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Introdução
No Brasil o meio rural é marcado pela intensificação das monoculturas e seus impactos socioambientais. São notáveis consequências desse modelo para as formas de vida, desde a perda biodiversidade até às implicações na cultura alimentar regional dos territórios. A ampliação dos latifúndios, o domínio das empresas transnacionais e o uso excessivo dos agrotóxicos convergem a uma lógica produtivista em que o alimento é mercadoria (Silva, 2013).
Em oposição aos sistemas de monoculturas, a agricultura familiar pauta a disponibilidade e acesso à diversidade e à comida de verdade. Nesse contexto, a comida representa pluralidade cultural, sociedade, história, ancestralidade e afeto de um povo (Contreras; Gracia, 2011; Feliciano, 2003).
Conexões entre o alimento e formas sustentáveis de plantio, podem refletir representações sociais do que é o “comer” no contexto campesino e no campo da soberania alimentar. Ressalta-se que a discussão sobre o comer à luz dos sistemas alimentares e lutas sociais se distancia da dimensão biológica e adentra campos políticos, sociais e ideológicos da luta pela alimentação adequada (Guerra, 2022).
A teoria da representação social busca compreender e analisar o processo de construção de significados do senso comum e sua associação aos objetos sociais, idealizados a partir da interação social dos sujeitos, permitindo então a comunicação e organização de comportamentos (Oliveira; Werba, 2002). Nesse contexto, pode-se refletir sobre os diferentes significados do comer.
O comer enquanto fenômeno social se constitui de particularidades na relação entre indivíduos/ coletivos e alimentos pois chama atenção para aspectos políticos e sociais que envolvem o comer, tornando a alimentação um fenômeno neste campo (Ross, 2012).
O vivenciar a soberania alimentar, no contexto da agricultura familiar, ocasiona novas experiências fazendo com que os sujeitos estabeleçam e construam novas representações sobre a comida, o que possibilita a ressignificação entre a relação do homem com a natureza (Silva; Souza, 2012).
Diante da pluralidade do ato de se alimentar, que traz consigo uma carga de simbolismos e significados formados através das representações do indivíduo em sua vivência formando então ressignificações do comer, o presente estudo teve por objetivo refletir sobre as representações sociais do comer entre agricultores familiares.
Método
Pesquisa de abordagem qualitativa, que conforme Minayo (2014), está relacionada a infinitos significados, propósitos, crenças, valores e atitudes que representam o espaço mais íntimo das relações, dos processos e dos fenômenos, os quais não podem ser limitados à operacionalização de variáveis quantitativas.
O estudo foi realizado entre maio e dezembro de 2018, com agricultoras e agricultoras familiares do Movimento Camponês Popular, residentes da zona rural do município de Silvânia, sudoeste goiano.
Como critérios de inclusão considerou-se trabalhadores e trabalhadoras rurais que se dedicam ao cultivo e produção de diferentes variedades de alimentos, que aceitaram participar da pesquisa assinando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), ou declarando o consentimento gravado. Dentre os onze integrantes da pesquisa, oito deles assinaram o TCLE e três declaram consentimento por meio da gravação de áudio. Os aspectos éticos da presente pesquisa estiveram em concordância com a Resolução Nº466/ 2012 do Conselho Nacional de Saúde (Brasil, 2012). Este estudo foi aprovado pelo comitê de ética da instituição responsável.
O levantamento das falas e representações ocorreram por meio da realização de um grupo focal in loco. O local escolhido foi a Associação do Movimento Camponês Popular. Ocorreu em formato de roda de conversa e auxílio de roteiro semiestruturado com questões sobre: Movimento Camponês Popular, percepções sobre Direito Humano à Alimentação Adequada e Saudável e Soberania Alimentar, o agronegócio e relações com a saúde, aquisição da terra e relações com a comida, e o espaço social alimentar.
O momento foi planejado e executado pela equipe de pesquisa, composta por uma moderadora, a qual conduziu as discussões, e duas observadoras, as quais foram encarregadas de anotações relevantes ao objetivo da pesquisa durante o grupo focal.
O grupo focal foi realizado conforme a seguinte sequência etapas: i) acolhida, na qual realizou-se uma dinâmica de apresentação entre grupo de pesquisa e agricultores familiares; ii) exposição de imagens impressas, as quais retratavam a realidade do campo, sistemas alimentares, e a agricultura familiar. O propósito dessa etapa foi o estímulo à proposição de opiniões, percepções, falas e diálogos; iii) concomitante a apresentação das imagens os participantes foram encorajados a expressar o que aquelas figuras representavam, quais os sentimento e opiniões referentes às imagens e o que tinham a dizer sobre o que estavam vendo nas figuras e iv) no terceiro momento deu-se continuidade às discussões por meio de questões direcionadoras.
O grupo focal teve duração total de 57 minutos, com a participação ativa de todos os componentes. Todas as falas foram gravadas sob consentimento dos participantes da pesquisa e o seu conteúdo foi posteriormente transcrito e analisado.
O referencial teórico metodológico utilizado para análise das falas foi a Teoria das Representações Sociais de Moscovici (1978) que busca compreender a construção da representação social através da relação sujeito – objeto, e a análise de conteúdo por Bardin (1979), no qual a análise de conteúdo, enquanto método, torna-se um conjunto de técnicas de análise das comunicações que utiliza procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens.
Dessa forma, considerou-se para o estudo a relação sujeito (agricultores) – objetos sociais (comida), construída na vivência inserida em um grupo social, o contexto de vida e trabalho dos participantes da pesquisa.
Após o consolidado do material transcrito do grupo focal, foram feitas leituras exaustivas e posteriormente separação das mesmas em eixos temáticos, de acordo com a repetição ou identificação de ideias/ falas semelhantes ao longo dos debates. Buscou-se encontrar temas comuns e discordantes, utilizando-se como critérios exaustividade e saturação de falas durante a sistematização da análise de conteúdo.
Em seguida, de acordo com a Teoria das Representações Sociais as falas foram analisadas e dividas em Representações Centrais e Representações Periféricas, em que o primeiro pode ser definido como componente principal da representação pois por meio dele as categorias revelam seus significados e organização. Em continuidade, classificados como subnúcleos as Representações Periféricas que concretizam, regulam, prescrevem e preservam os comportamentos, individualizam as representações, enquanto protegem e estão ligadas diretamente ao núcleo central (Representações Centrais) Moscovici (1978).
Resultados e discussão
O estudo foi composto por onze indivíduos, dentre estes, sete mulheres e quatro homens, com faixa etária entre 40 a 65 anos. Após as etapas de análises dos conteúdos transcritos, foram identificadas categorias centrais e periféricas, conforme metodologia de analise.
Foram identificadas duas categorias de representações sociais centrais: (i) “O movimento camponês popular e suas conexões com o comer”, e suas respectivas categorias periféricas: “Possibilidade de escolha na produção de alimentos” e “Conhecimentos agrícolas”. A segunda categoria de representações centrais foi (ii) “Os sistemas alimentares e suas associações com o comer”, com as representações periféricas: “Expulsão dos camponeses do campo”; “Contaminação por agrotóxicos” e “Comida como mercadoria”.
O Movimento Camponês Popular e suas conexões com o comer
As discussões levantadas durante a pesquisa apontaram conexões entre a trajetória dos agricultores dentro do Movimento Camponês Popular (MCP) e suas representações sobre o comer. Foi relatado que inicialmente a aproximação com o MCP partiu da luta por terras, contudo, a entrada e trajetória no movimento possibilitou novas representações entre os agricultores (sujeito) e comer (objeto).
Essas conexões foram constatadas por meio das falas que proferiram o fato de os produtores estarem no movimento e as possibilidades de escolha quanto ao que plantar e a forma como plantar; além disso falas sobre novos conhecimentos técnicos adquiridos foram relatadas. Depoimentos que ilustram tais constatações: “Nois tem o direito de plantar o que nóis quer’’ (Agricultor 1). “É uma escolha, eu posso escolhe qual alimento que eu quero” (Agricultor 2).
Nesse sentido, sobre as possibilidades de escolha no cultivo dos alimentos, faz-se uma associação entre as representações do comer e o conceito de Soberania Alimentar. Soberania essa que foi caracterizada pelo grupo como a capacidade e possibilidade de fazer escolhas ao plantar e ao comer. Houve ainda associações entre o direito à alimentação e as escolhas sobre a forma de produção, ou seja, “o como e onde plantar”, e o que fazer com esse alimento.
A soberania alimentar pode ser caracterizada como uma ideologia com princípios justos, capazes de reconectar alimento, natureza e comunidade, conferindo ao agricultor seu poder de produção o que implica na construção de autonomia entre os camponeses (Silva, 2020). Para os participantes da presente pesquisa, integrar o Movimento Camponês Popular, possibilitou a emancipação para produção pois tiveram acesso à terra e sementes crioulas.
Feliciano e Pereira (2014) em pesquisa sobre as manifestações dos movimentos socioterritoriais do campo no Brasil, relacionaram a função promotora dos movimentos sociais camponeses com a soberania alimentar, apontando que as estratégias e lutas adotadas por esses movimentos promovem a mobilização, organização e fortalecimento dos agricultores ao pautarem a Soberania Alimentar como bandeira de luta e efetivação de direitos, o que corrobora a este estudo.
Outra categoria de análise identificada foi as representações do comer associadas ao conhecimento agrícola (técnico) que os produtores adquirem mediante, prática na qual a representação do comer é marcadamente influenciada pelas relações de trabalho com a terra. Há uma relação de harmonia, respeito e justiça social no uso da terra, que se torna além da técnica, mas uma relação social, afetiva, cultural e ancestral. Fatos observador por meio das falas:
“A gente que vive na roça tem experiência, mais formação e conhecimento é bom!’’ (Agricultor 2). “Através dos programas das palestras a gente vai aprendendo a alimentar, com o conhecimento” (Agricultor 3). “[...] o MCP falou que era pra construção da casa, eu vim nesse intuito, mas depois conheci tanta coisa, me apaixonei pelo adubo verde [...]” (Agricultor 4). “ [...] Ah e tem muitos tipos de inseticida que combate sem envenenar a horta, uma vez nois aprendeu com a folha do angico, timbosa [...] (Agricultor 1)”. “[...] aprendi sobre a urina de vinagre, nossa a urina de vaca de dez veis melhor que tudo [...] (Agricultor 2)”.
De acordo com Fernandes (1996), por meio dos movimentos sociais os camponeses passam por processo de se conhecer e reconhecer-se no outro, reflete sobre sua realidade, acumula conscientização sobre o seu meio, e amplia seus questionamentos e saberes, gerando possibilidade de ações práticas refletidas no modo de vida, tais apontamentos corroboram aos achados do presente estudo:
“[...] nois que é pequeno eles só vê nois em grupo, se um pequeno ficar isolado fica sozinho” (Agricultor 6). “Tô plantando tudo, faz um ano já estou comendo minhas próprias verduras, tem porco, galinha o movimento valeu muito por que se não tivesse vindo não tinha o que eu tenho agora” (Agricultor 7).
Nesse contexto foi proferido sobre o resgate de práticas esquecidas, como o contato e plantio com sementes crioulas: “Tô produzindo a semente crioula, no tempo do meu pai plantava aí veio as tecnologia e parou tudo, mas agora ta voltando a antiguidade” (Agricultor 8).
As representações sociais mostraram a importância dos movimentos sociais do campo nas percepções dos agricultores no que diz respeito ao resgate de conhecimentos esquecidos, como as sementes crioulas. O mesmo ocorre com a autonomia gerada a partir da entrada no movimento, a noção de sujeito de direitos, e outros debates políticos promovidos por movimento sociais, proporcionam o empoderamento dos produtores sobre seu meio de produção no contexto da Soberania alimentar.
Os sistemas alimentares e suas associações com o comer
Por meio das discussões foi possível o levantamento de representações do comer discutidas à luz dos sistemas alimentares. Nessa perspectiva foram abordadas pelo grupo reflexões sobre o modelo de produção de alimentos com base no agronegócio, e como ele afeta diferentes camadas relacionadas ao comer.
Para os participantes da pesquisa, o agronegócio representa indiretamente a expulsão dos pequenos produtores de seus territórios (o campo) para a cidade, uma vez que a utilização de agrotóxicos, ocasiona a destruição do ambiente em que vivem, e além disso, afetam suas plantações ao contaminar solo, ar, água e os alimentos que cultivam. O que pode ser observado no relato: “Olhando daqui oh era tudo verde, tudo mato, agora destruiu tudo só soja” (Agricultor 9).
Fernandes (1996), observou que o agronegócio impulsionado pelas grandes empresas multinacionais de produção agrícola, contribuiu para a expropriação do camponês do campo devido a funcionalidade de seu sistema agroalimentar, onde a concentração de terra e renda, e a exploração do ser humano e da natureza são a base para o seu exercício.
Outros estudos têm investigado a toxicidade dos agrotóxicos e seus efeitos na fisiologia e reprodução dos organismos vivos, além do impacto em processos básicos do ecossistema, como a respiração do solo, perda de nutrientes, mortalidade de peixes e aves (ABRASCO, 2015). O impacto dos agrotóxicos está entre as representações levantadas pelo grupo como mostram os seguintes relatos:
“E ele vai pra tudo né, cai na água e água vai pro povo e vai adoecendo [...]” (Agricultor 7). “Agrotóxico além de intoxicar eles, ta batendo de lá ai dá um ventinho chega tudo aqui, num e só aqui e em todo lugar e como se diz, eles tão acabano com tudo” (Agro cultor 10). “Na hora que eles batem os veneno, os bichinho vem pra cá, até as planta destrói” (Agricultor 11).
Quando questionados sobre o modelo dos sistemas alimentares hegemônicos, foi consenso entre o grupo focal que tais sistemas tratam o alimento como mercadoria e o ato de comer como fonte de lucro. Essa representação pode ser observada nos seguintes relatos: “Eles só pensam em renda é só renda pra eles! (Agricultor 10)”. “[...] nois os pequeno quer só conscientizar de comer sem o agrotóxico e plantar, nois ia comer bem né e vive bem! (Agricultor 11)”.
Gonçalves e Alentejano (2008) discutem o papel do alimento como mercadoria no modelo atual do agronegócio. O estudo aponta que no ano de 2007 mais de 50% da produção mundial de grãos foi destinada ao consumo animal e para a produção de combustíveis. Com isso nota-se a contradição acerca da produção de alimentos, que inicialmente destinada a alimentação da população humana, em contraponto, há a produção para manter sistemas alimentares que sustentam o lucro das grandes corporações em detrimento da diversidade alimentar e da justiça social.
No estudo de Zuin & Amaral (2018) o risco do agronegócio para o direito alimentar é relacionado aos altos índices de insegurança alimentar, ao passo que o alimento se transforma em mercadoria.
As representações geradas através dos sistemas alimentares são referentes a influência do agronegócio e suas práticas agrícolas, e seus impactos na vida e trabalho dos agricultores familiares. Nesse sentido, soma-se a discussão sobre o agronegócio como acelerador e condicionador da expulsão das famílias do campo. Uma vez que, as práticas agrícolas moldadas nesse contexto não permitem a permanência econômica e social do morador em seu território.
Considerações finais
Este estudo evidenciou que representações do comer geradas pelos agricultores e agricultoras acompanham os processos de vivência, sociabilidade a partir de movimentos sociais de luta pela Soberania Alimentar. As percepções do comer não foram expressas em aspectos biológicos ou fisiológicos, mas proferiram contextos sobre a forma como os alimentos são produzidos.
Foram geradas representações quanto a influência dos movimentos sociais na busca da soberania alimentar. Nesse sentido as possibilidades de escolha quanto a forma de plantar e o que comer, os conhecimentos tradicionais e populares que permanecem somam-se em representações que conectam os movimentos sociais ao ato de comer.
Foi identificado ainda representações do comer marcadas por aspecto dos sistemas alimentares. Nessa perspectiva os modelos de produção hegemônicos, com o predomínio das monoculturas, geram exclusão socioeconômica e cultura das pessoas do campo, impulsionam a contaminação do meio ambiente por agrotóxicos e ainda colocam a comida e o ato de comer como lucro.
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