PRANCHAS COMUNICATIVAS UTILIZADAS EM PACIENTE COM ATAXIA CEREBELAR DE INÍCIO TARDIO E DISARTRIA ATÁXICA

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Resumo

Introdução: A ataxia, termo derivado do grego ataxis (sem ordem ou incoordenação), é caracterizada por falhas na execução de movimentos voluntários, com comprometimento da coordenação motora de tronco e membros. Tais manifestações incluem lentidão para iniciar movimentos, erros no alcance e na velocidade das ações motoras (Freitas, Oliveira, 2022). As doenças cerebelares comprometem a fluência dos movimentos quanto à sua força, amplitude e ritmo, sendo frequentemente acompanhadas de sinais clássicos como nistagmo, hipotonia, tremor, disfagia, disartria e alterações de marcha (Coelho, 2020; Teive, 2009).  A disartria, por sua vez, é um distúrbio motor da fala decorrente de lesões no sistema nervoso central ou periférico, afetando os mecanismos de controle neuromuscular envolvidos na respiração, fonação, ressonância, articulação e prosódia. A disartria atáxica, especificamente associada a lesões cerebelares, é caracterizada por articulação imprecisa, ritmo prosódico alterado, prolongamentos de sons, pausas inapropriadas e déficits na coordenação dos músculos da fala (Veenhuis et al., 2021; Vogel et al., 2024). Neste contexto, a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) surge como recurso essencial para garantir a expressão de desejos, pensamentos e necessidades, promovendo autonomia e qualidade de vida. Objetivo: Demonstrar a eficácia da utilização de pranchas comunicativas como recurso de Comunicação Aumentativa e Alternativa na promoção da expressão de desejos, necessidades e pensamentos em uma paciente com ataxia cerebelar e disartria atáxica, contribuindo para sua autonomia comunicativa e qualidade de vida. Descrição do caso e das ações desenvolvidas: Trata-se de um estudo observacional de caso clínico, referente a uma paciente do sexo feminino, 52 anos, com diagnóstico de lesão de fossa posterior e quadro de ataxia cerebelar progressiva. A paciente encontra-se em acompanhamento em uma clínica de reabilitação no município de Abaetetuba, Pará, sob atendimento fonoaudiológico e equipe multidisciplinar. Durante a avaliação fonoaudiológica inicial, foi identificado um quadro de disartria atáxica com características como fala escandida, pausas irregulares, alteração prosódica, tremores vocais, dificuldades articulatórias, instabilidade na intensidade (loudness) e frequência vocal (pitch), além de fadiga vocal significativa. A paciente apresentava também sinais de disfagia e incoordenação dos órgãos fonoarticulatórios durante a emissão de fala. Foi observado um declínio progressivo das habilidades comunicativas, com impacto direto em sua interação social e autoestima. Diante da evolução do quadro clínico e das dificuldades comunicativas evidenciadas, optou-se pela introdução de um sistema de CAA por meio de pranchas comunicativas. A indicação foi reforçada após reavaliação com neurocirurgião, que sugeriu a possibilidade de intervenção cirúrgica, tornando ainda mais urgente a adoção de estratégias que garantem a manutenção da comunicação funcional da paciente. Com este avanço do comprometimento motor e da fala, foram elaboradas pranchas comunicativas personalizadas com o objetivo de ampliar a autonomia da paciente e garantir sua participação ativa em interações cotidianas. O estudo compreendeu uma janela temporal de seis meses, com reavaliações mensais para ajustes na proposta terapêutica. As pranchas foram confeccionadas artesanalmente, utilizando folhas A4 e uma pasta catálogo para organização dos conteúdos. Os símbolos empregados foram compostos por palavras escritas com letra maiúscula em fonte “Arial”, associadas a ícones simples de banco de imagens livre (sem pictogramas oficiais), de modo a facilitar a associação visual e a leitura por parte da paciente e dos familiares. Nesse sentido, o vocabulário foi distribuído em diálogo funcional simples: 1. Frases básicas de interação social: Bom dia!, Você está bem?, Quer ir ao/à, Sim ou Não;. 2. Necessidades básicas: alimentação, hidratação (água), higiene (uso do banheiro), descanso; 3. Expressão de opiniões e sentimentos: Não quero, irei depois, concordo, não é necessário; 4. Rotinas diárias: café da manhã, escovar os dentes, hora do banho, refeições 5. Para as sessões terapêuticas: expressões para indicar dor, desconforto, cansaço, aceitação ou recusa de exercícios. Dessa forma, a paciente e seu acompanhante foram treinados quanto ao uso adequado das pranchas, com ênfase na identificação dos símbolos, combinação de palavras e adaptação a diferentes contextos comunicativos. O processo de aprendizagem foi gradual, sendo reforçado em cada sessão por meio de reforço positivo. A utilização do recurso também foi estendida aos demais profissionais da equipe multidisciplinar, promovendo a integração da estratégia em todos os ambientes terapêuticos. Foram realizadas reavaliações periódicas com ajustes no vocabulário das pranchas, conforme as demandas comunicativas emergentes da paciente. As alterações incluíram a substituição ou adição de novos símbolos, visando ampliar a capacidade expressiva e contextualizar o uso da CAA à rotina e vivência da paciente. Resultados: A introdução da CAA por meio das pranchas comunicativas resultou em melhorias significativas no processo de comunicação da paciente. Observou-se redução da frustração associada à falha na fala, maior clareza nas interações, aumento da participação em atividades sociais e familiares e melhora subjetiva na autoestima. A paciente passou a demonstrar maior iniciativa em expressar suas vontades e sentimentos, contribuindo para sua inclusão e bem-estar. Além disso, a utilização das pranchas favoreceu a continuidade do processo terapêutico mesmo diante da progressão dos sintomas motores e vocais, servindo como ponte para a manutenção da comunicação funcional e promoção da qualidade de vida. Conclusão: Este relato evidencia a importância da Comunicação Aumentativa e Alternativa no manejo clínico de pacientes com ataxia cerebelar e disartria atáxica. O uso de pranchas comunicativas se mostrou uma estratégia eficaz, não apenas na viabilização da expressão de necessidades e desejos, mas também na promoção de autonomia, autoestima e fortalecimento dos vínculos interpessoais da paciente. A intervenção com CAA deve ser considerada uma prática essencial no contexto fonoaudiológico de reabilitação neurológica, especialmente em quadros de declínio progressivo das funções motoras da fala. 

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Instituições
  • 1 Universidade do Estado do Pará
Eixo Temático
  • 2. Desafios e Perspectivas
Palavras-chave
Degenerações Espinocerebelares
Disartria Espástica
Inclusão Social
Comunicação Alternativa