O diálogo Gadameriano frente à ostensiva do neoconservadorismo mundial

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Resumo

A conjuntura global de excessiva transitoriedade, ampla degradação ambiental, incursão tecnológica e o avanço de sistemas neoconservadores dificultam e impedem discussões abertas e projetos interculturais dialógicos. Parte da humanidade segue em estado de êxtase, em busca do almejado crescimento econômico; outra parte se mantém refém da exploração. Ambas são limitadas, e não compreendem que o ambiente global está próximo de um colapso. Esse é o diagnóstico no qual fundamentamos o trabalho, ancorado nas bases teóricas de Kohei Saito (2024), Theodor L. Adorno (2006 e 2020) e Hans-Georg Gadamer (2000; 2002; 2008). Diante disso, nos questionamos que tipo de educação pode capacitar o ser humano para entender e bem agir em um mundo em condições deploráveis? Nosso objetivo é apresentar a interlocução contextual de Saito e Adorno sobre o neoconservadorismo e seus desdobramentos e, na sequência, problematizar hermeneuticamente o pensamento de Gadamer, em uma defesa do diálogo vivo como princípio elementar de uma sociedade consciente de suas problemáticas. Defendemos uma formação humana ancorada no exercício do diálogo, como possibilidade de autoformação e transformação humana e social. Kohei Saito (2024), expõe a realidade socioambiental das últimas décadas e revela um processo acentuado de destruição e perda da biodiversidade. Os atuais padrões de produção promovem um estilo de vida com traços de conservadorismo e imperialismo ecológico, oriundos do norte global. Em função do consumo exorbitante, ocorre a destruição e a mutação climática no planeta. O agravante é triplo: além da expropriação ambiental, acontece a exploração da força de trabalho e, ainda, a transferência da culpa pelos danos ambientais aos povos do sul global. O autor afirma que, “[...] o capitalismo é quem causa as mudanças climáticas. E a causa disso é o desenvolvimento e a destruição em escala global que prioriza o crescimento econômico” (Saito, 2024, p. 169). Contra essa realidade caótica, ele aponta um caminho: a criação de mecanismos de luta contra a expropriação da biodiversidade a partir da ideia de “decrescimento” econômico. Theodor Adorno (2006), destaca que a personalidade humana é um conceito que serve para explicar o que é relativamente permanente, tendo em vista que existe uma predisposição para o comportamento, de acordo com as condições de cada contexto. Assim, na ótica neoliberal-conservadora pode-se dizer que a condição de formação é fragilizada e o sujeito é limitado. Incapaz de pensar, examinar, refletir, argumentar e debater os problemas comuns; não reconhece o outro de forma respeitosa; desconsidera direitos, independente de raça, religião, gênero e orientação sexual; insensibilidade e manipulação para o proveito próprio; incompreensão e desprezo pelas diferentes políticas públicas; irreflexão sobre o todo, sobre o bem coletivo; incapacidade de perceber o nexo entre si, os outros e o mundo. Contra o sujeito limitado, um bárbaro em potencial, Adorno (2020) sustenta que a educação tem a função da desbarbarização, isto é, em uma sociedade marcada pela barbárie é preciso propor uma formação humana que seja capaz de superá-la. Diante do exposto, defendemos a presença do diálogo vivo de Gadamer na formação humana. Entendemos que é por meio do diálogo que os interlocutores tomam consciência de quem efetivamente são. No texto “A educação é educar-se” (2000) - (tradução nossa), Gadamer enfatiza o diálogo como fator determinante para o processo de formação, pois, sempre implica uma autoformação permanente. O diálogo contempla um sentido profundo, que exige abertura ao outro e, assim, possibilita o acesso a outro nível de compreensão da realidade. Em Verdade e Método, o autor compreende o ser humano associado ao pensamento e a linguagem, que possui um caráter de ação, que só é possível através do diálogo. Sendo mediado pelo jogo de perguntas e respostas, que podem ser exploradas em sala de aula, na relação entre educadores e educandos. Esse jogo não se baseia na constante concordância de opiniões, mas em um acolhimento ao que é dito, estabelecendo uma práxis sustentada pela solidariedade, propiciada pela abertura a compreender o outro, e pela expressão do senso de coletividade na qual se desenvolve um “ethos de responsabilidade mútua”. Gadamer afirma que o diálogo “[...] é aquilo que deixou uma marca” (2002, p. 247), por isso, compreendemos que há um nexo potente entre diálogo, formação, educação e recuperação ambiental. Devido ao seu poder formativo, o diálogo é essencial para o enfrentamento das pautas neoconservadoras, assim como evitar o retorno de regimes bárbaros do passado, que certos grupos, infelizmente, trazem como herança. E ainda, a presença do princípio dialógico na educação tem a força de constituir um sujeito consciente e capaz de pensar e agir em prol do meio ambiente global. Referências Bibliográficas ADORNO, Theodor W. Educação e emancipação. Tradução: Wolfgang Leo Maar. 2ª edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2020. ADORNO, T; Frenkel-Brunswik, E; Levinson, D. J; Nevitt, Stanford, R. La personalidade autoritária. (Prefacio, Introducción y Conclusiones) In. EMPIRIA. Revista de Metodologia de Ciências Sociales. N. 12, Julio-diciembre, 2006, p. 155-200. Acesso em: 03/02/2025. Disponível em: http://www.redalyc.org/pdf/2971/297124008008.pdf. GADAMER, Hans-Georg. La educación es educarse. Barcelona: Paidós, 2000. GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método I. Tradução: Flávio Paulo Meurer. 9 ed. Petrópolis, RJ: Vozes. 2008. GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método II: complementos e índice. Tradução: Ênio Paulo Giachini. Petrópolis. Vozes, 2002. SAITO, Kohei. O capital no antropoceno. Tradução: Caroline M. Gomes. São Paulo: Boitempo, 2024.

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Eixo Temático
  • Área Temática 5 : Historia e filosofia da educação
Palavras-chave
Diálogo, Educação Formadora, Meio Ambiente, Neoconservadorismo.