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Introdução: o modelo predominante de assistência ao parto no Brasil
caracteriza-se pelo uso abusivo ou inadequado de intervenções e cerceamento
dos direitos da parturiente (restrição à presença de acompanhante de escolha
da mulher, realização de amniotomia de rotina durante o trabalho de parto,
posição litotômica de rotina, infusão intravenosa de ocitocina de rotina, puxo
dirigido e pressão no fundo uterino da parturiente durante a expulsão fetal) em
todos os períodos clínicos do parto. Sabe-se que esse modelo pode ser
modificado com a adoção das boas práticas de assistência ao parto normal
preconizadas pela Organização Mundial da Saúde. Embora as melhores
práticas no parto e nascimento estejam fundamentadas em evidências
científicas, faltam pesquisas sobre sua implementação na prática clínica.
Objetivo geral: avaliar o impacto da implementação das práticas baseadas em
evidências na assistência ao parto normal. Método: estudo de intervenção
quase experimental, baseado na metodologia de implementação de evidências
científicas na prática clínica do Instituto Joanna Briggs. Foi conduzido em uma
maternidade pública de referência para a assistência obstétrica em Macapá,
Amapá. Foram entrevistados 42 profissionais (enfermeiros e médicos obstetras
e residentes das duas categorias) e 280 mulheres atendidas no trabalho de
parto e parto. Também foram analisados dados de 555 prontuários de
puérperas. A pesquisa foi desenvolvida em três fases: auditoria de base (fase
1), intervenção educativa (fase 2) e auditoria pós-intervenção (fase 3). A
intervenção educativa consistiu em um seminário denominado “Seminário de
práticas baseadas em evidências científicas na assistência ao parto normal” e a exposição de banners para os profissionais. A coleta de dados ocorreu entre
julho de 2015 e março de 2016. Os achados foram analisados comparando-se
os dados das fases 1 e 3, adotando-se o nível de significância de 5%. Este
estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de
Enfermagem da Universidade de São Paulo, sob parecer nº 698.412/2014.
Resultados: após a intervenção educativa, na entrevista com as mulheres,
constatou-se aumento de 10,0 p.p. (p=0,002) da presença do acompanhante
durante o trabalho de parto e de 31,4 p.p. (p<0,001) no uso da posição vertical
ou cócoras. A realização de amniotomia foi reduzida em 16,8 p.p. (p=0,005), o
uso de posição litotômica em 24,3 p.p. (p<0,001), a utilização de ocitocina em
17,1 p.p. (p=0,004), os puxos dirigidos em 29,3 p.p. (p<0,001) e a manobra de
Kristeller em 10,7 p.p. (p=0,013). Na perspectiva dos profissionais, houve
redução da prescrição ou administração de ocitocina de 29,6 p.p. (p=0,005). Na
análise dos dados dos prontuários, observou-se redução significativa da taxa
de amniotomia em 29,5 p.p. (p<0,001) e de posição litotômica em 1,5 p.p.
(p=0,013), enquanto a taxa de posição vertical ou cócoras apresentou
incremento de 2,2 p.p. (p=0,013). Conclusões: a intervenção educativa
revelou impacto positivo na melhora da assistência à mulher durante o trabalho
de parto e parto, mas mostra que o processo de implementação de evidências
científicas na assistência ao parto normal adotado não foi capaz de obter
sucesso completo na mudança das práticas obstétricas dos profissionais
participantes.