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Introdução
A comunicação é uma habilidade essencial para o desenvolvimento humano, sendo a base para a construção de relações sociais, expressão de necessidades, aprendizado e autonomia. Quando essa habilidade está comprometida, torna-se necessário o uso de recursos e estratégias que viabilizem formas alternativas de expressão.
Dessa forma, indivíduos com Necessidades Complexas de Comunicação (NCC), caracterizados quando a fala, os gestos e/ou a escrita se mostram temporária ou permanentemente inadequados para atender às demandas comunicativas, devem utilizar a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), a qual apresenta-se como uma tecnologia assistiva cujo principal objetivo é atender às variadas necessidades de comunicação de uma maneira mais inteligível, específica, eficiente, independente e socialmente valorizada; possibilitando compreender os outros e ser compreendido (ASHA, 2023).
Com relação ao público-alvo da CAA, temos as pessoas com TEA. O Transtorno do Espectro Autista, segundo o DSM-5-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), o TEA é caracterizado por alterações persistentes em dois domínios principais: déficits na comunicação social e na interação social em múltiplos contextos; e padrões restritos e repetitivos de comportamentos, interesses ou atividades. Essas características podem comprometer o desenvolvimento da linguagem verbal, resultando em crianças não oralizadas ou com repertório comunicativo funcional limitado.
Na atualidade, o uso de sistemas robustos de comunicação e da técnica de modelagem têm sido estratégias utilizadas na prática clínica com indivíduos que apresentam NCC. Um sistema robusto de CAA é estruturado com pictogramas baseados na combinação de “palavras essenciais” (core words) e “palavras acessórias” (fringe words). As core words são compostas por termos de alta frequência no idioma (verbos, adjetivos, advérbios e pronomes). Já as fringe words englobam substantivos e vocabulário mais específico, relacionado a interesses particulares e contextos determinados do usuário. Nesse cenário, a modelagem busca enfatizar o uso das palavras essenciais em cerca de 80% das interações, reservando os 20% restantes para o vocabulário acessório (Sennott; Light; McNaughton, 2016).
Estudos como o de Pereira et al. (2020) evidenciam o uso da CAA como uma estratégia terapêutica eficaz para promover a comunicação funcional em indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Os resultados apontam um aumento significativo nos atos comunicativos, indicando que a CAA contribui de forma expressiva para o desenvolvimento da linguagem funcional, o que neste caso, pode auxiliar na comunicação de necessidades fisiológicas e habilidades básicas essenciais do cotidiano, como no processo de desfralde.
Objetivos
Descrever a experiência de implementação de uma estratégia de CAA no processo de desfralde e avanço nas habilidades sociais (HS). Como objetivos específicos, ensinar habilidades para comunicar necessidades fisiológicas para iniciar processo de desfralde; promover o desenvolvimento de habilidade para troca de turno; e realizar orientações de uso aos parceiros de comunicação - terapeutas, pais e auxiliar de apoio escolar.
Descrição do caso e das ações desenvolvidas
A presente intervenção foi realizada com uma criança diagnosticada com TEA, classificada com nível 2 de suporte.
O processo teve início com uma reunião com os responsáveis, para apresentar a proposta de intervenção em CAA, esclarecer dúvidas frequentes e mitos relacionados à ideia de que o uso de recursos alternativos poderia inibir o desenvolvimento da fala. Também foi realizada escuta ativa das necessidades da família e levantamento do vocabulário funcional contextualizado ao ambiente, incluindo interesses da criança, como tipos de alimentos e bebidas consumidos, lugares que frequenta, personagens preferidos, brinquedos e atividades de rotina.
Com o assentimento dos responsáveis e assinatura dos documentos de consentimento livre e esclarecido, foi dado início ao processo de avaliação multiprofissional. A primeira avaliação foi realizada pela fonoaudióloga da equipe, utilizando o instrumento PROC (Protocolo de Observação da Comunicação), com o objetivo de levantar o repertório comunicativo expressivo e receptivo da criança. Em paralelo, a terapeuta ocupacional conduziu uma avaliação de acesso. Essa avaliação foi registrada como pré-teste para comparação posterior.
A implementação do recurso de CAA ocorreu, inicialmente, no contexto clínico, durante as sessões regulares de intervenção terapêutica. Nessa fase, foram utilizadas estratégias baseadas na Análise do Comportamento Aplicada (ABA), com foco na modelagem do uso de palavras essenciais, ensino por tentativas discretas e ensino incidental. A equipe iniciou a construção da prancha de comunicação em alta tecnologia, utilizando o aplicativo Asterics Grid como ferramenta principal.
Durante as sessões, trabalhou-se com ênfase a comunicação relacionada ao desfralde, modelando as palavras “banheiro”, “xixi” e “cocô”; e as habilidades sociais relacionadas à troca de turno, com brincadeiras, alternando entre falar, ouvir, agir e esperar a vez do outro, e utilizando as palavras “eu”, “você”, “esperar”, “ajuda”. Além disso, também eram modeladas outras palavras, como relacionadas aos cumprimentos e categorias de cores e animais.
Em seguida, foi realizada uma visita ao ambiente escolar, em que a equipe técnica forneceu orientações à auxiliar de apoio escolar, a fim de alinhar estratégias e práticas para ampliar o uso do recurso nesse contexto, além de dar ênfase à questão do desfralde, solicitando à escola que modelassem as palavras xixi e cocô quando ofertasse a ida ao banheiro e depois de levá-lo. Durante essa etapa, foram identificadas situações comunicativas prioritárias no cotidiano da criança na escola, e selecionado um vocabulário específico para ser incorporado ao sistema CAA, respeitando os contextos naturais de uso.
Resultados
Na primeira avaliação, em abril de 2025 constatou-se que a criança não apresentava comunicação intencional. No desempenho global, pontuou 8 pontos em habilidades comunicativas (expressivas), 30 pontos na compreensão da linguagem verbal e 12 pontos nos aspectos do desenvolvimento cognitivo. Além disso, com relação ao desfralde, a criança não solicitava ida ao banheiro e não informava se havia feito suas necessidades básicas, sendo necessário fazer uso contínuo de fralda.
Na segunda avaliação, em junho de 2025, observou-se que a criança tem apresentado comunicação intencional, com funções primárias. No desempenho global, pontuou 36 pontos em habilidades comunicativas (expressivas), 50 pontos de compreensão da linguagem verbal e 15 pontos nos aspectos de desenvolvimento cognitivo. Neste momento, com relação ao desfralde, passou a solicitar banheiro, apontando “xixi” ou “cocô” na prancha de comunicação, ou respondia a pergunta “você quer ir ao banheiro?” com “sim” ou “não” também pela prancha. Dessa forma, foi possível realizar o processo de desfralde, deixando-o sem fralda durante o dia.
Foi possível observar que, a partir dos objetivos específicos trabalhados e da modelagem, a criança passou a fazer uso das funções comunicativas de solicitação, incluindo necessidades fisiológicas; cumprimentar; aceitar; negar e expressar emoções nos contextos cotidianos.
Conclusão
Observou-se, ao longo da intervenção, a ampliação do repertório comunicativo funcional da criança, com destaque para a aquisição de habilidades importantes como a solicitação de objetos, escolha entre alternativas, início de interações e a solicitação do uso do banheiro, habilidade relacionada ao autocuidado e à independência. A introdução de vocabulário significativo, a partir de contextos familiares e escolares, reforçou o princípio de que a comunicação só se torna efetiva quando faz sentido para quem a utiliza e que tenha parceiros de comunicação competentes para tal.
Ressalta-se a relevância da utilização de um sistema de CAA de caráter robusto, em comparação com abordagens mais restritas, centradas em substantivos e itens de preferência da criança. Conclui-se que o uso da CAA possibilita caminhos para alcance da autonomia e participação social. Considerando-se que o presente estudo configura-se como estudo de caso único, recomenda-se investigações futuras com amostra ampliada, a fim de fortalecer a generalização dos achados.
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