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Introdução
A Comunicação Alternativa e Ampliada (CAA) desempenha um papel essencial na inclusão de pessoas com necessidades complexas de comunicação (PNCC), viabilizando sua participação em conversas e trocas com diferentes parceiros de seu cotidiano. Dentre as diversas estratégias utilizadas, o uso de cenas visuais pode permitir que indivíduos expressem narrativas de maneira significativa e funcional. As cenas visuais são elaboradas com imagens ou fotografias de ambientes reais ou atividades realizadas pela PNCC. Estudos apontam para alguns benefícios de uso das cenas visuais como a possibilidade de personalização, a facilidade de compreensão e maior engajamento e otimização do tempo de interação (Light & McNaughton, 2012). Este trabalho explora o impacto do uso de cenas visuais na construção e transmissão de relatos por uma pessoa que utiliza um sistema de CAA. Esse estudo de caso compõe uma análise de dados da pesquisa de campo em curso para a tese de doutorado intitulado “Ampliar espaços de saúde e emancipação social para pessoas com necessidades complexas de comunicação: construindo subsídios teórico-metodológicos para o cuidado em terapia ocupacional.”
Objetivos
O principal objetivo deste estudo de caso é analisar como as cenas visuais podem ser utilizadas para narrar fatos por uma pessoa com necessidades complexas de comunicação.
Descrição do Caso
O estudo apresenta o caso de A., uma jovem atendida em terapia ocupacional e que utiliza uma prancha de comunicação de baixa tecnologia, com layout de grade, configurando um sistema robusto construído com símbolos, fotos e palavras. O sistema está dividido entre vocabulário essencial e acessório, com expressões e palavras de alta frequência, categorias e alfabeto. O relato inclui como, na relação com a terapeuta ocupacional e as atividades, foram selecionadas e organizadas cenas visuais para apoiar o processo de construção de narrativas sobre essas atividades, que incluíam saídas a espaços de lazer e cultura, elaboração de receitas culinárias, leitura de livros, elaboração de cartões de aniversário, entre outras. Após as atividades e registro fotográfico, A. era convidada pela terapeuta ocupacional a conversar sobre o que haviam realizado, modelando o vocabulário em sua prancha e incentivando sua expressão. A partir destas vivências, A. foi ampliando o uso desta estratégia para outros contextos. As cenas visuais foram, ao longo do processo terapêutico, sendo organizadas em um caderno que circulava com ela entre os familiares, profissionais e amigos de sua convivência. Intervenções educacionais foram direcionadas a familiares e parceiros de comunicação que foram orientados a auxiliar A. nessa construção. A. indicava através de um gesto específico de “fotografar” as vivências que gostaria de registrar e acompanhava o processo de impressão e inclusão da foto neste caderno. A partir destes contextos de conversas, novos símbolos e palavras também foram agregados ao vocabulário disponível em sua prancha. A. era incentivada a utilizar sua prancha de comunicação para apoiar o relato e sustentar o diálogo, pois o interlocutor lhe fazia perguntas e comentários a partir dos elementos das fotos. A. passou a solicitar que o conteúdo destas conversas também fosse escrito no caderno e o texto ao lado da foto também passou a servir para compor a interação. O caderno passou a ser um recurso para A.se apresentar socialmente e compartilhar seus interesses e preferências.
Resultados
Em conformidade com o que aponta a literatura sobre o tema (Thistle & Thiessen, 2021), os resultados indicam que o uso de cenas visuais facilita a expressão de relatos complexos, otimiza o tempo na relação com o outro, amplia as experiências comunicativas e favorece a autonomia. Observou-se um aumento no interesse e iniciativa de A. para conversar, no repertório de assuntos e na interação com interlocutores, que se tornaram mais receptivos e engajados na comunicação com A. Ressalta-se também o impacto desta estratégia no desenvolvimento de competências comunicativas, como a melhora na capacidade de estruturar narrativas utilizando o sistema de grade, na compreensão e interpretação dos sinais de feedback dos interlocutores, na busca de diferentes maneiras para se expressar e se fazer entender, ampliando a experiência comunicativa. As interações contribuíram para ampliar sua participação em conversas com diferentes parceiros e grupos, atividades consideradas primordiais para a participação social nesta fase da vida (Batorowicz et al., 2014). A ação terapêutica direcionada à formação dos parceiros (Duarte et al., 2021) também foi fundamental para colaborar na manutenção da estratégia de uso das cenas visuais e no processo de aquisição e ampliação da comunicação de A.
Conclusão
A utilização de cenas visuais para narrar fatos por uma pessoa que emprega um sistema de CAA demonstra ser uma estratégia eficaz para promover a comunicação e a inclusão. A aquisição e o aprimoramento das competências comunicativas desempenham um papel essencial nesse processo, contribuindo para uma interação mais fluida e significativa para o sujeito. Investir em formas adaptadas e criativas para adequar os recursos visuais e na capacitação dos interlocutores pode ampliar ainda mais o impacto positivo dessa abordagem. Este estudo de caso reforça a importância de considerar a singularidade de cada sujeito atendido e suas necessidades cotidianas para o desenvolvimento de estratégias que favoreçam a sua expressão.
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