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Introdução
O Guia Alimentar para a População Brasileira (GAPB), elaborado pelo Ministério da Saúde do Brasil, é um documento que oferece diretrizes baseadas em evidências científicas para promover hábitos alimentares saudáveis, adaptados aos padrões e necessidades específicas da população do país (Brasil, 2014). Contudo, ainda não há orientações específicas para a população LGBTQIA+, visando mitigar os desafios relacionados à alimentação enfrentados por esse grupo (Lima et al, 2021).
Estudos têm revelado práticas alimentares inadequadas entre indivíduos transgênero (Gomes et al, 2021), que podem aumentar ainda mais o risco de desenvolvimento de doenças crônicas não-transmissíveis durante a hormonização para modificação corporal, incluindo obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, hipertensão arterial e certos tipos de câncer (Coleman et al, 2022). Com frequência, a má alimentação está relacionada à insegurança alimentar e nutricional, que assola essa população em todo o mundo (Gomes et al, 2023, Bagni et al, 2024).
Diante desse cenário, conhecer as práticas alimentares e a adesão às recomendações do GAPB é importante para a adoção de estratégias de educação alimentar e nutricional assertivas e inclusivas, bem como para subsidiar o aperfeiçoamento das políticas públicas que visam o acesso equitativo a alimentos saudáveis, o bem-estar e a qualidade de vida das pessoas transgênero.
Objetivo
Descrever as práticas alimentares e a adesão de pessoas transgênero às recomendações do Guia Alimentar para a População Brasileira.
Métodos
Trata-se de uma investigação de caráter observacional, seccional, quantitativo e descritivo, desenvolvido com pessoas transgênero residentes no estado do Rio de Janeiro atendidas em um ambulatório de transdiversidade habilitado pelo Ministério da Saúde para o processo transexualizador. Os dados foram coletados de forma remota entre abril e junho de 2024, por meio de um questionário semiestruturado. Coletou-se informações sobre as características sociodemográficas (idade, identidade de gênero) e sobre a adesão a práticas recomendadas pelo Guia Alimentar para População Brasileira (Brasil, 2014) por meio do teste “Como está sua alimentação”, divulgado pelo Ministério da Saúde (Brasil, 2018).
O teste avalia a qualidade da alimentação com base em questões com escala de likert de quatro pontos (sempre, muitas vezes, raramente, nunca) e categoriza as pessoas em três faixas de pontuação considerando a qualidade da alimentação: acima de 41 pontos (boa – “parece que você tem uma alimentação saudável”), entre 31 e 41 pontos (regular - “você está no meio do caminho”) e abaixo de 31 pontos (ruim – “você precisa mudar”). A partir dessa classificação, os participantes foram agrupados em duas categorias quanto à adesão às recomendações do Guia Alimentar para a População Brasileira: adesão satisfatória (boa) e adesão insatisfatória (regular + ruim).
As análises estatísticas foram feitas com base nas frequências e seus respectivos intervalos de confiança de 95%, e no teste Qui-quadrado. Foi utilizado o pacote estatístico SPSS versão 22.0, considerado o valor de p<0,05 para significância estatística. A pesquisa foi aprovada pelo comitê de ética em pesquisa (CAAE: 62658622.5.0000.5259, Parecer: 5.790.608).
Resultados/Discussão
Responderam o teste 47 pessoas, das quais 53,2% eram transmasculinas e 52,2% tinham menos de 30 anos de idade.
Observaram-se frequências significativamente baixas de práticas alimentares saudáveis realizadas “sempre/muitas vezes” no dia a dia: planejamento das refeições diárias (29,8%, IC95% 17,0-42,6), consumo de frutas no café da manhã (27,7% IC95% 14,9-40,4) e variação das fontes de leguminosas (17,0% IC95% 8,5-29,8), compra de alimentos em feiras livres (36,2% IC95% 23,4-48,9). Por outro lado, determinadas práticas alimentares não-saudáveis realizadas “sempre/muitas vezes” foram muito presentes no dia a dia: pular refeições (55,3% IC95% 40,5-70,2), comer doces e guloseimas (42,6% IC95% 29,8-57,4), beber sucos industrializados (46,8% IC95% 31,9-61,7), beber refrigerante (42,6% IC95% 29,8-57,4); e uso de açúcar no café ou chá (53,2% IC95% 38,3-68,1). A boa adesão ao Guia Alimentar para a População Brasileira foi identificada em 19,1% (IC95% 8,5-31,9). Dentre os participantes com adesão insatisfatória (80,9%, IC95% 68,1-91,5%), 55,3% (IC95% 38,2-70,7) tinham adesão regular e 44,7% (IC95% 29,3-61,8) tinham adesão ruim.
Esses resultados corroboram com a elevada frequência de comportamentos de risco e práticas alimentares inadequadas observadas em estudos com pessoas transgênero (Diewald et al, 2024; Lima et al, 2021; Linsenmeyer et al, 2020; 2022). Dentre os fatores associados a esse cenário, a baixa escolaridade e a insegurança alimentar são os fatores mais frequentemente relatados na literatura (Gomes et al, 2021, Bagni et al, 2024).
Não houve associação entre identidade de gênero e faixa etária com as práticas alimentares, exceto para a realização de refeições à mesa de trabalho/estudo, que foi significativamente mais elevada em pessoas com menos de 30 anos de idade do que nos mais velhos (37,5% vs. 9,1%, p=0,024). A adesão insatisfatória ao Guia Alimentar para a População Brasileira não diferiu em relação à faixa etária (até 30 anos: 79,2% vs. a partir de 30 anos: 81,8%; p=0,82) ou à identidade de gênero (trasmasculinas: 84,0% vs. transfemininas: 77,3%; p=0,56), embora existam evidências de que certas práticas alimentares se orientam pelo conjunto de ideias e regras socialmente normatizadas relativas ao gênero vivido (Diewald et al, 2024).
A vulnerabilidade quantidade e qualidade da alimentação de pessoas transgênero é multifatorial, estando relacionada fatores como cor da pele, baixa escolaridade, dificuldade de acesso à renda, moradia em desertos alimentares, e violências físicas e psíquicas (Bagni et al, 2024).
Considerações Finais
A frequência de práticas alimentares inadequadas é elevada em pessoas transgênero em acompanhamento ambulatorial para hormonização no processo transexualizador, independentemente do gênero ou faixa etária. Este comportamento reforça a importância das ações de educação alimentar e nutricional junto a essa população, visando a adesão das recomendações do Guia Alimentar para a População Brasileira no dia a dia para o controle e prevenção de doenças crônicas não transmissíveis.
Referência bibliográfica:
Bagni UV, Ferreira AA, Borges TLD. Nutrição Inclusiva: diversidade e inclusão em alimentação e nutrição. São Paulo: Manole, 2024.
Brasil. Ministério da Saúde. Guia Alimentar para a População Brasileira. 2. Ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2014.
Brasil. Ministério da Saúde. Como está sua alimentação? Disponível em: http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/publicacoes/guiadebolso_folder.pdf
Coleman E, Radix AE, Bouman WP, Brown GR, de Vries ALC, Deutsch MB et al. Standards of Care for the Health of Transgender and Gender Diverse People, Version 8. International Journal of Transgender Health, 2022; 23(S1), S1-S260.
Diewald T, Yildiz J, Wahlen S. Exploring transgender transition and food socialization. Food, Culture & Society 2024; https://doi.org/10.1080/15528014.2024.2329431
Gomes SV, Jacob MCM, Rocha C, Medeiros MFA, Lyra CO, Noro LRA. Expanding the limits of sex: a systematic review concerning food and nutrition in transgender populations. Public health nutrition 2021; 24(18):6436-6449.
Gomes SM, Jacob MCM, Chaves VM, Sousa LMP, Signorelli MC, Oliveira DC, Lyra CO, Noro LRA. Food insecurity in a Brazilian transgender sample during the COVID-19 pandemic. PLoS One 2023 May 10;18(5):e0284257.
Lima LM et al, Trindade IO, Gois I, Rodrigues FB, Gomes S, Reis S. Guia de cuidado e atenção nutricional à população LGBTQIA+. Brasília, DF: Conselho Regional de Nutricionistas da 1ª Região. Natal, RN: Insecta Editora, 2021.
Linsenmeyer W, Garwood S, Waters J. An Examination of the Sex-Specific Nature of Nutrition Assessment within the Nutrition Care Process: Considerations for Nutrition and Dietetics Practitioners Working with Transgender and Gender Diverse Clients. Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics 2022; 122(6): 1082-1086.
Linsenmeyer W, Drallmeier T, Thomure M. Towards gender-affirming nutrition assessment: a case series of adult transgender men with distinct nutrition considerations. Nutrition Journal 2020; 19:74
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