Méis de abelhas sem ferrão: estudo da variabilidade de um potencial marcador em espécies brasileiras por RMN e quimiometria

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Resumo

Abelhas sem ferrão (ASF) são parentes próximas das abelhas Apis mellifera, que possuem ferrão atrofiado impossibilitando seu uso, portanto o nome sem ferrão. Denominadas Meliponini, são um amplo grupo de abelhas encontradas nas regiões tropicais: Américas, Sudeste Asiático, África e Austrália (Hrncir et al., 2016, Roubik, 2023). No Brasil, mais de 300 espécies de abelhas sem ferrão foram catalogadas e distribuídas ao longo de todo território nacional. Essas abelhas têm um papel fundamental na polinização e na manutenção da biodiversidade dos biomas brasileiros (Lima et al., 2016, Rezende et al., 2020, Sato et al., 2023). O mel de abelha sem ferrão é um produto natural que possui propriedades antioxidantes, antimicrobianas e anti-diabéticas há muito consideradas de alto valor (Ja´afar, 2025). Entretanto, existem propriedades terapêuticas que ainda não foram atreladas a componentes bioativos específicos do mel. Um exemplo de componente diferencial em relação ao mel de Apis é a trealulose. Segundo a literatura (Fletcher, 2020), a trealulose é um dissacarídeo importante que foi apontado como possível marcador de autenticidade de mel de ASF. Todavia, pesquisas recentes (Ressutte, 2025) indicaram que a variação de gênero altera a concentração de trealulose presente no mel de abelha sem ferrão. Ademais, Zhang (2025) ressalta que espécies e fontes botânicas locais influenciam potencialmente os níveis de trealulose. Dentre as técnicas analíticas utilizadas para identificação de compostos orgânicos, a RMN tem destaque devido à capacidade de identificar uma gama de compostos diretamente de extratos brutos. A aplicação da RMN de 1H associada à análise multivariada se mostra uma ferramenta analítica robusta e precisa na identificação da variabilidade composicional presente nos méis de abelha sem ferrão (BANA, 2025). Neste trabalho, méis de ASF de 10 espécies e 6 gêneros foram analisados por RMN e quimiometria a fim de explorar sua variabilidade composicional.

As amostras utilizadas neste estudo foram coletadas em parceria com apiários e apicultores das regiões do Maranhão, Minas Gerais, Pará, Paraná e Rio Grande do Sul. Para análise de RMN, foram pesados 160 mg de mel, diluídos em 440 μL de D2O e 200 μL de tampão deuterado fosfato pH 7,07 com TMSP-d4 (sal de sódio do ácido 2,2,3,3-d4-trimetilsililpropiônico) 0,05%. Após essa etapa, a solução foi acondicionada em  tubos de RMN (5 mm) e submetidas às análises de RMN de 1H adquiridas com a sequência de pulso noesygppr1d. Na análise quimiométrica, foram utilizados os programas online NMRProcFlow (Spectral processing for 1D NMR – versão 1.4.28) e MetaboAnalyst 6.0. 

Os espectros de RMN de 1H, com auxílio experimentos bidimensionais, revelaram a presença de açúcares (glucose, maltose, frutose, trealulose), ácidos orgânicos e aminoácidos. A análise quimiométrica apresentou uma distinção entre amostras em função de maltose, glucose e trealulose predominantemente. As amostras das espécies Tetragona clavipes e P. droriana foram separadas pela maior importância de trealulose. Ademais, dados de proporção relativa confirmaram a variação de concentração de trealulose nas diferentes espécies brasileiras, reforçando que esse dissacarídeo deve ter limites de proporção definidos entre cada espécie, em consonância com a literatura.

Dessa forma, os resultados por RMN endossam uma quebra de paradigma em estudos de análise composicional de méis de abelha sem ferrão brasileiros, com um diferencial de um número relevante de espécies brasileiras analisadas.

Agradecimentos: CAPES, CNPq, FUNDECT, UFMS, FINEP.

Referências

BANA, F. C. H. et al. Journal of Apicultural Research, v. 64, n. 3, p. 899–907, 2025. 

HRNCIR, M. et al. Journal of Comparative Physiology A 2016 202:9, v. 202, n. 9, p. 597–601, 12 ago. 2016.

LIMA, M. A. P. et al. Journal of Comparative Physiology A 2016 202:9, v. 202, n. 9, p. 733–747, 11 jul. 2016.

JA’AFAR, N. L. et al. Discover Food 2025 5:1, v. 5, n. 1, p. 150-, 22 maio 2025.

REZENDE, A. C. C. et al. Grana, v. 59, n. 4, p. 304–318, 3 jul. 2020.

SATO, D. M. et al. Ciência e Natura , v. 45, p. e30–e30, 6 nov. 2023. 

ROUBIK, D. W. Annual Review of Entomology, v. 68, n. Volume 68, 2023, p. 231–256, 23 jan. 2023.

ZHANG, J. et al. Journal of Food Composition and Analysis, v. 148, 1 dez. 2025.

 

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RMN de 1H
Mel
Abelha sem ferrão