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Introdução
O excesso de peso (sobrepeso e obesidade) é um problema global que vem crescendo gradativamente no Brasil, em todos os gêneros, níveis socioeconômicos e regiões. Entre 2006 e 2023 houve uma variação de 42,6% para 61,4% no sobrepeso da população adulta nacional. O mesmo ocorreu com a obesidade, atingindo 24,3% (Brasil, 2023).
Embora o excesso de peso não se restrinja a um segmento populacional, a literatura vem apontando uma associação maior da obesidade com a com a raça/cor da pele preta e parda (Araújo et al, 2018). Países com maiores níveis de racismo estrutural apresentam maiores prevalências de obesidade em suas populações mais vulnerabilizadas (Williams & Mohammed, 2013). Dados da pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (VIGITEL) para a população adulta negra (pretos e pardos) apontaram que a frequência de excesso de peso foi de 56,5%. No Município do Rio de Janeiro (MRJ), 58,8% estavam com excesso de peso e 22,2% com obesidade (Brasil, 2019).
A insegurança alimentar (IA), que constitui uma violação humana a um direito garantido por lei, pode ser considerada um determinante social de desfechos biológicos, incluindo doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), como obesidade (Brown et al., 2019). Nesse contexto, em 2023, a insegurança alimentar (IA) atingiu 27,3% dos brasileiros (IBGE, 2024), resultados um pouco melhores que durante a pandemia de COVID-19, onde cerca de 33 milhões estavam em situação de fome, sobretudo os domicílios chefiados por pessoas negras (Rede Penssan, 2022). Os desafios enfrentados por famílias com chefia negra ultrapassam o aspecto da alimentação adequada e saudável, além de maiores inadequações quanto à renda familiar, acesso a saneamento básico, escolaridade, sendo mais vulneráveis à pobreza (Santos et al., 2022).
A sociedade brasileira se formou e é estruturada pelo racismo, onde a distribuição de sistemas injustos reforçam crenças discriminatórias, valores e distribuição de recursos que propagam a desigualdade racial. Embora a maioria da população brasileira seja formada por negros, 75% destes se encontram nos estratos mais pobres da população (IBGE, 2018) e possuem a maior parte de seus direitos sociais e humanos isentos ou violados, visto que ainda sofrem diariamente com as desigualdades historicamente construídas. Os efeitos do racismo estrutural no país refletem em piores indicadores socioeconômicos, demográficos e em saúde para a população negra (Santos et al., 2011), incluindo na alimentação e nutrição (Oliveira, 2020).
A relação aparentemente paradoxal entre o excesso de peso e a insegurança alimentar já é descrita na literatura, sendo associada principalmente a desigualdades socioeconômicas, como a renda familiar, escolaridade e gênero (Domingos et al., 2022; Gubert et al., 2017; Schlüssel et al., 2013). Mas não se tem dimensão desses dados em níveis mais locais. No MRJ, a população negra representa 22,8% e dados inéditos apontam que a IA no seu nível mais grave atingiu 7,9% dos lares cariocas (Frente Parlamentar contra a Fome e a Miséria no MRJ, 2024). Porém, ainda há uma escassez de informações quanto aos impactos da desigualdade racial no que tange à IA e obesidade. Sobretudo, em um dos municípios com maior prevalência de população negra no país (IBGE, 2023) e com maiores níveis de desigualdades sociais (Malta & Costa, 2021).
Objetivo
Investigar a relação da situação de peso dos adultos chefes de domicílio no Município do Rio de Janeiro com a raça/cor da pele e a presença de insegurança alimentar.
Métodos
Estudo transversal com dados do I Inquérito sobre a Insegurança Alimentar no MRJ, realizado entre novembro de 2023 e fevereiro de 2024 (Frente Parlamentar contra a Fome e a Miséria no MRJ, 2024). O presente trabalho utilizou dados dos chefes de domicílio com idade entre 20 e 59 anos (n= 1.057).
Para as análises foram utilizadas as variáveis: raça/cor (branca, preta, parda); IA(Sim/Não) desenvolvida pelo agrupamento dos níveis de IA (leve, moderada e grave) a partir das respostas obtidas pela Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (Segall-Corrêa et al., 2014); índice de massa corporal - IMC (massa corporal [Kg] /estatura [m]²) calculado com base no peso e altura autorreferidos e utilizando os pontos de corte da Organização Mundial da Saúde (OMS, 1995) para adultos, sendo baixo peso (IMC ≤ 18,5 kg/m²), eutrófico (IMC 18,6-24,9 kg/m²), sobrepeso (IMC 25-29,9 kg/m²), obesidade (IMC ≥ 30,0 kg/m²) e excesso de peso (IMC ≥ 25,0 kg/m²).
Foram excluídos a população indígena e amarela sob a perspectiva de serem representativos, não sendo os dados sobre essas populações não foram apresentados neste estudo.
Realizaram-se as prevalências e intervalos de confiança de 95% (IC95%) através do software STATA 16, utilizando o comando ‘svy’ para explicar o desenho amostral complexo. Os dados foram disponibilizados pela organização do Inquérito (GISAN/UFRJ), aprovado em comitê de ética (nº do Parecer: 5.380.885; CAAE: 54473421.6.0000.5257).
Resultados/Discussão
Dos chefes de domicílio eutróficos, 47,2% (IC95% 41,8-52,8) apresentavam cor/raça parda, 33,1% (IC95% 28,1 - 38,5) branca e 19,7% (IC95% 15,7 - 24,4) preta. O sobrepeso foi observado em 47,3 (IC95% 41,8 - 52,8) dos pardos, 31,1% (IC95% 26,2 - 36,3) dos brancos e 21,7% (IC95% 17,5 - 26,6) dos pretos e a obesidade foi observada em 45,8 (IC95% 38,2 - 53,6) dos pardos, 31,7% (IC95% 24,9 - 39,2) dos pretos e 22,6% (IC95% 16,8 - 29,5) dos brancos.
Ao agruparmos as categorias do sobrepeso e obesidade, gerando o excesso de peso, analisamos a relação com a presença de IA, observando que dos indivíduos com excesso de peso que apresentavam segurança alimentar 42,8% (IC95% 37,5 - 48,3) eram pardos, 33,9% (IC95% 29,0 - 39,3) brancos e 23,2% (IC95% 18,9 - 28,2) pretos, e dos indivíduos com excesso de peso que apresentavam IA 53,6% (IC95% 45,7 - 61,3) eram pardos, 28,6% (IC95% 22,1 - 36,0) pretos e 17,8% (IC95% 12,6 - 24,6) brancos.
Observa-se que o excesso de peso nos indivíduos com IA foi maior entre os pretos e pardos, isso indica que as desigualdades sociais ainda são marcantes no MRJ e têm impacto na situação nutricional desse grupo em particular, podendo gerar repercussões na qualidade de vida e na saúde dessa população. O perfil observado no estudo segue as tendências nacionais decorrentes do processo de transição epidemiológica e nutricional (Araújo et al, 2018; Brasil, 2023).
O excesso de peso entre os menos favorecidos socioeconomicamente revela um fenômeno social complexo, que expressa as diversas situações de vulnerabilidade social . O enfrentamento do excesso de peso impõe uma reflexão crítica a respeito da efetividade das atuais ações de controle no campo das políticas públicas brasileiras, especialmente porque as projeções para o aumento desta doença atinge especialmente os grupos sociais mais vulneráveis (Ferreira, 2014; Estivaleti et al, 2022). A agenda para o tema da obesidade no País se estrutura dentro do modelo da promoção da saúde que dá ênfase a mudanças comportamentais individuais e coletivas privilegiando a dimensão biológica do problema, desconsiderando o papel histórico, socioeconômico, simbólico e cultural incluído neste processo (Ferreira, 2014).
Dessa maneira, enfrentar o excesso de peso depende de ações contextualizadas à realidade local e reconhecendo as vulnerabilidades, sendo utilizadas abordagens multidisciplinares e intersetoriais como destaque (Ferreira, 2014; Wanderley & Ferreira, 2010).
Considerações Finais
Os resultados sinalizaram a relação entre o excesso de peso, a desigualdade racial e a IA nas chefias das famílias do MRJ. Os aspectos sociodemográficos demonstram ser elementos fundamentais para análises das múltiplas faces do excesso de peso.
A análise de dados oriundos de inquéritos populacionais municipais permite compreender os principais desafios enfrentados pela população negra carioca, norteando políticas públicas direcionadas ao combate das desigualdades em saúde, alimentação e nutrição da população, incluindo na vigilância epidemiológica do sobrepeso e da obesidade.
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