Implementação do Picture Exchange Communication System – PECS em um caso com Transtorno do Espectro do Autismo na adolescência

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Resumo

Introdução:  A Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) é uma área de prática e pesquisa, clínica e educacional que envolve um conjunto de ferramentas e estratégias utilizadas para resolver desafios cotidianos de comunicação de pessoas que apresentam necessidades complexas de comunicação. Um dos exemplos encontrados no campo clínico é o Picture Exchange Communication System (PECS). Trata-se de um sistema baseado na análise aplicada ao comportamento, planejado e desenvolvido para pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo, e que oferece a seus usuários oportunidades comunicativas por meio da troca por figuras. Profissionais com experiência e certificados implementam o PECS em seis fases: na fase I (Troca física: como comunicar) o usuário aprende a usar os cartões para indicar o que deseja. Na fase II (Distância e persistência): persiste-se no uso dos cartões em diferentes contextos e distâncias.Na fase III (Discriminação de figuras) a ênfase é na discriminação visual e seleção adequada de diversos cartões, com itens de preferência e não preferência do usuário. Na fase IV (Estrutura da sentença) aprende-se a construção de frases utilizando-se cartões relativos a verbos de ação (ex: querer) e atributos dos objetos (ex: cor). Na fase V (Responder ao que você quer?) o usuário é incentivado a responder à pergunta “O que você quer?”. E na fase VI (Comentar) aprende-se a criar comentários tais como “eu estou assistindo...”. Em estudo conduzido a partir da experiência em clínica escola inserida no Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro com o objetivo de testar um programa de implementação do Picture Exchange Communication System - PECS em 24 sessões verificou-se que todas as vinte e duas crianças com Transtorno do Espectro do Autismo participantes atingiram as três primeiras fases. A fase IV foi alcançada por 82% delas; a fase V por 64%. O índice de adesão das famílias foi de 96%. Essas crianças puderam atingir fases de discriminação e construção de frases com os cartões, além de demonstrarem ganho em seu repertório lexical e diminuição das atipias comportamentais. Cientes que o acesso aos serviços de intervenção fonoaudiológica na adolescência e na vida adulta para pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo são mais escassos, o objetivo deste estudo foi descrever a experiência de implementação do PECS em 24 sessões, em um caso com Transtorno do Espectro do Autismo na adolescência.

 Métodos: Trata-se de um relato de caso (Parecer de Aprovação do CEP: 0751/2019). D.R.N., 14 anos, gênero masculino, diagnosticado com Transtorno do Espectro do Autismo – Nível 2 e atendido pela parceria entre o Núcleo de Investigação Fonoaudiológica da Linguagem da Criança e Adolescente no Transtorno do Espectro do Autismo – NIFLINC-TEA e o Ambulatório de Cognição Social Prof. Marcos Mercadante – TEAMM, filiado ao Departamento de Psiquiatria, ambos pertencentes à Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP. Segundo relato da família, o menor esteve em terapia fonoaudiológica por cerca de três anos durante o período da primeira infância, mas sem o uso de qualquer sistema de comunicação alternativa. Atualmente, encontra-se em terapia de base comportamental, escola de ensino regular público e recebendo suporte clínico em seu domicílio, uma vez por semana, do Centro Especializado em Reabilitação - CER, filiado ao Sistema Único de Saúde. Na avaliação fonoaudiológica verificou-se prejuízos acentuados em todos os comportamentos que regulam e sustentam a interação e a comunicação social: contato visual reduzido, déficits na atenção compartilhada, ausência do uso de gestos como o apontar, falhas na compreensão verbal e verbalização mínima. Observou-se ainda, repertório restrito de interesses e atividades. Na aplicação do Autism BehaviorChecklist (ABC – Krug et al, 1993; Marteleto, Pedromônico, 2005) verificou-se pontuação total de 86, indicando alto grau de severidade dos comportamentos não-adaptativos. Na aplicação da Matriz de Comunicação (Charity, 2011), em entrevista com a responsável de D., observou-se dificuldades na realização das funções mais sociais por meios comunicativos mais avançados, como uso de frases combinadas com gestos (etapa VII, denominada linguagem). Em colaboração com a família foi feita a Listagem de Vocábulos do PECS e na sequência foi iniciada a implementação do sistema, iniciando com guloseimas, bebidas e jogos de interesse do adolescente. Até o momento foram realizadas 14 sessões de terapia fonoaudiológica e temos observado apropriação do sistema pelo jovem, que já se mostra capaz de produzir frases com diferentes elementos sintáticos como substantivos, verbos, adjetivos, numerais e advérbios, de modo espontâneo ,e independente. Observamos ainda, aumento da produção oral do adolescente a partir da fase 4 do PECS. D. tem sido capaz de emitir oralmente frases de até 5 palavras, inclusive, respeitando a conjugação verbal e nominal adequada ao contexto. Ele está  na transição entre a fase 5 e 6 do PECS. Estão sendo utilizados cartões envolvendo classes gramaticais: substantivos, verbos, adjetivos, pronomes, numerais, advérbio e interjeições. Posteriormente, outros cartões envolvendo lugares, como parques e estações de metrô serão desenvolvidos afim de alavancar o uso do sistema pelo jovem além do ambiente clínico e domiciliar, que já nesses contextos foi observado adesão ao uso dos cartões para comunicação. 

Conclusão: O uso do Picture Exchange Communication System -PECS tem se mostrado um sistema eficaz para ampliação das trocas comunicativas, inclusive potencializando o uso de elementos combinatórios como adjetivos e advérbios em frases com os cartões. A experiência relatada também demonstra que a falta de acesso aos sistemas de comunicação alternativa e aumentativa durante a infância não deve limitar a sua implementação seja no período da adolescência ou da vida adulta. Sempre é tempo de promover e potencializar a comunicação, a interação e a inclusão social das pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo.  

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Instituições
  • 1 UNESP
  • 2 Universidade Federal de São Paulo
  • 3 UNIFESP
Eixo Temático
  • 1. Avanços e Inovação
Palavras-chave
comunicação alternativa e aumentativa
adolescência
transtorno do espectro autista