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Introdução
Segundo Carneiro e Pilcher (2017) o primeiro contato com a cultura de um povo foi feito pelos seus hábitos alimentares e as peculiaridades foram passadas de gerações em gerações, com tendências a seguir inalteradas por vários milênios.
Entretanto, nos dias atuais, diversos fatores influenciam na escolha alimentar das pessoas. Essas escolhas geralmente estão vinculadas a questões como: o sabor do alimento, o preço, a busca por conveniência, questões envolvendo a saúde, entre outros fatores, (Monteschio; Vital, 2018) (Eiras, 2017).
A cultura e a crença de um povo também são consideradas fatores determinantes na escolha alimentar. Desta forma, pode-se dizer que a religião condiciona a aceitação e a escolha dos alimentos definindo o que pode ou não ser consumido, de que forma, em que momento, em que lugar, por quem e com qual significado. Algumas restrições alimentares vindas de crenças religiosas são bem específicas, como a proibição do consumo de certos tipos de carnes e de alimentos que contêm sangue, além de práticas de jejuns em algumas épocas do ano, conforme Carneiro (2017).
A entrega de alimentos para divindades é uma prática antiga da humanidade. A comida passa a ser um discurso com vocabulário, morfologia, sintaxe e retórica próprios de cada cultura sob a forma de preparo, serviço e consumo. As culturas indígenas, africanas e europeias mostram através de seus alimentos e comidas a importância cultural que os tipos identitários formadores das religiões trouxeram para a sociedade. Já que comer a comida dos outros é teoricamente mais fácil que entender sua língua, a cozinha seria então a porta de entrada para contaminações culturais (Chiella; Malacarne, 2014).
Objetivo
Investigar como a alimentação e a religiosidade são percebidas e abordadas por estudantes de graduação e nutricionistas durante o atendimento nutricional, a fim de identificar as práticas e desafios enfrentados na integração de aspectos religiosos nas orientações alimentares respeitando tais influências
Métodos
Trata-se de um estudo observacional de abordagem qualitativa em que foram realizadas pesquisas bibliográficas, coleta e o registro dos dados pertinentes ao assunto por meio de um questionário online, divulgado através das redes sociais, email, sites e páginas oficiais da instituição e tais dados foram analisados através da técnica de análise de conteúdo em pesquisas qualitativas, sob a teoria desenvolvida por Bardin (2004, 2010, 2011). O questionário foi adaptado de Nadalini (2009) e Cerqueira (2019) e foi submetido ao Conselho de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, sendo aprovado e de número 6.764.149, antes de ser aplicado e todas as entrevistas foram precedidas pela leitura e assinatura, do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Foi utilizado como critério de inclusão: Profissionais nutricionistas e discentes do curso de graduação em nutrição. E como critério de exclusão: Profissionais afastados da atividade no período de coleta de dados por quaisquer motivos ou que recusaram o convite da pesquisa. A pesquisa foi realizada de maneira online através da plataforma do Google Forms onde discentes e profissionais do Brasil todo puderam responder às perguntas.
Resultados/Discussão
Participaram do estudo 92 pessoas, representados principalmente por estudantes de Nutrição (67,1%) e a grande maioria, residente da região sudeste do país (91,3%).
Os resultados revelam a importância sobre a percepção e a abordagem da intersecção entre alimentação e religiosidade. A análise dos dados revelou tanto uma consciência crescente sobre a relevância das práticas alimentares religiosas quanto uma lacuna significativa na formação e na capacitação para lidar com essas questões de forma eficaz e sensível mesmo com uma parte mínima contra o estudo.
A maioria dos participantes reconheceu a influência significativa das crenças religiosas nas práticas alimentares dos indivíduos. Este reconhecimento é um passo crucial, pois evidencia uma conscientização sobre a necessidade de considerar a dimensão religiosa no planejamento nutricional, alguns artigos citados no referencial teórico corroboram essa percepção, apontando que a religião pode determinar escolhas alimentares, horários de alimentação, e até mesmo os tipos de alimentos a serem consumidos ou evitados.
A análise revelou uma abordagem variada em relação à religiosidade durante o atendimento nutricional. Enquanto alguns profissionais integram de forma proativa questões religiosas logo na anamnese, outros só abordam o tema se o paciente mencionar. Este padrão aponta para uma abordagem reativa, que pode levar a um atendimento insatisfatório para pacientes com necessidades religiosas específicas.
A inclusão de módulos específicos sobre religiosidade e alimentação nos currículos acadêmicos, assim como programas de educação continuada para nutricionistas já em prática, poderiam preencher essa lacuna. Tal inclusão poderia abranger desde os fundamentos das principais religiões e suas práticas alimentares até estratégias práticas para a incorporação dessas informações no atendimento nutricional.
Considerações finais
Na prática da Nutrição, conhecer e considerar hábitos alimentares como os apresentados, conversa com um dos princípios fundamentais da profissão, em que “o nutricionista tem o compromisso de conhecer e pautar sua atuação nos princípios universais dos direitos humanos e da bioética”, sendo a livre prática religiosa um direito fundamental. Por tanto, promover esse tipo de pesquisa relaciona-se à área de Nutrição, principalmente desde o ensino.
Ademais, a integração do conhecimento sobre religiosidade e práticas alimentares na formação e prática dos nutricionistas pode beneficiar profissionais que atuam em Nutrição Clínica e Saúde Coletiva assim como graduandos de Nutrição. Dado que o Brasil possui uma vasta diversidade religiosa, os praticantes de diversas crenças procuram os serviços de saúde, tornando impossível dissociar a religião de seus modos de vida durante os tratamentos tornando essencial para promover um atendimento mais humanizado, inclusivo e eficaz. Ao reconhecer e respeitar as crenças religiosas dos pacientes, os profissionais podem não apenas melhorar a adesão às recomendações nutricionais, mas também contribuir para o bem-estar integral dos indivíduos e para a construção de uma sociedade mais justa e respeitosa.
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