PUBLICAÇÃO PARA CRIANÇAS COM NECESSIDADES COMPLEXAS DE COMUNICAÇÃO COM BASE NO DESIGN UNIVERSAL

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Resumo

Introdução

A comunicação é parte vital da condição humana. É a partir dela que os indivíduos manifestam seus desejos, necessidades e sentimentos, interagem socialmente e estabelecem trocas essenciais para aprendizagem (PASSERINO; BEZ, 2015). Embora a linguagem falada seja a forma mais comum de comunicação, nem todos são capazes de comunicar-se por meio desse recurso, cerca de uma em cada duzentas pessoas, devido a fatores neurológicos, físicos, emocionais e cognitivos. (CARDOSO; PAVANI, 2021; NUNES, 2003). 

Considerando que a infância é uma fase fundamental para o desenvolvimento da linguagem e da comunicação (DUARTE, 2007), a falta de materiais acessíveis voltados a crianças com necessidades complexas de comunicação (NCC) representa uma barreira para o seu desenvolvimento e inclusão na sociedade. A Lei Brasileira de Inclusão (BRASIL, 2015) afirma o direito à acessibilidade nos meios de informação e comunicação, mas os livros infantis ainda não possuem formatos acessíveis no país, e os que possuem não estão ao alcance de todos que precisam.

Este trabalho propõe o desenvolvimento de um livro infantil acessível, baseado nos princípios do design universal, com foco na promoção da inclusão de crianças com NCC. O projeto utilizou a metodologia de Design Thinking e articulou conhecimentos de design, educação, acessibilidade e tecnologia assistiva.

Objetivos

O objetivo principal é desenvolver uma publicação infantil acessível para crianças com necessidades complexas de comunicação, aliando design universal e tecnologias assistivas. Os objetivos específicos incluem:

  • Identificar as características e necessidades do público definido;

  • Aplicar soluções de design gráfico e editorial que favoreçam a compreensão, o manuseio e o interesse pela leitura;

  • Incorporar recursos da Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), como Escrita Simples (ES) e Sistema Pictográfico de Comunicação (SPC);

  • Verificar a viabilidade técnica e econômica da publicação;

  • Avaliar e disponibilizar o material junto ao público-alvo.

Metodologia e desenvolvimento

Definiu-se a metodologia de Design Thinking, utilizando a técnica de Duplo Diamante, que divide-se em quatro etapas que sofrem transições rítmicas entre momentos divergentes e convergentes de desenvolvimento: Descobrir, Definir, Desenvolver e Entregar. As fases divergentes têm como objetivo multiplicar as opções, enquanto as convergentes visam escolher as melhores alternativas a serem desdobradas na etapa seguinte. 

Na fase de descoberta, realizou-se um aprofundamento teórico nos temas de acessibilidade, educação inclusiva, design universal e CAA. O público-alvo delimitado foram crianças em fase de alfabetização com dificuldades comunicacionais, como autistas e pessoas com paralisia cerebral. Entrevistas com responsáveis por crianças com NCC foram realizadas para compreender suas rotinas, dificuldades e preferências.

Na etapa de definição, com base nos dados coletados e no embasamento teórico, foram estabelecidos os requisitos de projeto. A aplicação prática dos princípios do design universal orientou decisões como:

  • Uso de pictogramas, promovendo a percepção da informação por meio de símbolos visuais padronizados;

  • Uso da Escrita Simples (ES) para facilitar a leitura e interpretação do texto por crianças com dificuldades cognitivas ou em fase inicial de alfabetização;

  • Fonte ampliada e de fácil leitura, com alto contraste e espaçamento adequado entre linhas e palavras;

  • Separação entre texto e imagem (diagramação dissociativa), respeitando a lógica cognitiva de crianças autistas e reduzindo a sobrecarga sensorial;

  • Paleta de cores pastéis, que evita estímulos visuais excessivos e favorece a concentração no conteúdo central;

  • Materiais físicos resistentes e com cortes ergonômicos, facilitando o manuseio por crianças com limitação motora.

Na etapa de desenvolvimento, a narrativa do livro foi criada com base em uma experiência pessoal da autora, adaptada para o contexto infantil. A história foi redigida conforme os princípios da Escrita Simples, com vocabulário direto, frases curtas e estrutura linear. As ilustrações foram concebidas para representar ações e emoções com clareza, evitando cenários poluídos ou com excesso de detalhes, conforme recomendam estudos sobre acessibilidade visual (SEEMAN; COOPER, 2016). Foi adotado um sistema de cores com função pedagógica e narrativa, como as pegadas coloridas nas páginas, que indicavam a progressão da história.

Paralelamente, foram realizados testes com diferentes suportes e formatos, incluindo dispositivos móveis e impressão doméstica, de modo a garantir que o produto fosse acessível a públicos com diferentes níveis de acesso tecnológico.

Na etapa de entrega, foi produzido um protótipo de alta fidelidade, impresso em papel cartonado, com acabamento resistente e cortes laterais que facilitam a troca de páginas por parte de crianças mobilidade reduzida. Essa versão foi testada com três crianças do público-alvo, acompanhadas por familiares ou terapeutas, em sessões de leitura individual. Além disso, foram produzidas três versões digitais acessíveis, compatíveis com celulares, tablets e impressoras caseiras, permitindo a distribuição gratuita e ampliando o alcance da iniciativa. 

Resultados

Durante os testes com três crianças pertencentes ao público-alvo, foi possível verificar o engajamento com a leitura e a interação positiva com o material. Todas demonstraram interesse pela história, manipularam o livro com facilidade e solicitaram continuar a atividade de diferentes maneiras, como reler, desenhar personagens ou folhear o livro. Os resultados indicaram que o material cumpre sua função inclusiva.

A viabilidade técnica e econômica do livro físico foi avaliada junto a uma gráfica, com custo estimado em R$ 50 por unidade para tiragens de 500 exemplares. O projeto ainda incluiu a criação de um perfil no Instagram para disponibilizar gratuitamente os arquivos digitais e divulgar informações sobre inclusão e CAA.

O projeto recebeu retorno espontâneo e positivo de pais, terapeutas e educadores de diversas regiões do Brasil por meio da página do Instagram. A partir desse feedback, foram criados materiais complementares como cartas ilustradas, fichas e atividades. Com isso, o projeto evoluiu para um kit pedagógico, ampliando o impacto da iniciativa. Além disso, observou-se uma forte demanda por mais materiais como o desenvolvido, deixando clara a sua relevância para a sociedade.

Conclusão

Este projeto surgiu a partir da percepção da carência de materiais literários inclusivos na sociedade, tendo como objetivo o desenvolvimento de um livro infantil acessível também para crianças com necessidades complexas de comunicação, baseado nos princípios do design universal. Durante o percurso, foram explorados diversos temas para a ambientação no universo da acessibilidade, e a descoberta de todas as facetas que o desenvolvimento de um livro infantil possui. Após entender todas as especificidades do público e necessidades de projeto, utilizaram-se soluções de design para compor um produto que atendesse da melhor maneira a demanda do usuário. Chega-se então, em uma solução final, a qual foi testada, aprovada e, superando expectativas, amplamente disseminada pelo país, evidenciando que é possível construir materiais acessíveis para todos, e chegar em resultados satisfatórios que geram o interesse de leitores.

Referências

BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência. Diário Oficial da União, Brasília, 7 jul. 2015.

CARDOSO, E.; PAVANI, D. B. Comunicação para todos: aplicação da comunicação aumentativa e alternativa na divulgação científica. In: FINATTO, M. J. B.; PARAGUASSU, L. B. (orgs.). Acessibilidade textual e terminológica. Uberlândia: EDUFU, 2022. p. 103-124.

PASSERINO, L. M.; BEZ, M. R. Comunicação alternativa e tecnologias assistivas. In: BEZ, M. R. et al. Comunicação alternativa: mediação para uma inclusão social a partir do SCALA. Passo Fundo: UPF, 2015.

SARTORETTO, M. L.; BERSCH, R. Comunicação alternativa. In: ____ Assistiva: tecnologia e educação. 2019. Disponível em: https://www.assistiva.com.br/. Acesso em: 18 abr. 2020.

SEEMAN, L.; COOPER, M. (org.). Cognitive accessibility roadmap and gap analysis. 2016. Disponível em: http://w3c.github.io/coga/gap-analysis/. Acesso em: 1 maio 2019.

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Instituições
  • 1 UFRGS
Eixo Temático
  • 3. Barreiras e Soluções na CAA
Palavras-chave
Design universal
Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA)
Necessidades complexas de comunicação
Acessibilidade
Livro infantil acessível