Artesãs insurgentes: a educação quilombola e o enfrentamento das violências sociopolíticas e ambientais em tempos de neoconservadorismo

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Resumo

Este artigo traz alguns dos resultados da tese de doutorado que focalizou contemplar o papel das artesãs quilombolas como agentes de resistência cultural, social e ambiental diante das violências sociopolíticas e ambientais acentuadas em tempos de neoconservadorismo. A mesma ocorreu com um grupo de mulheres quilombolas que confeccionam artesanato com o capim dourado e residem na Comunidade de Raiz – localizada na cidade de Presidente Kubitschek, Minas Gerais. As comunidades remanescentes dos quilombos têm enfrentado desafios crescentes que tem ameaçado seus direitos. Neste contexto, as práticas artesanais desenvolvidas pelas tecelãs surgem como instrumentos relevantes em defesa da memória coletiva e de resistência. Fazendo uso de saberes tradicionais e da educação, essas mulheres têm contribuído para a valorização de sua cultura e para o empoderamento de sua comunidade. O objetivo deste estudo é compreender como as práticas artesanais e educacionais podem ser utilizadas para enfrentar essas violências e fortalecer a identidade quilombola. Partindo de uma abordagem qualitativa, foram apreciados eventos específicos, onde as artesãs utilizam atividades artesanais com o capim dourado, não apenas para fazer renda, mas também para envolvimento da comunidade e resistência política. Dessa forma, realizamos entrevistas por meio da História Oral com os artesãos (mulheres, homens e adolescentes) e oficinas, observamos os ambientes da vida cotidiana que envolvesse o artesanato, registrando-os em apontamentos no Caderno de Campo, e, em alguns casos, por meio de gravação em áudio e vídeo. O referencial teórico utilizado em nossa análise, inclui os processos informais de aprendizagem (Chamoux, 1978; 1981; Lave & Wenger, 1991; Greenfield, 1999; De Vargas, 2009; Mafra; Fantinato, 2016); cultura (Sahlins,1997; Geertz, 2008; 2009; Certeau, 2008); etnomatemática (Geertz, 2008; Barton, 2004, Knijnik, 2006; 2009; Meira, 2021 entre outros) e resistência quilombola (Munanga, 1995; Moura, 1988; Nascimento, 2006; Nascimento, 2009;2020; Santos, 2015). Por este prisma, as artesãs não se limitam somente a serem guardiãs dos saberes, mas bem como autoras de novos sentidos e táticas de luta contra desaparecimento cultural e riscos ambientais. Os dados indicam, além de resguardar as tradições, as práticas artesanais deste contexto fomentam um diálogo intergeracional, garantindo que os saberes sejam transmitidos às novas gerações. A educação quilombola, neste cenário, vai além da educação formal, pois incorpora os saberes ancestrais no cotidiano das comunidades, utilizando a arte como linguagem pedagógica. As tecelãs desempenham papel central nesse processo, como lideranças que articulam demandas por direitos e justiça social. Conclui-se que essas mulheres, ao unir arte, educação e resistência, colaboram consideravelmente para combater as violências territoriais. Suas práticas respaldam a importância da identidade quilombola como forma de resistência ao neoconservadorismo, enquanto a educação ligada às vivências locais surge como recurso indispensável para o empoderamento e a sustentabilidade. Ademais, o nosso estudo defende a necessidade de políticas públicas que apoiem iniciativas educacionais e culturais nessas comunidades, promovendo a preservação da memória coletiva e o fortalecimento da luta por seus direitos. Em tempos de ameaças crescentes, as práticas artesanais se mostram como uma poderosa linguagem de resistência, conectando passado, presente e futuro.

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Eixo Temático
  • Área Temática 9 : Cultura, Currículo e Pesquisa Educacional
Palavras-chave
Neoconservadorismo. Etnomatemática. Mulher artesã. Práticas socioculturais.