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A educação como um todo está ligada continuamente às transformações da sociedade bem como às inserções de outros profissionais que são chamados a contribuírem para a busca da boa qualidade dos índices educacionais. Nesse cenário, a escolarização de estudantes público-alvo da educação especial torna-se desafio na organização de propostas que visem a efetivação da Política Nacional, a inclusão para além da oficialização de matrículas nas escolas e a superação das dificuldades de aprendizagem dos estudantes que não desenvolvem habilidades e competências esperadas pela escola.
Nessa perspectiva, embora o lugar que hoje a pessoa com deficiência e/ou transtorno ocupa seja considerado um avanço significativo no contexto brasileiro ainda é possível perceber as dificuldades de se pensar um ensino que considere a diversidade e as especificidades educacionais. No que se refere ao estudante com Deficiências Múltiplas não seria diferente. O modelo de exclusão esteve presente na nossa história e romper com essa memória é ainda, um desafio.
Quando a pessoa com deficiência e/ou Transtorno chega na escola, especialmente, o estudante com Síndrome Congênita do Zika Vírus, dúvidas, questões e barreiras começam a surgir e se intensificam no dia-a-dia escolar. Nesse contexto, as inquietações didático-pedagógicas em determinados momentos tornam-se impedimento para a busca da efetividade dos processos de ensino e aprendizagem. Entretanto, a ideia de “culpa” da não-aprendizagem desses sujeitos tende a recair para o docente da turma regular. Além disso, episódios de exclusão, ausência de acessibilidade e discursos capacitistas reaparecem em posturas e falas de muitos discursos presentes na escola.
Para Glat e Pletsch (2012) é necessário criar práticas pedagógicas diferenciadas que contribuam para construção de conhecimento e elaboração de planos e estratégias que possibilitem não apenas a aquisição de conteúdos escolares, mas também o desenvolvimento de habilidades para uma vida independente e autônoma.
Em 2015, o Brasil enfrentou um surto de infecção por zika vírus, uma arbovirose causada pelo vírus Zika (ZIKV), transmitido pelo mosquito aedes. Durante o surto, pesquisadores brasileiros (Barreto et.al. 2016; OLIVEIRA et al., 2016; TEIXEIRA et al., 2016) e estrangeiros (Rasmussen et al., 2017;) demonstraram a correlação entre a infecção viral com complicações neurológicas em fetos com microcefalia congênita, denominada Síndrome Congênita do Zikavirus (SCZ). Trata-se de uma grave infecção congênita, que pode afetar fetos cujas mães contraem o zika vírus durante a gravidez. Pode causar microcefalia e/ou danos neurológicos permanentes na criança durante a gestação e também vir a afetar o sistema nervoso central, alguns meses após o nascimento, em crianças que testam negativo para o vírus ao nascer (HAMAD e SOUZA, 2020).
O Nordeste foi a Região que apresentou a maior concentração de casos nesse período. A região Sudeste tem cerca de 20% do total de casos, a maioria no Estado do Rio de Janeiro, sobretudo, na Baixada Fluminense (BRASIL, 2020). Em 2022, a maioria das crianças com SCZ dessa região começou a chegar às escolas, exigindo das secretarias de educação e das gestões escolares a implementação de um conjunto de ações necessárias à plena inclusão delas no contexto escolar. Diante desse cenário, torna-se fundamental compreender as práticas pedagógicas e os desafios da inclusão dessas crianças no ambiente escolar.
O relato de experiência que se refere este trabalho, tem como foco principal destacar práticas didático-pedagógicas para a construção de uma comunicação alternativa de uma estudante/criança com 06 anos de idade com deficiência múltipla decorrente da SCZV, identificada neste trabalho por Y. A estudante estava matriculada na creche-escola desde 02 anos de idade e vem, gradativamente, ampliando suas formas de comunicação.
Nesse sentido, acredita-se que com vistas à favorecer as interações sociais no ambiente escolar, numa perspectiva que, como propunha Vigotsky (2022), transcende as questões físicas e biológicas, processos de mediação podem se tornar potencializadores para a garantia dos direitos de aprendizagem e a quebra de barreiras comunicacionais. Além disso, pressupondo o fundamental papel desempenhado pelo meio social no avanço das capacidades psíquicas humanas ações planejadas e implementadas, pela gestão da escola e pelos professores e profissionais de apoio, intervenções educativas institucionais e práticas pedagógicas de sala de aula tiveram como objetivo assegurar a plena inclusão de Y à comunidade escolar (LURIA, 1979).
Nessa perspectiva, práticas de promoção da interação foram desenvolvidas com ênfase na Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA). Dessa forma, considerando que a CAA oferece recursos e serviços para promover a funcionalidade e a autonomia de pessoas com deficiência, entendeu-se a importância de organizar propostas e ações a partir de um planejamento colaborativo entre professora da turma regular, professora do Atendimento Educacional Especializado e profissionais que estão em contato direto com a estudante Y.
Assim, destaca-se em termos gerais para favorecer a efetividade da comunicação da estudante Y foi necessário pensar os seguintes aspectos: rotina de terapias e acompanhamentos médicos; comunicação estabelecida em casa; rotina escolar; observações dos membros da família; diálogo entre os profissionais da saúde que estão em direta comunicação com a estudante; troca de conhecimentos científicos e acadêmicos com profissionais pesquisadores da SCZV (PUC - RJ e UFRRJ). Além disso, as pranchas de comunicação alternativa foram testadas e fixadas/estabelecidas na rotina com o foco de que a estudante Y conseguisse expor suas vontades e fazer-se entender com relação aos seus desejos.
Como encaminhamento metodológico, o relato de experiência se inspira em um referencial teórico, pautado na teoria histórico-cultural e na Teoria da Atividade em que uma pesquisa colaborativa, transpõe a distância pesquisador/sujeito de pesquisa com vistas à construção de conhecimentos acerca do objeto de estudo. Entende-se que essa escolha favorece o compartilhamento de conceitos e metodologias elaborados no ambiente acadêmico e de saberes construídos coletivamente no contexto em estudo, valorizando a história e a experiência dos sujeitos e a riqueza do contexto investigado.
Os desafios das práticas desenvolvidas indicaram que ações institucionais no dia-a-dia escolar precisam ser pensadas com rigor legal e de forma pedagógica e ampliada. Além disso, os desafios indicaram que as reflexões coletivas potencializam a produção das estratégias educativas, intencionalmente planejadas e executadas, de forma coletiva, por toda a comunidade escolar. A estudante Y possui uma “gramática” própria que demanda a compreensão e o registro das múltiplas formas de interpretá-las. Assim, torna-se necessário mapear as formas originais de se comunicar, à interação com os colegas e com os profissionais da escola e à aquisição dos conteúdos escolares.
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