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Introdução:
A comunicação eficaz é essencial para o desenvolvimento do indivíduo. Na avaliação funcional, é importante considerar o funcionamento do estudante em diferentes contextos, valorizando seus interesses e habilidades. O estudante deve ser entendido como sujeito que possui desejos e ajudá-lo a desenvolver uma forma clara e adaptada de se comunicar, para que não necessite utilizar comportamentos desadaptados para ser entendido. A educação especial pode fazer esse direcionamento, desde que não esteja voltada para a deficiência, mas sim, para o sujeito ali existente. Assim, o currículo deve valorizar suas preferências, oferecendo uma Comunicação Alternativa para que nos diga e para que todos possam entendê-lo.
Objetivo:
Observar a diminuição de comportamentos auto lesivos sob a intervenção do Currículo Funcional Natural e o uso do PECS-Adaptado num processo de intervenção transdisciplinar de uma estudante com surdez bilateral severa/profunda, Necessidades Complexas de Comunicação e TEA - Suporte 3.
Descrição e Resultados:
Luna (Fictício), 7 anos, iniciou o programa - Currículo Funcional Natural em outubro de 2023 para avaliação e acompanhamento no contraturno escolar. Apresentou história de dificuldade na interação social, padrão restrito de interesses, atitudes repetitivas, ritualidade, inflexibilidade e comportamentos auto lesivos (bater na cabeça, bater a cabeça contra o ombro, que resultava em sangramento auditivo). Na avaliação inicial apresentou choro intenso e comportamento autolesivo, não conseguindo permanecer na Instituição. Durante a primeira semana, após o uso de ansiolítico permaneceu na sala do grupo com mais 4 crianças, a mãe e a professora, para observação de interesses e habilidades (Avaliação CFN). Luna chorava muito. A mãe a colocou no colo, balançou até que parasse de chorar e informou que o comportamento era comum em situações novas e o choro acalmava com o balanço. O choro foi diminuindo com o movimento e a mãe comentou que Luna adorava uma personagem de desenho animado. Com base na observação, foi adotada, como estratégia inicial, uma cama elástica para que Luna realizasse movimentos rítmicos de balanço de forma independente e observar o comportamento. Luna respondeu, mostrando satisfação na cama elástica, diminuiu o comportamento de bater na perna e na cabeça e redução do choro. Foi visível sua alegria, sorrindo durante o balanço, ampliando o tempo na sala, permitindo a saída da mãe. Também, aumentou a adaptação ao ambiente, aos educadores, pois sempre que chegava, via a cama elástica na sala - seu maior interesse, sendo definido como objeto para a instalação do PECS-Adaptado. Luna precisaria solicitar o cartão - cama elástica- para poder usá-la. Na segunda intervenção, pediu a cama elástica tocando a figura, indicando seu desejo. A princípio a cama elástica foi a única opção de interesse e, por acalmá-la, passou a ser o espaço para avaliar outros interesses de Luna como: tinta azul, colchonete e a personagem do desenho animado. Na cama elástica, necessitava de auxílio físico, pois se recusava a fazer a troca para obter os outros objetos (iniciando o comportamento auto lesivo). Foi então, utilizado, como estratégia, um cartão com a figura do personagem que Luna “adorava”, associado aos objetos de menor interesse (a personagem traria o objeto ou a ação no cartão): personagem pintando, indo ao banheiro, tomando lanche). A professora persistiu com auxílio físico para Luna tocar na figura ou realizar a troca, conquistando, depois de meses, a meta de pedir os outros objetos ou fazer a ação com os amigos, mas Luna insistiu em manter duas opções: bater ou entregar a figura. As atividades, foram intercaladas na cama elástica e fora da cama elástica, sendo solicitada para sair da cama elástica para comer à mesa, buscar seu lanche na cozinha, acompanhar os colegas, ir ao banheiro e iniciar o desfralde, conquistando atitudes compatíveis com a sua idade cronológica. Desde os primeiros atendimentos, apresentavam-se cartões para previsibilidade e comunicar onde iria. No ano de 2024, Luna iniciou o ano permanecendo por mais tempo em sala, com os demais colegas e seguindo instruções da professora e do educador social. Os interesses também foram ampliados, o que facilitou, ainda mais, a utilização do PECS-Adaptado Importante comentar que a discriminaçao de figuras (fase 3) com a personagem , no caso de Luna, foi antecipada à Fase 2. Assim, pelo aumento dos interesses, o uso da cama elástica pode ser reduzido de modo gradativo e foi retirado de sala. Luna participava em outros ambientes da Instituição, interagia com os colegas e participava de atividades externas. Ao longo do processo, iniciou a fase 2, aumentando a espontaneidade (bater ou entregar a figura) com outras pessoas e espaços, sendo incentivada a pedir para ir ao banheiro. Também começou fazer pareamento de figuras com objetos de sua rotina. Após meses de atendimento, a mãe foi orientada a fazer o uso do aparelho auditivo e adaptá-lo durante a permanência no grupo. Apesar das tentativas para adaptação, não obtivemos sucesso, sendo a adaptação suspensa, por enquanto, pelo retorno dos comportamentos auto lesivos de modo intenso. Em novembro de 2024, na Rede Regular, foi inserida a Comunicação Multimodal e Luna passou a receber atendimento uma vez por semana em LIBRAS, com participação ativa de sua mãe, a fim de ensinar sinais básicos, promover o aprendizado simultâneo da família e facilitar a comunicação em diferentes ambientes. Em 2025, vem mantendo o acompanhamento em LIBRAS na sala de aula junto aos demais alunos da Rede Regular. Tal estratégia ampliou a comunicação de Luna para olhar a personagem se detinha a olhar a figura, mantendo a associação dos pictogramas (PCS), a personagem de interesse e aos sinais em LIBRAS (figuras). Essa comunicação multimodal tem se mostrado importante na redução significativa dos comportamentos disruptivos, melhorando o engajamento social, a autonomia e a expressão das necessidades de Luna. Atualmente, Luna encontra-se na Fase 3a, generalizando, a entrega ou ainda, o bater, do que deseja para outras pessoas. Tem mudado seu comportamento ampliando sua participação na escola, em eventos na comunidade, frequentado lugares públicos (circo, cinema e as atividades externas oferecidas na abordagem funcional natural).
Discussão - Conclusão:
Este relato, traz à reflexão as avaliações funcionais que orientam observar o estudante com deficiência grave e não verbal qual a sua reação nos diversos ambientes, no uso de materiais e em outros “estímulos” para obter informações sobre suas preferências. Ainda, essas avaliações orientam, que aos estudantes com significativa dificuldade de comunicação, devem ser consideradas estratégias para obter suas respostas. Na observação das preferências do estudante foi associada a estratégia de comunicação alternativa, PECS-Adaptado para estabelecer o engajamento e o diálogo. O PECS-Adaptado foi fundamental na ampliação do repertório de interesses e habilidades e as LIBRAS, acrescentaram formas aumentadas de expressão, contribuindo para o fortalecimento de vínculos, redução dos comportamentos auto lesivos e ampliação da autonomia. Neste caso, a avaliação e a intervenção seguiram o modelo do Currículo Funcional Natural, no reconhecimento do pensar da pessoa com deficiência, observada nas atitudes de seu comportamento que foram reveladas e entendidas como forma de comunicação, permitindo a expressão de seu pensamento, seus desejos e emoções, mostrando o que era necessário e útil no momento para ela. Ainda, foi observado pelo sorriso o potencial de escolha, modificando a crença de que pessoas consideradas graves não são capazes de escolher ou participar. Esse olhar promove sua capacidade de transformar o entorno, transformando a visão da sociedade, ainda impregnada de estigma, rótulos e preconceitos.
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