Farmacocinética clínica aplicada ao transplante alogênico de células-tronco hematopoiéticas
Introdução: No transplante alogênico de células-tronco hematopoiéticas (TCTH-alo) as células são provenientes de um doador não geneticamente idêntico sendo necessário o uso de terapia imunossupressora com a finalidade de prevenir a doença do enxerto contra o hospedeiro (DECH), enquadrando-se o uso da Ciclosporina A (CsA). Esse imunossupressor é largamente utilizado na prática clínica e requere uma intensa monitorização terapêutica a qual é fundamental para a manutenção dos níveis terapêuticos. Neste contexto, enquadra-se a farmacocinética clínica que integra a farmácia clínica e visa estudar a disposição dos fármacos nos humanos e tem por objetivo principal garantir que o paciente está tomando o medicamento adequado, na dose certa e pelo tempo necessário. Além do mais, pode contribuir para diminuir o risco de efeitos adversos e intoxicação, o risco de interações medicamentosas e maximização da resposta farmacológica dos fármacos sendo importante a personalização do tratamento. Objetivos: Realizar monitorização terapêutica, com base nas dosagens séricas da ciclosporina dos pacientes submetidos ao transplante alogênico. Métodos: Realizou-se uma pesquisa clínica prospectiva, no contexto da monitorização terapêutica, no ambulatório do Serviço de Transplantes de Medula Óssea, de um hospital universitário referência em transplantes. Foram acompanhados pacientes, no período de outubro a dezembro de 2016, que estavam em uso de ciclosporina oral para profilaxia da DECH. Cada paciente passou por no mínimo quatro consultas farmacêuticas. Coletou-se, semanalmente, dos prontuários, os resultados da determinação da concentração sérica da ciclosporina no vale ou C12 (após 12 horas da administração), obtidos pelo método da Quimioluminescência com Micropartículas (conforme o protocolo estabelecido pela instituição onde o estudo foi desenvolvido), que se refere à faixa terapêutica ideal no C12 entre 200 a 400 ng/mL. Dessa forma, tornou-se possível estratificar os pacientes de acordo com a concentração sérica, identificando se os mesmos estavam dentro da faixa terapêutica preconizada. A pesquisa seguiu as recomendações da Resolução Nº 466, de 12 de dezembro de 2012 do Conselho Nacional de Saúde, e foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa, da UFC. Resultados: Foi feito o acompanhamento, no ambulatório farmacêutico do pós-transplante, de 13 pacientes. Estes foram separados de acordo com as avaliações das concentrações séricas da CsA por quimioluminescência, no C12, e observou-se que 10 pacientes não se encontravam na faixa terapêutica ideal, em pelo menos uma dosagem sérica, representando 77 % (10/13) dos pacientes. Ao realizar, ainda, uma subdivisão desses pacientes que tiveram alguma alteração na dosagem sérica de CsA, oito deles ficaram acima da faixa terapêutica 80% (8/10), sete abaixo 70% (7/10), e cinco estavam tanto abaixo quanto acima da faixa terapêutica 50% (5/10). Conclusão: Os resultados obtidos apontaram a existência de um número significativo de pacientes fora da faixa terapêutica estabelecida pelo protocolo clínico da instituição. Esse achado demonstra e reforça a importância da realização de uma intensa monitorização terapêutica a fim contribuir para a personalização do tratamento dos pacientes. De fato, estudos farmacocinéticos oferecem subsídio para a inserção de um tratamento individualizado contribuindo para um tratamento mais seguro e efetivo, em especial, nos pacientes críticos tais como os submetidos ao TCTH alogênico.