SOFRIMENTO ÉTICO-POLÍTICO: PERCEPÇÃO SOBRE POSSIBILIDADES NÃO VIVIDAS DIANTE DA INTERDIÇÃO DO DIREITO A EDUCAÇÃO

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Resumo

Eu sentia a possibilidade de querer estudar... eu queria ter aquilo pra mim também, né? Mas eu não tinha como. (Elizelto,2019). O texto apresenta leitura reflexiva de entrevista realizada com o Sr. Elizelto, em maio de 2019, em uma Colônia de Pescadores, localizada em São Francisco de Itabapoana, no estado do Rio de Janeiro, como parte do trabalho de campo relacionado à pesquisa Constelações analíticas do direito à educação em novos contextos históricos: que sentidos para a diversidade e para a dignidade humana? A pesquisa em referência, objetivou compreender emoções e sentimentos relatados por sujeitos jovens, adultos e idosos, de diferentes grupos sociais, que sofreram interdições no direito à educação, em qualquer fase de suas vidas. Como metodologia, valeu-se de entrevista compreensiva, um método de trabalho etnológico, conforme definição adotada por Kaufmann (2013), que possibilita a produção teórica a partir de dados coletados. Elege, a priori, como categoria analítica principal, o sofrimento ético-político, proposta por Baden Sawaia (2009), uma concepção constitutiva de pessoas que vivem ou viveram injustiças sociais, compreendida como a dor, caracterizada pelo sentimento de desvalor, de subalternidade e humilhação, especialmente no que se refere a interdição do direito à educação, situação vivenciada pelos sujeitos entrevistados. Por interdição do direito à educação, compreende-se o processo vivido por grande parcela da população brasileira, que historicamente teve/tem seu direito à educação negado, em função da imensa desigualdade social que impera no país e que se materializa na carência de vagas, na inadequação das propostas de atendimento, na ausência de condições e de incentivos para que os sujeitos não apenas sejam matriculados, mas permaneçam, concluam a escolaridade básica e deem continuidade à sua trajetória escolar. Este processo pode ser articulado ao que a Unesco anuncia nas Conferências de Educação de Adultos (CONFINTEAS) que realiza desde 1948 — o princípio do direito à educação para todos. Nos últimos sessenta anos, foram essas Conferências que debateram e indicaram as grandes diretrizes e políticas globais da educação de adultos para o período entre uma Conferência e a próxima – e, em alguns momentos mais conturbados, evitaram o desaparecimento da Educação de Jovens e Adultos das pautas políticas em vários países, inclusive no Brasil. Elizelto, quando questionado sobre o que vem a lembrança quando se recorda da escola, assim responde: É escola... no caso seria muito bom pra quem estudou, né? Eu estudei assim, cheguei a aprender meu nome, aprendi ler alguma coisa, mas pouquinho, só o básico pra mim assinar alguma coisa caso necessário, só isso no caso de escola. Não tive escola nenhuma. Mesmo semianalfabeto, demonstra profundo entendimento sobre a importância da leitura e a dificuldade vivida por aqueles que tiveram seu acesso negado: “A leitura é bonita. Olha o olho e sabe onde tá. Agora se você não sabe ler você não sabe onde tá. Você tá cego. Olha e tá cego. Você vê um monte de letra e não tá conseguindo enxergar nada. É uma maravilha pra quem é a pessoa que aprende”. E conclui: “a leitura é o fator principal pra qualquer ser humano, você sem leitura hoje, não é nada” Quando questionado se a escola foi justa com ele: Não é que a escola foi injusta. É que a gente não teve a oportunidade, o que foi injusto foi o poder público. Porque o poder público não procurou naquela época as pessoas mais carentes que tinham dificuldade pra colocar os filhos na escola. Porque o poder público ganha pra isso. Eles arrecadam dinheiro pra isso. Hoje eu vim saber disso. Mas na época não sabia de nada. A gente cresceu à Deus dará. Eu acho que se houve alguma injustiça, foi o poder público. Para aprofundar essa análise, recorremos ao texto de Sawaia, que aborda a responsabilização do Estado e destaca “[...] indicadores do (des)compromisso com o sofrimento do homem, tanto por parte do aparelho estatal quanto da sociedade civil e do próprio indivíduo.” (2009, p.99). Essa ideia pode ser interpretada como uma crítica à falta de responsabilidade do Estado e da sociedade como um todo em relação ao bem-estar e ao sofrimento das pessoas. Sawaia sugere que o sofrimento humano é agravado pela falta de compromisso das instituições estatais, da sociedade civil e até mesmo dos próprios indivíduos com a resolução ou mitigação desse sofrimento. A riqueza de detalhes contidos na narrativa de Elizelto e as questões que dela emergem, ajudam a problematizar as formulações de Sawaia e ampliar “categorias” a priori estabelecidas como indicativos relevantes para compreender a vivência da interdição, em sociedade que naturaliza, como poucas, a desigualdade. REFERÊNCIAS KAUFMANN, Jean Claude. A entrevista compreensiva: um guia para pesquisa de campo. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes; Maceió: Edufal,2013. PAIVA, Jane. Constelações analíticas do direito à educação em novos contextos históricos: que sentidos para a diversidade e para a dignidade humana? Projeto de pesquisa. Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2017.Mimeo. SAWAIA, Bader (org.). O sofrimento ético-político como categoria de análise da dialética exclusão/inclusão. p. 97- 118. As artimanhas da exclusão. Análise psicossocial e ética da desigualdade social. 9. ed. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2009.

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Eixo Temático
  • Área Temática 4: Tecnologia , Etica e EJA
Palavras-chave
Educação de Jovens e Adultos, Interdição do direito à educação, Sofrimento ético-político