PERCEPÇÕES DE ESTUDANTES DO ENSINO MÉDIO SOBRE OS IMPACTOS DOS DISPOSITIVOS DIGITAIS NA SAÚDE MENTAL E NO PROCESSO EDUCATIVO Introdução O crescente uso de Tecnologias Digitais ao longo dos últimos anos (IBGE, 2023) tem se intensificado, especialmente com o uso das redes sociais. Segundo os dados do IBGE, pessoas que utilizam internet, passaram de 66,1% para 88,0% em 2023, um aumento de 21,9% em sete anos. Entre os estudantes, os dados revelam que 91,9% utilizam a internet em todo Brasil. O contexto pós-pandemia da Covid-19, segundo Gomes et al. (2022), ressaltou ainda mais a presença das tecnologias digitais (TD) na vida dos jovens. Na preocupação com a estagnação dos processos educativos na transição para o ambiente virtual, a instituição de ensino passou a acompanhar de perto a aplicação das atividades online. Esses fatos estabelecem novas formas de aprendizagem, relações e interações com o mundo. Para Lévy (1999), as TD não são neutras, pois impactam diretamente a forma como os indivíduos aprendem e interagem com o mundo Inserido no processo educativo, encontra-se a juventude tecnológica, que vem sendo afetada na sua subjetividade pela cultura digital. Para Dayrell e Reis (2007), a juventude não é uma característica fixa e imutável, mas uma construção social e dinâmica que varia de acordo com diferentes contextos históricos, sociais e culturais em que estão inseridos, conforme as mudanças ao longo do tempo. Silva e Silva (2017) enfatizam que os jovens, sendo mais vulneráveis aos efeitos das tecnologias digitais, enfrentam riscos como vícios e isolamento social, o que dificulta a interação saudável e a distinção entre realidade e virtualidade. O uso excessivo de tecnologia pode ainda afetar negativamente o equilíbrio mental, aumentando problemas como falta de atenção, obsessões, ansiedade e dificuldades na linguagem, o que impacta a aprendizagem. A crescente inserção das tecnologias na educação gera mudanças significativas no modo como estudantes acessam e processam informações. A BNCC (Brasil, 2018) e o Currículo Base do Ensino Médio Catarinense (Santa Catarina, 2019) destacam a necessidade de abordar o uso consciente das TD na formação dos jovens. No entanto, o uso excessivo desses dispositivos pode impactar a saúde mental, gerando problemas como ansiedade, isolamento social e baixa concentração nos estudos. Para discutir essa problemática, este texto tem como objetivo analisar a percepção dos estudantes do ensino médio no impacto das TD na saúde mental e na aprendizagem. Metodologia Trata-se de uma pesquisa qualitativa, que busca compreender as interações dos estudantes com as TD e seus impactos na saúde mental e no aprendizado. Por se tratar de um fenômeno subjetivo, segundo Ludke e André (2013), a abordagem qualitativa é a mais adequada. A investigação foi realizada com doze estudantes, do primeiro ano do Ensino Médio de uma escola particular localizada em Joinville/SC. Os dados foram coletados por meio do grupo de discussão, que permite a troca de ideias e reflexões coletivas. Para a seleção dos participantes, após aprovação pelo Comitê de Ética do projeto, parecer número 7.125.849, foi realizado o contato inicial com os estudantes e seus responsáveis, garantindo o consentimento. O encontro ocorreu no ambiente escolar, onde os estudantes foram dispostos em círculo para facilitar a interação. A discussão foi gravada, transcrita e analisada com base na Análise de Conteúdo de Bardin (2011). Esse método permite identificar padrões, tendências e significados latentes nos discursos dos estudantes. Resultados parciais As tecnologias digitais vêm produzindo efeitos significativos e em uma velocidade cada vez maior na sociedade. Com base nas entrevistas realizadas, foram identificadas percepções que revelam benefícios e desafios associados a essa realidade, organizadas em três temáticas: (1) Aplicativos mais utilizados e tempo de utilização, (2) Relações entre tecnologias digitais e aprendizagem escolar, (3) Efeitos das tecnologias digitais na saúde mental 1. Aplicativos mais utilizados e tempo de utilização Os alunos relataram o uso frequente de aplicativos para fins educacionais e entretenimento. Entre os mencionados, estão plataformas de vídeo, redes sociais e ferramentas de busca. Em relação ao tempo destinado ao uso dos dispositivos, percebe-se que a maioria dos estudantes permanece muitas horas por dia conectado. Segundo a estudante 1, “eu fico cinco horas com a minha tela ligada”, e estudante 2 mencionou que “teve uma vez que fiz uma contagem mensal que deu 72 horas no mês”. 2. Relações entre tecnologias digitais e aprendizagem escolar A maioria dos alunos reconheceu que as tecnologias digitais ampliam as possibilidades de aprendizado, proporcionando acesso rápido a informações e formas de organização. Por exemplo para o estudante 3, “se comparar com agora e antigamente, pra pesquisar na biblioteca, agora é bem mais simples e mais rápido”. Alguns estudantes relataram estratégias para utilizar a tecnologia como facilitadoras do estudo autônomo. Ferramentas de organização, aplicativos de resumo e plataformas de ensino online foram citadas. Conforme afirma o estudante 2, “youtube para explicação é o primordial”. A estudante 4 concorda “é, principalmente algumas resoluções de questões que não acho em alguns lugares”. Já para o estudante 5, “tem um aplicativo que é o Descomplica, lá tem muitos resumos dos conteúdos que dá de entender de outra forma” Essas falas indicam que, quando utilizadas de forma estratégica, as tecnologias digitais podem otimizar a aprendizagem e facilitar o processo de compreensão. No entanto, alguns relataram dificuldades em manter a concentração devido às distrações proporcionadas pelos dispositivos: “principalmente procrastinação, porque a gente passa muito tempo e deixa de fazer as coisas que tem que fazer” (estudante 6). Essas falas indicam que, apesar das vantagens, a relação de tempo e a procrastinação são um desafio significativo para os estudantes. 3. Efeitos das tecnologias digitais na saúde mental O impacto na saúde mental, foi um tema recorrente nas respostas. As falas refletem os impactos causados pelo uso excessivo dos dispositivos e a dificuldade em conseguir controlar. Há um misto de sentimentos quando afirmam: “Me sinto culpada, nossa, mas por que estou fazendo isso (estudante 7), e “Sinto arrependimento, deixo tudo para depois” (estudante 8). Também reconhecem que se sentem presos a tela ao dizerem que “É como se fosse um vazio, porque você está alí, viciado em passar o dedinho para cima” (estudante 9), “Eu tenho insônia, e ficar no celular e depois dormir eu não consigo, aí eu tomo remédio” (estudante 7). Esses sentimentos indicam que o uso excessivo de dispositivos digitais pode comprometer funções cognitivas essenciais, como alterações no córtex pré-frontal, relacionadas ao julgamento e ao controle dos impulsos. Além disso, o uso descontrolado pode gerar impactos emocionais, intensificando estados de ansiedade, insônia e dependência, dificultando a autorregulação emocional e contribuindo para um ciclo vicioso e sofrimento psíquico (Young & Abreu, 2019). Considerações Finais A análise parcial da discussão com o grupo de estudantes, revela que as tecnologias digitais afetam a educação e a saúde mental dos jovens. Se, por um lado, elas podem proporcionar acesso a informações e contribuem para o aprendizado, por outro, trazem desafios sobre como utilizar as TD de forma responsável e consciente ao, aprender a lidar com recursos imediatistas das TD e os limites da vida real. No momento dessa pesquisa, várias transformações ocorrem a fim de promover o uso consciente e equilibrado das TD. Recentemente, foi sancionada a lei n 15.100/2025, que restringe o uso de celulares na escola, com objetivo de “estimular e fortalecer a relação entre os alunos”, reconhecendo que, o excesso de recursos tecnológicos afeta a qualidade do sono, concentração e interação social. Esse novo fator merece ser investigado em momentos futuros. REFERÊNCIAS BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo. Lisboa: Edições 70, 2011. BRASIL. [BNCC, 2018]. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: MEC, 2018. BRASIL. Lei nº 15.100, de 13 de janeiro de 2025. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 14 jan. 2025. Disponível em:
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2025/lei/l15100.htm. Acesso em: 8 mar. 2025. DAYRELL, Juarez; REIS, Juliana Batista. Juventude e Escola: Reflexões sobre o Ensino da Sociologia no ensino médio. In: Anais do XIII Congresso Brasileiro de Sociologia. Recife. GOMES, C. B. T.; SANTOS, M. B. dos; SILVA, A. de M.; CAMARGO, G. F. Um projeto educativo em (dez) encontros interdisciplinares: ressignificando os sentidos do ser, pensar e agir com estudantes em isolamento social. ETD - Educação Temática Digital, Campinas, v. 24, n. 1, p. 206–219, 2022. DOI: 10.20396/etd.v24i1.8663575. Disponível em:
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