VÍDEO-CARTAS INDÍGENAS COMO INSTRUMENTOS DE RESISTÊNCIA, ARTE E ENFRENTAMENTO DE VIOLÊNCIAS Introdução O objetivo deste trabalho é apresentar a produção acadêmica de vídeo-cartas de/e sobre indígenas como instrumentos audiovisuais artísticos, culturais e de resistência e suas contribuições para a educação. O referencial teórico está fundamentado na perspectiva da Pedagogia Libertadora de Paulo Freire. Esse resumo expandido é um recorte de uma pesquisa institucional concluída de uma universidade pública do interior do Paraná. As vídeo-cartas indígenas ainda são pouco conhecidas na educação. Nas últimas décadas, elas têm sido utilizadas como instrumentos de resistência, produção de arte e enfrentamento de violências sofridas por diferentes etnias indígenas. Elas são Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDICs) que buscam transformar realidades opressoras, denunciar injustiças e socializar narrativas de populações invisibilizadas. As vídeo-cartas são recursos áudio visuais utilizadas para as pessos trocarem informações sobre suas culturas, expressarem sentimentos, comunicarem ideias, denunciarem e anunciarem propostas de superação de dificuldades. Elas são dispositivos imagético-verbais e apresentam narrativas de vidas dos seus remetentes. São postadas nos canais do youtube e em redes sociais para destinatários de todo o mundo. No Brasil, as vídeo-cartas são produzidas por movimentos sociais, professores, pesquisadores em universidades, estudantes, migrantes, indígenas de diferentes idades e contextos. Elas têm se destacado nas áreas da Antropologia, Artes, Comunicação, Geografia e, mais recentemente, na educação. Elas são documentos históricos e educativos. Andrade Neto e França (2021) no artigo “ Cosmopolítica do brilho: seguindo a arte indígena contemporânea no contexto da pandemia do coronavírus (Covid-19)” analisaram vídeo-cartas indígenas neste período pandêmico e de um governo federal autoritário que perpetuou silenciamentos brutais. Essas vídeo-cartas foram consideradas artes em telas no ciberespaço e: “Sobretudo, povoam o écran com cantos empostados em suas línguas maternas; e dançam, sonham, chamam os espíritos, difundem um sem número de fotografias e vídeos, veiculam suas coloridas pinturas e miçangas, e fazem coro em oposição às forças coloniais (Andrade Neto e França, 2021, p.56). Andrade Neto e França (2021, p.67) concluíram: “Entre outras coisas, “demarcar as telas” durante a pandemia possibilitou a continuação das lutas dos povos indígenas também no sentido de tomar para si o ciberespaço como uma arena de reivindicações”. Neste processo, os indígenas deram visibilidade as ações de defesa de direitos originários e constitucionais na luta contra o genocídio dos povos originários e de diferentes minorias. Moreira (2023) em seu artigo “Indígenas Online: povoamento e demarcação do território digital na T.I. Assuriní do Trocará”, etnia localizada na cidade de Tucuruí no Pará, o autor enfatizou a importância desses estudos como forma de resistência e ressignificação de aspectos sociais, políticos e culturais dessas nações. Também considerou que a comunicação e atuação em rede, trouxe várias representações das imagens dos indígenas que enfatizaram o significado histórico das suas participações na internet e do poder que exercem diante das telas. Esteve e Cal (2023) descreveram as dificuldades de acesso as tecnologias de diferentes povos indígenas, a importância da inclusão e do protagonismo das mulheres indígenas no ativismo digital. Para elas, a comunicação digital tem se configurado como uma nova territorialidade de luta de ativistas indígenas para além de marchas e enfrentamentos presenciais. Para elas, o ambiente digital é uma das principais formas de mobilização e visibilidade. Diante desses aspectos e da necessidade de compartilhar estes trabalhos com perspectivas educacionais e políticas é que surgiu o problema da pesquisa: Como as vídeo-cartas estão sendo discutidas na educação? É preciso destacar que, no início deste trabalho a pesquisa esteve voltada para o estudo das vídeo-cartas em diferentes contextos. Com o transcorrer da investigação, as vídeo-cartas de/e sobre indígenas foram assumindo destaque pela quantidade, qualidade dos trabalhos e por seus aspectos artíticos, culturais, políticos e sociais. Freire (2000) no livro carta “Pedagogia da Indignação”, desde a década de 1990 já utilizava a carta para denunciar as violências ocorridas com os povos indígenas, principalmente com o Indígena Galdino Jesus dos Santos, da etnia Pataxó que foi assassinado brutalmente por jovens de Brasília. Eles o queimaram vivo enquanto dormia em ponto de ônibus e alegaram que estavam “brincando”. Freire escreveu: “Que coisa estranha, brincar de matar gente. Fico a pensar aqui, no abismo de uma profunda perplexidade, espantando diante da perversidade intolerável desses moços, desgentificando-se, no ambiente em que decresceram em lugar de crescer”. (Freire, 2000,p.31). As comunidades indígenas, nas últimas décadas, têm utilizados vídeos para romper com o silenciamento, dar visibilidade e expressar as suas lutas históricas. Córdova (2011) estudou os indígenas da América Latina e demonstrou como eles têm se apropriado de rádios comunitárias, animações, filmes, documentários, filmes-cartas e vídeo-cartas. Para a pesquisadora, os indígenas estão adaptando várias formas de tecnologia, em especial os vídeos, para criarem obras sobre seus contextos. Além disso, esses vídeos indígenas têm estéticas próprias e características como o respeito a ancestralidade e ao trabalho coletivo. Moreira (2023) no estudo das relações da etnia Assuniri no Pará com o mundo virtual, apontou a necessidade de aprimorarmento do debate sobre resistência política, social e educacional e os impactos deste protagonismo indígena nas práticas de comunicação e informação, visto que essas ações fazem parte do cotidiano das nações indígenas em diferentes sites e plataformas virtuais. Na concepção de Pretto e Bonilla (2022) as tecnologias oportunizam novas formas de agir e pensar para além de suas dimensões utilitaristas e auxiliam no desenvolvimento da consciência crítica na educação e posicionamento das pessoas sobre questões sociais. A metodologia deste trabalho foi a revisão de literatura sobre a produção acadêmica de vídeo-cartas na educação. As buscas foram realizadas em sites como google acadêmico, Biblioteca Digital de Teses e Dissertações (BDTD) e portal da Capes. As palavras chaves utilizadas foram vídeo-cartas and educação, vídeo-cartas and professores e vídeo-cartas and indígenas. Foram encontrados 7 trabalhos. Destas pesquisas, 3 trabalhos são de vídeo-cartas trocadas por crianças não-indígenas com crianças indígenas e 4 são pesquisas de vídeo-cartas de/e sobre indígenas. Como o foco deste resumo é para vídeo-cartas como instrumentos de resistència e denúncias, apresentaremos as pesquisas de Lopes (2015), Araújo (2015), Pinheiro (2017) e Reis (2021). Lopes (2015) é um estudante indígena e, na sua dissertação, ele discutiu os programas de ações afirmativas nas universidades públicas do Rio Grande do Sul. Ele analisou questões políticas, preconceitos, situações difíceis dos estudantes indígenas nas universidades e defendeu a busca de soluções coletivas para o enfrentamento dos problemas, dentre elas, a produção e a troca de Vídeo-Cartas de estudantes indígenas com estudantes não-indígenas para romperem com as invisibilidades e compartilharem os desafios e necessidades dos estudantes. Araújo (2015) é um estudante não indígena e, em sua dissertação, analisou o Projeto “Vídeo nas Aldeias’ criado desde 1986 pelo documentarista Vicent Carelli que tem como objetivo fortalecer as identidades, patrimônios culturais e territoriais dos indígenas. O projeto apresenta uma estética original, criativa e muita arte com vídeo-cartas. Ele funciona como uma escola de cinema para indígenas brasileiros e sua sede é em Pernambuco. O pesquisador analisou 28 documentários de cineastas indígenas produzidos entre 1999 e 2011 e considerou essas produções como materiais auto etnográficos e recursos políticos importantes para discussão das histórias indígenas, denúncias e visibilidades desses povos. Pinheiro (2017) também é não indígena, e na sua dissertação, apresentou uma experiência etnográfica de trocas de mensagens videográficas entre ela e a cineasta indígena Patrícia Ferreira Pará Yxapy, considerada uma mulher relevante do cinema indígena brasileiro. Sua dissertação rompe com estereótipos sobre as mulheres indígenas no Brasil e evidencia o protagonismo dos trabalhos de Patrícia Ferreira Pará Yxapy em suas obras. Reis (2021) é estudante indígena e, em sua pesquisa, ele descreveu o processo de elaboração do curta-metragem “Pãn Vanh – rastros”, no qual utilizou a linguagem de Vídeo-Carta como homenagem post mortem para o seu avô Orlando Mongconãnn, indígena pertencente ao povo Laklãnõ/Xokleng. A dissertação e a vídeo-carta narram a história dos indígenas em Santa Catarina, os casamentos entre indígenas e não indígenas. O pesquisador denunciou analisou as propostas de “miscigenação” nestes casamentos e violências ocorridas como formas de “desaparecimento étnico-racial” e suas implicações para os estudos da história do Brasil. Como resultados, esses trabalhos apresentam aspectos particulares. A escrita é marcada por textos poéticos, com sensibilidade artística e crítica. A estética das imagens das vídeo-cartas é bem interessante, com características indígenas e narrativas dos processos de opressão, de luta e resistência para superação das dificuldades a partir das histórias de vida das pessoas, em uma perspectiva emancipadora para a educação. Para concluir, é preciso destacar que estas pesquisas são relevantes tanto na apresentação da produção acadêmica de/e sobre vídeo-cartas indígenas, como na utilização destes recursos como instrumentos de comunicação, de apresentação das culturas indígenas, produzidos por diferentes etnias. Esses materiais podem ser utilizados em salas de aula para socializar da história e cultura indígena nos curriculos da educação brasileira, conforme preconiza a Lei 11.648 (Brasil, 2008). Há muitos anos a população indígena no Brasil têm utilizado as vídeo-cartas como trocas de informação entre diferentes etnias, têm registrado seus hábitos e lutado constantemente através das imagens e narrativas, para que suas histórias sejam contadas por eles, com autoria e propriedade. A educação precisa ver, ouvir e assistir o que os indígenas têm as nos mostrar, a nos dizer, pois temos muito o que aprender com os povos originários para sobrevivência em tempos de desigualdades, crises ambientes e violências cotidianas. REFERÊNCIAS ANDRADE NETO, Alberto Luis; FRANÇA, Juliana Mesquita Zickan. Cosmopolítica do brilho: seguindo a arte indígena contemporânea no contexto da pandemia do coronavírus (Covid-19). Revista Wamon, Universidade Federal do Amazonas, Manaus, v. 6, n. 2 , 2021, p. 55-70 ARAÚJO, Juliano José. Cineastas indígenas, documentário e autoetnografia: um estudo do projeto Vídeo nas Aldeias. 2015. 207 f. Tese (Doutorado em Pós-Graduação em Multimeios Instituto de Artes), Universidade Estadual de Campinas, 2015 BRASIL. Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008 que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”. Brasília, DF: Presidência da República, 2008 CÓRDOVA, Amália. Estéticas enraizadas: aproximaciones al video indígena en América Latina. Comunicación y médios. . Instituto de la Comunicación e Imagen. Universidad de Chile, n. 24, 2011. pp. 81-107 ESTEVES, Lorena, CAL, Danila. Protagonismo de mulheres indígenas no ativismo digital: desafios e aprendizados a partir do Acampamento Terra Livre Virtual. Anais do INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação 46º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – PUC Minas – 2023, p 1-15 FREIRE, Paulo. Pedagogia da Indignação: cartas e outros escritos. Editora UNESP, São Paulo, 2000 LOPES, Alessandro Barbosa. Indígenas em universidades públicas do Rio Grande do Sul: uma perspectiva etnográfica. 2015. 123 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia), Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, 2015 MOREIRA, Cristian Caio Silva. Indígenas Online: povoamento e demarcação do território digital na T.I. Assuriní do Trocará. Anais da 41ª Reunião Nacional da ANPEd, Educação e Equidade bases para Amar-zonizar e reconstruir o país. Grupo de Trabalho 16, Educação e Comunicação, Manaus, 2023, p. 1-5 PINHEIRO, Sofhia Ferreira. A imagem como arma: a trajetória da cineasta indígena Patrícia Ferreira Pará Yxapy. 2017. 284 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social), Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2017 PRETTO, Nelson, BONILLA, Maria Helena Silveira. Tecnologias e educações: um caminho em aberto. Em Aberto, Brasília, v. 35, n. 113, p. 141-163, jan./abr. 2022 REIS, Ítalo Rodrigo Mongconãnn. Pãn Vanh – Rastros: Vídeo-Carta para meu avô, Orlando Mongconãnn, e Memorial. 2021. 56 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social), Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2021