Análise da funcionalidade de pessoas em vulnerabilidade comunicativa nos cuidados intensivos e semi-intensivos a partir da CIF

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Comunicação oral
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Resumo

INTRODUÇÃO: Durante a internação hospitalar, diversas condições clínicas, culturais e ambientais podem comprometer a fala e a linguagem, colocando as pessoas em situação de Vulnerabilidade Comunicativa (VC).(Blackstone, 2015) Nestes contextos, torna-se fundamental compreender os impactos dessa condição não apenas sob o ponto de vista das funções do corpo, mas também no que tange à atividade, à participação e aos fatores ambientais, conforme propõe a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) (OMS, 2020). Essa abordagem amplia o olhar sobre a comunicação, incluindo aspectos contextuais, como a presença de familiares, atitudes da equipe de saúde e a disponibilidade de recursos de comunicação, que podem atuar como facilitadores ou barreiras. A atuação fonoaudiológica no ambiente hospitalar, especialmente quando voltada à linguagem, ainda é muitas vezes subestimada em relação ao seu potencial de contribuição para um cuidado integral. A Política Nacional de Humanização e os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS) destacam a importância de um cuidado centrado na pessoa, que considere tanto aspectos orgânicos quanto psicossociais e comunicativos (Brasil, 2014). Neste sentido, a CIF se apresenta como uma ferramenta potente para avaliar e descrever, de forma sistematizada, a funcionalidade das pessoas hospitalizadas, integrando os domínios biológicos, ambientais e pessoais. A Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), quando articulada a esse modelo biopsicossocial, torna-se uma estratégia fundamental para garantir o direito à comunicação e promover a participação ativa das pessoas em situação de vulnerabilidade comunicativa, mesmo em contextos críticos como os cuidados intensivos. (BASTABLE; DADA, 2020). OBJETIVO: Analisar a funcionalidade comunicativa de pessoas hospitalizadas em situação de vulnerabilidade comunicativa, com foco nos domínios de atividade, participação e fatores ambientais, a partir das categorias da CIF. MÉTODO: Estudo clínico, descritivo e transversal, com 18 participantes em situação de vulnerabilidade comunicativa em um hospital-escola da rede SUS do interior de São Paulo. Composto por resultados parciais da tese de doutorado de uma das autoras sob orientação da outra signatária e aprovado no comitê de ética da universidade que foi realizado.  A amostra foi obtida por conveniência a partir do encaminhamento de profissionais desse serviço. Os procedimentos para coleta de dados foram: (i) levantamento de dados dos prontuários, (ii) aplicação do protocolo Unit Care Comunication Screening Protocol (ICUCS) (Yorkston, 1992), adaptado pelas autoras em pesquisa anterior, (iii) Proposta de Implementação da CAA e acompanhamento dos participantes (de 1 a 5 encontros) com registros dos encontros em prontuário e diário de campo da pesquisadora. A análise dos dados foi realizada com base na CIF. Os qualificadores foram utilizados da seguinte forma: Qualificador 0 – não há problema. Aqueles que apresentaram bom desempenho no ICUCS e nas atividades de CSA propostas pela pesquisadora, conforme diário de campo. Qualificador 1 – problema leve. Aqueles que apresentaram alterações leves no ICUCS e nas atividades de CSA propostas pela pesquisadora, conforme diário de campo. Qualificador 2 – problema moderado. Aqueles que apresentaram dificuldades moderadas no ICUCS e nas atividades de CSA propostas pela pesquisadora, conforme diário de campo. Qualificador 3 – problema grave. Aqueles que apresentaram dificuldades acentuadas no ICUCS e nas atividades de CSA propostas pela pesquisadora, conforme diário de campo. Qualificador 4 – problema completo. Aqueles que apresentaram comprometimento total no ICUCS e nas atividades de CSA propostas pela pesquisadora, conforme diário de campo. Qualificador 8 – significa que não foi possível classificar a categoria de acordo com a gravidade, assim, considera-se como “não especificado”. Qualificador 9 – utilizado nos casos em que o item avaliado não se aplicava. Os fatores ambientais, foram avaliados como facilitadores ou barreiras, + 0 1,2,3 ou 4 indicam facilitadores (ausente, leve, médio, alto ou total) ou – 0,1,2,3 e 4 indicam barreiras (nenhuma, leve, média, alta ou total). RESULTADOS: A análise dos dados, a partir das categorias da CIF, evidenciou comprometimentos significativos nos domínios de atividade e participação entre os participantes hospitalizados em situação de vulnerabilidade comunicativa. A maioria apresentou problemas graves na produção da fala (d330), o que implicou diretamente em dificuldades para iniciar e manter conversas (d3500 e d3501). Em muitos casos, mesmo com compreensão preservada, os pacientes eram incapazes de expressar desejos, necessidades ou desconfortos, o que limitava sua autonomia e a participação nas decisões sobre o cuidado.  Alguns participantes demonstraram dificuldades para se comunicar por meios não verbais (d335), como gestos ou expressões faciais, o que intensificava a limitação comunicativa, seja por questões motoras, de linguagem ou por não terem sido apresentados a tais possibilidades. A utilização da escrita e da leitura também foram comprometidas, especialmente em contextos com ausência de óculos ou com fadiga física e visual, questões motoras ou ambientais. No item uso de dispositivos de comunicação (d3600), observou-se que nenhum dos participantes utilizava recursos próprios ou oferecidos pelo serviço hospitalar para se comunicar. Esse dado ilustra não apenas a limitação individual, mas também que há falta de estratégias institucionais para garantir o direito à comunicação durante a internação. Em relação aos fatores ambientais, foram identificadas tanto barreiras quanto facilitadores. A presença e as atitudes de familiares (e450) foi reconhecida como elemento positivo, pois atuavam como intérpretes, ajudavam na mediação das necessidades e incentivavam o uso de estratégias alternativas. Em contrapartida, algumas atitudes da equipe de cuidado (e410) apareceram como uma barreira, principalmente quando havia falta de tempo, escuta ou tentativa de comunicação adequada com as pessoas em VC. A introdução da CAA por meio de pranchas temáticas e estratégias de baixa tecnologia, mesmo que pontual, foi considerada um facilitador para a maioria dos participantes. Esses achados sugerem que os impedimentos à comunicação vão além da condição clínica do paciente, sendo fortemente influenciados pela organização do ambiente hospitalar, pela acessibilidade de recursos e pelas atitudes das pessoas ao redor. A utilização da CIF possibilitou uma visão ampliada sobre a funcionalidade comunicativa, para além das funções do corpo, considerando os fatores ambientais. CONCLUSÃO: A análise da funcionalidade comunicativa com base na CIF evidenciou que pessoas hospitalizadas em situação de vulnerabilidade comunicativa enfrentam limitações significativas em atividades relacionadas à expressão oral e à participação social. No entanto, além das alterações de linguagem, os fatores ambientais — como a ausência de recursos de comunicação, atitudes da equipe de saúde e barreiras institucionais (falta de fonoaudiólogos contratados ou conhecimento em CAA) — também influenciaram negativamente a experiência comunicativa dos pacientes. Ao mesmo tempo, a introdução da CAA mesmo que de forma pontual, revelou-se como um facilitador para promover a expressão, reduzir o sofrimento e ampliar a participação das pessoas em seu cuidado. Esses achados reforçam que o enfrentamento das barreiras para comunicação no hospital exige ações clínicas intencionais, formação das equipes e institucionalização da CAA como parte do cuidado integral. A avaliação centrada na funcionalidade permite mapear obstáculos e propor soluções viáveis e humanizadas. Assim, a CAA se consolida não apenas como um recurso terapêutico, mas como uma estratégia ética e estruturante para garantir o direito à comunicação em contextos de alta complexidade.

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Instituições
  • 1 Fonoaudióloga e Membro da ISAAC-Brasil
  • 2 Fonoaudióloga, Fonoaudióloga e professora da UNICAMP e Membro da ISAAC-Brasil
Eixo Temático
  • 3. Barreiras e Soluções na CAA
Palavras-chave
Fonoaudiologia
Barreiras de Comunicação no Hospital
Sistemas de Comunicação no Hospital
Sistemas de comunicação Alternativos e Aumentativos
Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde