Memória coletiva
Publicação: PROCESSOS DE PRODUÇÃO DE CERTEZAS NO GOVERNO BOLSONARO: A NEGAÇÃO DA DITADURA MILITAR BRASILEIRA
Comentário: parabéns aos autores pelo tema e pelas análises, muito refinadas e bem sustentadas teoricamente. Gostei muito do trabalho. No início, diante da noção de memória coletiva, pensei: quem seria esse nós, ou melhor, esse povo a que essa memória se refere? Certamente não é composto pelos que não estão incluídos, os desigualmente divididos. E as análises, feitas adiante, me mostraram que a unidade da nação, do povo, enfim, as famílias, os empresários e a imprensa apagam as contradições sociais; sequer se admite/reconhece os crimes cometidos durante a ditadura militar nos dizeres do atual governo.
Corpo da mulher
Publicação: Argumentação e Certeza
Olá, Helton! Muito interessante o seu trabalho, parabéns pela defesa! Estava te ouvindo e fiquei pensando nas reflexões que a Silvia Federici faz em Calibã e a bruxa. Ela apresenta a estreita ligação entre a formação do capitalismo e a discriminação e invisibilização das mulheres na sociedade. Analisando a Europa pré-capitalista a partir de uma concepção marxista, a filósofa aponta que a acumulação primitiva de capital destruiu o universo das práticas femininas, com suas relações coletivas e sistemas de conhecimento, que iam desde a produção de bens de consumo para a própria família e para a comunidade local ao domínio de métodos contraceptivos e abortivos. Como consequência direta dessa destruição, Federici aponta que, na sociedade capitalista, o papel da mulher passa a ser o da reprodução geracional de trabalhadores para o mercado (gravidez) e a regeneração cotidiana da capacidade do trabalho (cuidados para o sustento da vida humana: alimentação, higiene, educação, apoio psicológico). Desse modo, mesmo excluída e alienada do mundo do trabalho, a mulher o sustenta indiretamente. Seu corpo é o lugar de alienação fundamental. Federici aponta ainda que, como consequência desta alienação, faz-se necessário, na lógica do capitalismo, o controle do Estado sobre os corpos das mulheres a fim de assegurar o trabalho reprodutivo, o que se deu, ao longo da história, por meio da criminalização de métodos contraceptivos e do aborto. Isso me fez pensar que os sentidos de piriguete estão relacionados a essa memória de controle do corpo: se a função do corpo é manter um dado sistema de produção, qualquer divergência disso é indício de subversão, de má conduta, e portanto deve ser extirpado da sociedade. E ao mesmo tempo, quando "elogiada", segue reificada, um objeto de desejo e de consumo. Me parece que, no fundo, a luta é sempre anti-capitalista... rs
'Feminazi'
Publicação: CERTEZAS SOBRE MULHERES ASSEDIADAS E SEUS EFEITOS DE SENTIDO
Olá, Bete. Parabéns pelo trabalho! A análise do enunciado em que aparece "... a doida é feminazi' é muito instigante. De um lado, temos a palavra 'doida', determinando a mulher, o que nos permite pressupor que ela é desprovida de razão. Isso nos permite subentender que quem tem razão é o homem. E isto quem assume no dizer é um enunciador universal, como vc aponta. Esse discurso infelizmente circula na sociedade há bastante tempo, especialmente na tradição judaico-cristã (lembremos que a serpente teria seduzido Eva e não Adão, e este, interpelado por Deus, põe a culpa na mulher...). Voltando ao nosso tempo, temos, de outro lado, a palavra 'feminazi', formada por 'feminista' e 'nazista'. Trata-se, salvo engano, de uma palavra-valise, pois '-nazi' de 'feminazi' não é um sufixo da língua portuguesa. Como vc bem diz, há uma equivalência que não se sustenta no acontecimento: feminista = nazista? Para o Locutor, sim. Acho que vale a pena uma investida na análise da designação dessa palavra, 'feminazi', em situações em que vc analisa, e também em outras. Que outros sentidos teria a palavra 'feminazi' no acontecimento de enunciação? De que lugar social de dizer e de que posição-sujeito no interdiscurso se diz a palavra?
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