ARTICULAÇÕES ENTRE OS CAMPOS TEÓRICOS DA INICIAÇÃO À DOCÊNCIA E A FORMAÇÃO DE ADULTOS NA PRODUÇÃO DE PESQUISAS DE DOUTORADO NO BRASIL E EM PORTUGAL Este texto relata os resultados de uma pesquisa de Pós-Doutorado, concluída no ano de 2022, e que teve por objetivo analisar a produção acadêmica sobre a iniciação à docência e sua articulação com o campo de estudos da formação de adultos, de modo a sistematizar e a sintetizar o conhecimento científico produzido nesses domínios temáticos e teóricos. Para concretizar tal propósito, analisamos teses de doutorado produzidas no Brasil e em Portugal que tiveram como tema central de investigação a iniciação à docência na educação básica. A busca por compreender melhor como se fazem presentes as problemáticas que envolvem a pessoa adulta e a formação de adultos em estudos sobre a iniciação à docência nutre-se da ideia de que o processo de se tornar professor dá-se, também, por meio de experiências formativas não necessariamente vinculadas à atividade profissional (formação e trabalho docente). Os docentes iniciantes, como adultos que são, acessariam uma formação experiencial extensa e alargada que envolveriam tempos e espaços de vida social (família, trabalho, lazer e escola), o que intensificaria processos de autoformação e interformação que permitiriam o desenvolvimento de conhecimentos, saberes e competências de variada latitude: conceitual, instrumental, relacional e emocional. Para Nóvoa (2002), a construção de uma identidade profissional docente inclui os saberes pessoais, as histórias de vida e a subjetividade na construção de novas aprendizagens e conhecimentos. É por esta razão que, desde há algumas décadas, se admite que a qualidade do trabalho do professor está fortemente relacionada com o desenvolvimento do “professor total”. Para este conhecimento, contribuem de forma significativa as suas crenças, as suas competências, os seus propósitos, a sua biografia e experiências de vida (Hargreaves, 1992). Ao tomarmos esse debate acadêmico em perspectiva, pareceu-nos importante considerar que os professores iniciantes são pessoas adultas (jovens adultos, muitas vezes), e que esse estágio do ciclo vital do desenvolvimento humano deveria ser considerado em estudos que se dedicam a investigar os processos de formação de professores em início de carreira. Os docentes são iniciantes na carreira, mas não na vida, já que acumularam um conjunto significativo de experiências formativas antes de assumir a condição de docentes na escola. Peterson, Clark e Dickson (1990), reconhecem a necessidade de estudar o processo de aprendizagem dos professores como pessoas adultas. Do mesmo modo, Oja (1991) aponta a utilidade do conhecimento científico produzido nos estudos sobre a aprendizagem e o desenvolvimento do adulto no campo da formação de professores. Alarcão e Roldão (2008), por seu lado, perspectivam os processos de construção e desenvolvimento pessoal e profissional docente numa lógica de desenvolvimento de adultos. Esses autores apontam para a necessidade de incorporar aos estudos sobre o professor, sua formação e desenvolvimento, os princípios, as teorias e os modelos, que, ao longo dos últimos 40 anos, vêm sendo elaborados no campo da formação de adultos. A pesquisa apresentada neste artigo filia-se nesse pressuposto e procura dar contributos para a discussão do tema. Metodologia A pesquisa caracteriza-se como num estudo bibliográfico meta-analítico, de cunho descritivo-interpretativo, que teve como material empírico teses de doutorado produzidas no Brasil e em Portugal, entre os anos de 2000 e 2021, que tratavam da problemática da iniciação à docência. O processo de inventariação das teses de doutoramento foi realizado no Repositório Científico de Acesso Aberto de Portugal (RCAAP). Tal repositório foi escolhido porque reúne parte significativa da literatura acadêmica e científica produzida no Brasil e em Portugal. A escolha por trabalhar apenas com teses de doutorado teve como razão principal o reconhecimento de que, nesse tipo de produção acadêmica, há maiores possibilidades de aprofundamento das análises teóricas, como também de ampliação das possibilidades de elaboração de reflexões mais sofisticada sobre os dados empíricos construídos. Para o levantamento das teses, definimos dois grandes blocos de descritores de busca. O primeiro grupo de descritores foi constituído por palavras-chave que tinham maior proximidade com o campo dos estudos sobre a formação de adultos: formação de adultos/educação de adultos/educação permanente/andragogia/aprendizagem-formação experiencial/aprendizagem-formação ao longo da vida/educação ao longo da vida/aprendizagem do adulto/educação de jovens e adultos/histórias de vida. O segundo bloco de descritores de busca foi constituído por palavras-chave com afinidade temática com o campo dos estudos sobre a iniciação à docência, a ver: iniciação à docência/professores iniciantes-principiantes/aprendizagem docente/inserção profissional/indução, profissional/desenvolvimento profissional docente/início de carreira/identidade profissional/socialização profissional/profissão docente/trabalho docente/formação de professores. Com esses parâmetros de busca, chegamos ao número total de 18 teses de doutorado, sendo 14 realizadas no Brasil e quatro em Portugal, estas últimas, todas elas identificadas no segundo bloco de descritores. Para realização da análise, realizamos dois movimentos de aproximação do conteúdo das 18 teses. O primeiro movimento ocorreu por meio da leitura dos títulos, resumos e palavras-chave. O segundo movimento de análise se deu via leitura de determinadas partes do texto da tese, mais especificamente, a introdução, a metodologia e as considerações finais. Posteriormente, foram feitas “grelhas” de análises constituídas pelos seguintes eixos: objetivos de pesquisa/questões norteadoras/metodologias de pesquisa/referencial teórico/sínteses e conclusões. Com essas “grelhas”, buscamos organizar e categorizar os dados levantados. O lugar da problemática da formação de adultos nas teses No intuito de verificamos a presença/ausência de discussões relativas ao campo dos estudos sobre a formação de adultos, operamos um primeiro movimento de rastreamento das palavras adulto(s), adulta(s) e de suas versões em língua inglesa: adult(s). Para isso, utilizamos o localizador de palavras do editor de texto do Word Office. Nesse movimento de busca mais panorâmica, chegamos aos seguintes resultados: das 18 teses, em seis delas as palavras supracitadas não aparecem, nas palavras-chave, no corpo da tese, nas referências e nos anexos. Em sete teses, a problemática da educação de adultos é apresentada de forma superficial, hegemonicamente em momentos de contextualização do objeto de estudo. Em apenas três teses, as problemáticas da formação e da pessoa adulta inscrevem-se de forma mais consistente, mesmo assim como tema complementar. Em apenas uma das teses, a problemática da condição de professor iniciante como adulto jovem foi tema central da investigação. Mais especificamente, sobre as quatro teses que dialogaram mais fortemente com temas, autores e teorias do campo da formação de adultos, três delas eram portuguesas e uma brasileira. Tal cenário parece indicar que, no contexto português, a produção da pesquisa em iniciação à docência seria mais permeável à produção teórica do campo da formação de adultos, comparativamente à verificada no Brasil. Essa maior permeabilidade talvez possa ser explicada pela abrangência temática pleiteada por esse campo em Portugal, que entende que a formação de adultos abrangeria outros temas e objetos de investigação, que não aquele ligado à problemática da Educação de Jovens e Adultos (EJA) com baixa escolaridade. Diversamente, na realidade brasileira, a formação de adultos esteve mais fortemente relacionada à problemática da modalidade da EJA, historicamente vinculada às demandas de literacia da população com baixa escolaridade. No levantamento das teses, utilizando descritores próprios ao campo da formação de adultos, encontramos estudos sobre formação de professores com interface com a formação de adultos. Todavia, todas elas tratavam da formação de professores que atuavam na EJA, e nenhuma delas do tema da iniciação à docência. Fluxo contínuo, buscamos verificar qual recorrência e a forma de mobilização de conceitos que são caros ao campo da formação de adultos: andragogia, interformação, autoformação, aprendizagem ao longo da vida/formação permanente, formação não formal (FNF), formação informal e aprendizagem de adultos. Não obstante reconhecer que as teses analisadas incorporam parte dos conceitos valiosos ao campo da formação de adultos, em poucas delas esses conceitos são trabalhados de forma mais vertical. Mais do que isso, tais conceitos são mobilizados, não raro, para fins de contextualização do objeto de estudo, citados pontualmente e com pouca relação de organicidade com o tema central da investigação. Fica evidente que, na maioria das teses, esses conceitos são tomados como indutores centrais ao desenvolvimento do estudo, bem como à produção das análises dos dados. Não é mera coincidência, portanto, que esses conceitos não apareçam nos títulos das teses e nas palavras-chave. Nos resumos, a rigor, foi feita uma única menção sobre a formação e a aprendizagem informais. Os dados mostram ainda que há certo desequilíbrio na presença desses conceitos nas teses analisadas. Aqueles referentes à formação permanente/formação no decorrer da vida mostraram-se predominante nas teses. A hegemonia desses conceitos parece ter relação direta com a importância que o tema do desenvolvimento profissional docente ocupa nas pesquisas sobre a iniciação á docência. Todavia, tal articulação mostra-se quase que exclusivamente articulada às experiências de formação profissional, com forte centralidade no trabalho docente na escola. Outras saberes experienciais incorporados pelos professores iniciantes em suas histórias de vida são como que esquecidos nas teses analisadas. Todavia, destacamos o fato de que o conceito da educação permanente configuraria o elo mais claro de conexão e interface com as problemáticas de estudo do campo da formação de adultos. Por outro lado, contatamos que o conceito de Andragogia é praticamente silenciado nas teses analisadas. Outros conceitos são apresentados de forma tímida nas teses, em especial a aprendizagem de adultos. Em apenas três delas, tal problemática é movida ao desenvolvimento dos trabalhos. Na maioria das vezes, joga-se luz sobre o que os professores iniciantes aprenderam em programas de indução ou com a experiência profissional. É praticamente inexistente a discussão de como aprendem, tomando como referência a condição de serem pessoas adultas. Assim, questões relativas à psicologia da aprendizagem dos adultos são praticamente ausentes nas teses levantadas. Foi encontrada apenas uma obra de autores brasileiros que trata especificamente do tema da aprendizagem do adulto professor. [1] Das obras que tratam da formação, identidade e aprendizagem da pessoa adulta, cerca de 80% delas foram citadas nas teses realizadas em Portugal. O que mostra certa tendência de maior permeabilidade das teses elaboradas naquele país à problemática da formação de adultos Os conceitos que tratam dos aspectos pouco institucionalizados da aprendizagem docente (educação informal, não formal e interformação) aparecem em mais da metade das teses, número, a nosso ver, significativo. Não menos relevante é a quantidade de trabalhos que dialoga com o conceito de autoformação (1/3 das teses), o que denota certo reconhecimento do papel dos professores na construção de trajetórias formativas mais biográficas no processo de tornar-se professor. Todavia, estes conceitos são mobilizadas nas teses sem interfaces mais consistentes com o debate teórico sobre as singularidades da pessoa adulta e de seus processos de aprendizagem. Soma-se a isso, o pouco investimento em análises que buscaram estabelecer relações entre histórias de vida, processos formativos e a iniciação à docência. Considerações finais Este estudo sinaliza que ainda são incipientes as interlocuções entre os campos de investigação da iniciação à docência e da formação de adultos, sobretudo nas teses produzidas no Brasil. Outras pesquisas precisariam ser feitas afim de que se possa verificar se a tendência revelada em nosso estudo também se verifica na produção em periódicos científicos, em anais de eventos acadêmicos e em dissertações de mestrado. Nos parece promissor apostar no alargamento do diálogo teórico e temático entre os campos de investigação da formação de adultos e da formação de professores. Tal interface teórica e temática pode abrir horizontes de investigação ainda pouco explorados no domínio dos estudos sobre a iniciação à docência. Em especial, na produção de investigações que deem maior visibilidade e reconhecimento à condição dos professores iniciantes como pessoas adultas, com suas histórias de vida diversas, seus múltiplos adquiridos experienciais, suas formas singulares de aprender e sua agenda de autoformação; e de como as experiências formativas informais e não formais atuam em processos de inserção profissional. Melhor dizendo, as pesquisas neste domínio poderiam dar maior visibilidade ao imenso iceberg dos fenômenos educativos não formalizados e/ou deliberados, acessados pelos professores iniciantes, de forma a entender melhor o que e de que forma tais experiências de formação são mobilizadas no contexto da iniciação à docência. Esse esforço investigativo poderia trazer contribuições importantes ao debate sobre as políticas de indução profissional, ampliar a leitura do choque de transição da vida de alunos e para de professores, alargar a compreensão do fenômeno da retenção/abandono profissional em início de carreira, como dos avanços e recuos dos processos de exploração-descoberta-estabilização na carreira docente. Referências ALARCÃO, Isabel.; ROLDÃO, Maria do Céu. Supervisão: um contexto de desenvolvimento profissional dos professores. Mangualde: PEDAGO, 2008. OJA, Sharon. Adult development: insight on staff development. In: Lieberman, Ann.; Miller, Lucas. (orgs.). Staff development for education in the 90s. Chicago: Teacher College Press, 1991. PETERSON, Penelope; CLARK, Christopher; DICKSON, Patric. Educational psychology as a foundation in teacher education: reforming an old notion. In: TOZER, Steve; ANDERSON, Thomas, (orgs.) Foundational studies in teacher education: a reexamination. Nova York: Teacher College Press, 1990. NÓVOA, Antônio. Formação de professores e trabalho pedagógico. Lisboa: EDUCA, 2002. HARGREAVES, Andy. Introduction. In: HARGREAVES, Andy. e FULLAN, Michael. (Eds.) Understanding Teacher Development. London: Cassel, 1992, pp. 1-19. [1] PLACO, Vera Maria Nigro de Souza; SOUZA, Vera Lúcia Trevisan. A aprendizagem do adulto professor. São Paulo: Edições Loyola, 2006. Esta obra foi citada em apenas uma das 18 teses levantadas.