PERCEPÇÃO DE MERENDEIROS ACERCA DOS DESAFIOS PARA ADESÃO À ALIMENTAÇÃO ESCOLAR

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Abstract

Introdução

O conceito de Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) baseia-se na garantia de condições de acesso a alimentos básicos, seguros e de qualidade, em quantidade suficiente, de modo permanente e sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais (Brasil, 2006). Para esse objetivo, o Brasil tem políticas e programas consolidados na perspectiva integradora de ações entre educação, saúde, assistência e alimentação. O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) é uma política de acesso a alimentos que visa garantir a SAN dos alunos da educação básica pública, de forma igualitária, em todo o território nacional. Seu caráter universal, associado a uma contextualização pedagógica tem o potencial de auxiliar na formação de hábitos alimentares mais saudáveis (Brasil, 2009). 

Os cardápios da alimentação escolar devem atender às necessidades específicas de cada estudante, tendo como base a utilização de alimentos in natura ou minimamente processados, de modo a respeitar as necessidades nutricionais, os hábitos alimentares, a cultura alimentar da localidade e pautar-se na sustentabilidade, sazonalidade e diversificação agrícola da região e na promoção da alimentação adequada e saudável. (Brasil, 2020). Assim, o PNAE tem avançado em direção a consolidar o direito e o acesso à alimentação adequada e saudável no espaço escolar. 

Contudo, apesar dos benefícios da alimentação escolar para a garantia da SAN, estudos têm demonstrado um índice de adesão insatisfatório que pode comprometer os objetivos do PNAE (Froelich et al, 2021; Vale et al, 2021; Cesar et al, 2020). Dentre os diferentes fatores que influenciam na adesão, a forma como os atores percebem e executam a alimentação escolar pode determinar um potencial ou ser um desafio para este alcance.

 

Objetivo

Analisar a percepção dos merendeiros acerca dos fatores que podem influenciar a adesão à alimentação escolar.

 

Métodos

Foi realizada uma pesquisa qualitativa com merendeiros de sete escolas da rede pública municipal de Niterói-RJ, selecionadas por conveniência, pertencentes aos bairros de Várzea das Moças, Maria Paula, Santa Bárbara, Bairro de Fátima, Sapê e Barreto, de forma que representassem os polos educacionais do município. A coleta de dados ocorreu durante os meses de março a outubro de 2022. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina da UFF, parecer CEP 4.836.317 de 08/07/2021, CAAE: 98417718.5.0000.5243, conforme a Resolução nº 510/2016.

Utilizou-se como técnica de pesquisa entrevistas semiestruturadas, conduzidas com auxílio de um roteiro que abordava questões acerca da percepção dos merendeiros sobre os possíveis fatores que incentivam ou desestimulam os alunos a se alimentarem na escola. Os merendeiros foram selecionados aleatoriamente, a partir do aceite e disponibilidade nas datas agendadas para visitas em cada escola, de forma que participassem da entrevista pelo menos dois merendeiros por escola.

As entrevistas foram gravadas, após a assinatura do termo de consentimento, transcritas na íntegra e analisadas por meio da análise de conteúdo. Primeiramente, realizou-se uma pré-análise, que envolveu uma leitura inicial do material para familiarização e definição dos objetivos e hipóteses. Em seguida, passou-se à exploração e interpretação dos dados para compreensão dos significados subjacentes (Bardin, 2016).

 

Resultados/Discussão

Participaram do estudo 14 merendeiros, sendo a maioria (12) do sexo feminino. A partir dos relatos, percebeu-se que os alunos optam por levar produtos ultraprocessados para a escola, criando um ambiente competitivo, o que, consequentemente, pode prejudicar a adesão à alimentação escolar, conforme o relato a seguir:

“Traz guaravita, traz esses biscoitinhos que não são saudáveis né, eu acho a alimentação da escola bem melhor.” (M1).

A formação dos hábitos da criança é parte do processo de aprendizagem, onde ela tende a imitar o que os outros fazem, sejam pessoas da família ou outras referências, incluindo professores, pedagogos e outras pessoas de sua convivência, demonstrando a importância do papel dos atores escolares na promoção da alimentação saudável. Além disso, os hábitos alimentares de crianças também podem ser influenciados por fatores externos como o marketing e a publicidade de alimentos que perpassam o cotidiano da criança (Silva et al, 2021).

Verificou-se também certa insatisfação dos merendeiros diante das restrições recomendadas, na quantidade permitida de açúcar na escola e, portanto, resistência dos alunos às novas opções alimentares, resultando em desperdício de alimentos oriundo da não aceitação das preparações.

“A gente bota o leite com a banana, dá pra fazer. Porém, não adoça, porque às vezes a banana não tá tão madura. E a gente tem que servir porque tá no cardápio, aí fica meio com cica. Ai, quer dizer não adoça. E.. Vai depender muito da fruta, entendeu? Como que você faz um maracujá com leite sem açúcar, maracujá é uma fruta... Não, não, não! Não existe. Não existe. Eu não tomaria. Pelo menos um pouco de açúcar. Aí quando a gente bota o açúcar, nossa, eles ficam... A gente bota, se não ela vai tudo fora, entendeu?” (M2)

Assim, a necessidade de restringir o açúcar e outros alimentos não saudáveis no cardápio escolar, conforme previsto na legislação do PNAE, mas pouco compreendida pelos merendeiros, foi destacada como um elemento que pode reduzir a adesão a algumas preparações oferecidas pela escola, sendo um aspecto preocupante para estimular o acesso dos estudantes a uma alimentação adequada e saudável. É importante destacar que os merendeiros desempenham um papel crucial na adesão à alimentação escolar, pois, por atuarem no preparo e distribuição das refeições, influenciam diretamente na aceitação da alimentação pelos estudantes. Dessa forma, se esses profissionais não compreenderem a importância das restrições estabelecidas pelo PNAE, isso pode impactar negativamente na aceitação das refeições pelos alunos. Essa dificuldade com o consumo de preparações com pouco ou nenhum açúcar pode, também, ser atribuída ao hábito alimentar dos alunos, principalmente em suas residências.

Nesse contexto, com base nos relatos, percebeu-se que os alunos apresentam pouca familiaridade com os vegetais e as frutas, especialmente os de cor verde, o que reduz a aceitação destes alimentos ainda que ofertados na escola.

“Geralmente os alunos não, não gostam muito de determinadas frutas ou de determinados vegetais (…) Coisas que eles não têm hábito de comer, geralmente eles rejeitam, eles não gostam. Aí você oferece também fruta, não são todos os alunos que consomem a fruta (…) então a gente vê que eles não têm um cardápio muito diversificado em casa. E na escola, mesmo que você ofereça, muitas vezes eles também não aceitam.” (M10)

“Acho a aceitação muito baixa…, a gente precisa estar sempre tentando com eles, eles não querem provar, se for coisa verde no prato eles já não querem. Se é uma vitamina de abacate, que é verde, eles já não querem. Acho que é, assim, bem difícil.” (M3)

A comensalidade no contexto das refeições familiares é uma prática rica e multifacetada que vai muito além da simples nutrição, desempenhando um papel crucial no desenvolvimento social, emocional e cultural dos filhos, inclusive na formação de hábitos alimentares (Brasil, 2014). Desta forma, quando um adulto que está se alimentando junto da criança consome um alimento do mesmo aspecto e cor, ele pode exercer influência no consumo alimentar das crianças. Além disso, é essencial implementar estratégias de Educação Alimentar e Nutricional (EAN) nas escolas que abordam e modifiquem conceitos culturais negativos já estabelecidos, como a ideia de que alimentos verdes, especialmente os folhosos, têm um gosto desagradável. Outrossim, a EAN pode fornecer informações e habilidades que ajudam os alunos e suas famílias a fazerem escolhas alimentares mais saudáveis, mesmo com recursos limitados, e consequentemente pode contribuir para aumentar a adesão à alimentação escolar. 

De acordo com as narrativas, os alunos precisam de mais conhecimento sobre a importância da alimentação saudável para valorizarem mais a comida da escola. Nesse sentido, para uma merendeira, a inserção dos alunos no acompanhamento do preparo da alimentação poderia propiciar maior adesão à alimentação escolar.

“Ah, eu acredito que se tivesse, assim, um programa de assim, do aluno ter esse contato com a alimentação de forma mais direta, de conhecer a cozinha, entendeu? Claro que se exige uma logística muito grande, né? Mas eu acho que se tivesse uma aula de educação, assim, que a criança fosse, entrasse na cozinha, ajudasse no preparo, então despertaria neles uma curiosidade. Eu estou vendo o alimento, ser processado, eu sei o que que é aquele alimento. Eu acho que isso seria uma ideia, assim, que não é viável. Não é porque eu acho que está longe das nossas possibilidades, mas (..)” (M11).

Cabe considerar que os merendeiros são considerados profissionais da educação e desenvolvem um papel que vai além da produção e distribuição das refeições, sendo importantes, também, na prática de EAN, crucial na promoção da alimentação saudável e adequada no ambiente escolar (Melgaço et al, 2023) e, portanto, podem contribuir para promoção da saúde dos escolares, especialmente daqueles em vulnerabilidade social.

O PNAE define claramente os papéis dos diferentes atores sociais envolvidos na EAN e suas possíveis contribuições, como as merendeiras, visando engajar ativamente a comunidade escolar nesse processo e reconhecendo a importância de determinadas funções na execução das ações de educação nutricional (Brasil, 2022), sendo uma responsabilidade compartilhada por todos os membros inseridos nesse cenário. A escola, nesse contexto, assume papel central na promoção de estratégias sociais e educativas relacionadas à alimentação, que se caracterizam por práticas permanentes, transdisciplinares, intersetoriais e multiprofissionais que permitem a integração do ato de comer com suas dimensões sociais, culturais e econômicas (Brasil, 2012). 

 

Considerações Finais

Pode-se concluir que alguns fatores como o consumo de lanches que vêm de fora da escola e a falta de familiaridade com verduras e legumes, se colocam como desafios para maior adesão à alimentação escolar segundo a percepção dos merendeiros. Todavia, as próprias concepções dos atores sobre a restrição do açúcar podem representar uma barreira para a adesão, impactando assim a segurança alimentar e nutricional dos estudantes. O estudo reforça que as ações de Educação Alimentar e Nutricional podem ser potentes para promover maior adesão à alimentação escolar e consequentemente para escolhas alimentares mais saudáveis ao longo da vida. O estudo pode também contribuir para o planejamento de estratégias que visam superar as barreiras para a adesão à alimentação escolar.

 

Referência bibliográfica:

BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Tradução Luís Antero Reto, Augusto Pinheiro. São Paulo: Edições 70, 2016. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/7684991/mod_resource/content… Acesso em: 20 jun. 2024

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Institutions
  • 1 Universidade Federal Fluminense - UFF
  • 2 Universidade Federal Fluminense (UFF). Faculdade de Nutrição Emília de Jesus Ferreiro
Track
  • Human Right to Adequate Food
Keywords
Merendeiros
Alimentação escolar
Segurança Alimentar e Nutricional