e Educação: apontamentos à educação ambiental a partir da filosofia da práxis. 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