TELEFONOAUDIOLOGIA NO CONTEXTO DA IMPLEMENTAÇÃO DE RECURSOS DE COMUNICAÇÃO AUMENTATIVA E ALTERNATIVA: RELATO DE EXPERIÊNCIA

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Comunicação oral
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Resumo

Introdução: Apesar da crescente demanda por práticas inclusivas, a atuação com recursos de Tecnologia Assistiva (TA) ainda é limitada, principalmente pela carência de formação aprofundada nos cursos de graduação e pela escassez de profissionais com preparo no mercado de trabalho. No entanto, a busca por profissionais de saúde e educação que saibam atuar com Pessoas com Necessidades Complexas de Comunicação (PNCC), tornam a Comunicação Aumentativa Alternativa (CAA) uma área em grande desenvolvimento, sendo necessário articular novos processos de trabalho para garantir serviços de qualidade aos usuários (CESA & MOTA, 2017). A telefonoaudiologia, modalidade remota de atendimento regulamentada pela Resolução nº 580/2020 do Conselho Federal de Fonoaudiologia, rompeu barreiras e tornou-se um caminho viável para ampliar o acesso à intervenção fonoaudiológica adequada para muitas pessoas que não possuem serviço especializado em seus municípios. No caso dos recursos de CAA, a atuação online exige maior criatividade dos profissionais e  mediação familiar constante, além do uso de ferramentas adaptadas à rotina dos usuários. Autores destacam que a eficácia da CAA vai muito além do uso de recursos tecnológicos, dependendo principalmente da atuação dos parceiros de comunicação e da qualidade do ambiente linguístico (LIGHT & MCNAUGHTON, 2014). Desse modo, o presente trabalho busca contribuir ao desenvolvimento de estratégias de implementação dos recursos de CAA no formato de telefonoaudiologia, assim como descrever os benefícios desta modalidade no desenvolvimento da fala, linguagem e comunicação dos usuários mediados pela família e por outros profissionais.  Objetivos: Relatar a experiência de quatro profissionais fonoaudiólogos na implementação de recursos de CAA no formato de telefonoaudiologia. Público-alvo: famílias e fonoaudiólogos que buscam compreender sobre o processo de implementação dos recursos de CAA no formato de telefonoaudiologia. Descrição das ações: As sessões com os parceiros de comunicação foram realizadas semanalmente por meio de encontros síncronos e assíncronos entre os profissionais, familiares e equipes escolares, utilizando plataformas de videoconferência e grupos de WhatsApp como principais canais de comunicação. Como estratégias de ensino-aprendizagem, foram utilizados materiais personalizados em formato digital, elaborados para apoiar a modelagem e a implementação dos recursos de CAA no cotidiano das famílias. Esses materiais incluíram vídeos de modelagem (produzidos pelos profissionais ou pelos próprios parceiros), pranchas visuais, atividades adaptadas, rotinas visuais, checklists, entre outros materiais previamente elaborados. Os instrumentos de avaliação e reavaliação selecionados foram a Matriz de Comunicação e o Checklist do Perfil Funcional de Comunicação de forma complementar, permitindo o acompanhamento integrado das habilidades comunicativas dos usuários, com ênfase nos aspectos pragmáticos da linguagem. Além disso, foi utilizado o protocolo Dynavox  AAC Goal Grid (DAGG-3) para planejar as metas terapêuticas e observar avanços das competências comunicativas  dos usuários, bem como indicadores como maturidade simbólica e morfossintaxe, que guiavam a modelagem segundo estágios de desenvolvimento linguístico. Com base nesses dados, foi elaborado um plano trimestral de intervenção com estratégias de modelagem e  metas específicas, o qual foi compartilhado com os parceiros por meio de formulários e planilhas de acompanhamento. Destaca-se, ainda, que todas as estratégias de intervenção seguiram os interesses e motivação dos usuários para garantir o sucesso da implementação. Solicitou-se vídeos das interações entre os parceiros de comunicação e os usuários de CAA, os quais foram analisados durante os encontros para observar as estratégias de ensino empregadas, uso funcional dos símbolos e ajustes necessários nas orientações. Os feedbacks foram coletados rotineiramente por meio de formulários online e registros compartilhados entre os profissionais e os parceiros de comunicação, com o objetivo de promover a autorreflexão dos parceiros e monitorar a evolução a curto, médio e longo prazo. As estratégias de modelagem foram apresentadas de forma didática, com vídeos de tutoriais e demonstrações   práticas durante os encontros remotos de treinamento. Os parceiros eram encorajados a repetir os gestos de modelagem no ambiente natural da criança, em diferentes momentos do dia, de forma contínua e significativa. As estratégias de modelagem são essenciais para ensinar como a comunicação pode ocorrer através dos recursos de CAA. Portanto, a intervenção terapêutica seguiu os princípios da modelagem contínua, com entradas multimodais de linguagem assistida, como falar, gesticular e utilizar o recurso de CAA (KENT-WALSH & MCNAUGHTON, 2005). Resultados: Essa abordagem colaborativa permitiu avanços consistentes na funcionalidade da comunicação das crianças atendidas, favorecendo a generalização do uso dos recursos da CAA para além do ambiente terapêutico. Ainda assim, alguns desafios persistiram, como a necessidade de manter o engajamento contínuo das famílias, o receio dos parceiros comunicativos em errar e a resistência inicial de alguns profissionais em buscar orientação. Uma das principais perspectivas desta experiência foi reconhecer que o vínculo com o parceiro de comunicação é fator determinante para o progresso do usuário. Este fato corrobora, ainda, com estudos que citam a participação ativa da família como sendo o principal determinante para o sucesso da implementação da CAA (SOTO, 2020). Observou-se, também, o aumento no interesse por informações sobre a CAA e uma maior abertura dos profissionais para o uso dos recursos, especialmente por meio da telefonoaudiologia, que se mostrou uma estratégia eficaz para superar as barreiras geográficas e ampliar o acesso à intervenção especializada. Conclusão: A prática com CAA no formato online, demonstrou que, mesmo diante dos desafios, a intervenção pode ser eficaz quando fundamentada em estratégias centradas na família, avaliação contínua e modelagem intencional. A telefonoaudiologia, ainda que não substitua o atendimento presencial, ampliou significativamente o acesso à comunicação, especialmente em contextos de vulnerabilidade geográfica e estrutural. Os resultados obtidos reforçam o valor de uma atuação colaborativa, em que a família participa ativamente do processo terapêutico. Nesse sentido, a CAA deve ser compreendida não como um recurso isolado, mas como parte integrante da clínica da linguagem. Como afirmam os autores, a CAA é uma área que se articula diretamente com a clínica fonoaudiológica da linguagem, especialmente no atendimento às PNCC (CESA & MOTA, 2017). Assim, o trabalho com CAA vai além do acesso à comunicação, promovendo o desenvolvimento linguístico, a autonomia e a inclusão dos usuários em diferentes contextos da vida diária.


 

REFERÊNCIAS

 

KENT-WALSH, K.; MCNAUGHTON, D. Communication partner instruction in AAC: Present practices and future directions. Augmentative and Alternative Communication, v. 21, n. 3, p. 195–204, 2005.

 

CESA, C. C.; MOTA, H. B. Comunicação suplementar alternativa: da formação à atuação clínica fonoaudiológica. Revista CEFAC, São Paulo, v. 19, n. 4, p. 529–536, 2017. DOI: https://doi.org/10.1590/1982-021620171943117.

 

LIGHT, J.; McNAUGHTON, D. Communicative competence for individuals who require AAC: a new definition for a new era of communication? Augmentative and Alternative Communication, [S. l.], v. 30, n. 1, p. 1–18, 2014.

 

SENNOTT, S. C.; LIGHT, J.; McCARTHY, J. W. Systematic review of aided language modeling and augmentative and alternative communication outcomes. Augmentative and Alternative Communication, [S. l.], v. 32, n. 4, p. 197–207, 2016. DOI: https://doi.org/10.1080/07434618.2016.1232833.

 

SOTO, G. Family-centered AAC practices: expanding the role of caregivers. In: SMITH, M.; PARKER, R. (orgs.). Current issues in AAC. San Diego: Plural Publishing, 2020. p. 13–22.

 

 

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Palavras-chave
telefonoaudiologia
comunicação aumentativa alternativa
tecnologia assistiva