A implementação da comunicação aumentativa e alternativa e a formação de comunidade de prática

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Resumo

O presente relato de experiência descreve o processo de inserção da comunicação aumentativa e alternativa (CAA) e a necessidade de formação de comunidade de prática (CoP), em jardim de infância (JI) público em Brasília no ano letivo de 2023.

De acordo com o CENSO de 2022 (apud SALLORENZO, 2023), o número de crianças com deficiência incluídas na educação infantil aumentou 63,5%, entre 2016 e 2022. Esse crescimento reflete-se em maior diversidade no perfil dessas crianças, muitas das quais podem apresentar necessidades complexas de comunicação (NCC).

Os profissionais do JI observaram in loco o aumento do número de crianças com deficiência matriculadas e estavam atentos às acomodações e modificações necessárias no ambiente escolar a fim de eliminar as barreiras para a promoção do acesso, a permanência, aprendizagens, bem como a participação.

A educação infantil é a porta de entrada para a educação básica e o local de novas interações fora de casa. Faz-se, portanto, urgente a inserção da CAA nessa etapa da educação, pois muitas crianças com NCC são apenas compreendidas por pessoas do seu círculo familiar.

A CAA é uma tecnologia assistiva que oferece experiências de comunicação amplamente variadas em atividades sociais, culturais e naturais, típicas com a faixa etária das crianças (VON TETZCHNER et al., 2005, apud MASSARO, 2012, p.22). 

De acordo com a Base Nacional Curricular Comum, a Educação Infantil possui seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se.  Devido ao currículo dessa etapa da educação e à idade das crianças, o JI torna-se ambiente rico e natural, com inúmeras oportunidades de interações sociais. Depreende-se, assim, a pergunta: como os educadores do JI podem assegurar tais direitos para as crianças com NCC? 

Sabe-se que o desconhecimento e a falta de formação adequada em CAA podem contribuir para a barreira comunicacional, dificultando as experiências de comunicação e interação social. Schirmer e Nunes (2017, p.118) ressaltam que a formação de professores é essencial para promover a educação de qualidade para as crianças que estão chegando na inclusão. No entanto, são realizadas apenas reciclagens na formação dos educadores, e não uma instrução densa e completa no campo.

Nessa linha, as autoras (2017, p.118), apoiadas por Schon (1995) e Zeichner (1992), citam a importância da prática reflexiva, colaborativa e coletiva por parte dos profissionais da educação, com o objetivo de responder à novas questões que surgem no cotidiano escolar.

De acordo com os autores (TRAYNER-WENGER, 2015), a comunidade de prática (CoP) reúne pessoas engajadas em um mesmo campo de interesse, que aprendem e se desenvolvem conjuntamente por meio de trocas e interações contínuas.
A escola é um organismo vivo, em que os educadores podem se apoiar mutuamente, por meio de compartilhamento dos seus conhecimentos, saberes e experiências, gerando mudanças de concepções e formações no cotidiano escolar, com a possibilidade de promover os direitos das crianças com NCC.

Objetivos:

O objetivo do presente relato de experiência é apresentar a inserção da CAA em um JI público em Brasília com vistas à promoção da acessibilidade comunicacional bem como a formação de uma CoP no ambiente escolar. Dessa forma, observou-se a promoção da acessibilidade comunicacional na escola, a formação de parceiros e modelos de comunicação.

Público-alvo:

A experiência ocorreu num JI público em Brasília, com os gestores do JI, professores, crianças (4 a 6 anos), monitores e educadores sociais voluntários (ESV) e familiares de pessoas com NCC no ano de 2023.

Descrição das ações envolvidas:

Um dos gestores foi essencial para as ações relacionadas à inserção da CAA e formação de uma CoP. O referido gestor, no contexto pedagógico e nas relações no cotidiano da escola, promoveu conversas sobre a CAA com os familiares das crianças com NCC (autismo e paralisia cerebral) e com os professores. Incentivou, ademais, a inserção da CAA no planejamento pedagógico e a preparação de materiais, como pranchas de CAA, apoio visuais para escola e familiares, além do fornecimento de recursos para a sua confecção.

Foram realizadas formações sobre o tema em horário de coordenação coletiva dos professores e orientações para monitores e ESV. Incentivou-se a inserção da CAA no planejamento pedagógico, e a preparação de materiais como pranchas de CAA e apoio visuais para escola e familiares. Foram apresentados aos profissionais modelos de interações comunicativas por meio da CAA no ambiente escolar. Foram realizadas reflexões conjuntas com os professores, durante o preenchimento de formulários de adequação curricular e no Relatório de Desenvolvimento Individual da Criança, sobre CAA e funções comunicativas.

Resultados:

Durante o ano letivo, foram observados aspectos positivos, como o aumento da acessibilidade comunicacional na escola, a utilização de apoio visuais, além da possibilidade de escolha pela criança utilizando os recursos de CAA (em lugar de imposições pelos adultos).

Notou-se uma maior atenção em relação à comunicação multimodal por parte dos professores de crianças com NCC. Igualmente, observaram-se mais interações sociais entre as crianças falantes com as crianças com NCC.

No entanto, a rotatividade de profissionais na escola e a ausência de um professor do atendimento educacional especializado, adicionada a sobrecarga de funções entre os profissionais, não permitiram maior aprofundamento acerca da CAA. 

Conclusão:

A educação infantil é um lugar riquíssimo de experiências e mediações significativas: há brincadeiras, contação de histórias, músicas, movimento e interações significativas. Estão presentes diferentes formas de comunicação, assim como as diferentes linguagens. É uma etapa importante da educação e o currículo permite que os profissionais sejam ousados para mitigar as aprendizagens, promover mediações e experiências significativas.

Por fim, a sobrecarga de funções, a ausência de profissionais, rotatividade entre os profissionais dentro do JI dificultaram uma formação aprofundada sobre CAA.

Notou-se que, em quadro de carências de meios e de formação, ação do gestor permitiu a apresentação da CAA aos profissionais do JI com benefícios para as crianças com NCC. Desta forma, a formação do professor em coordenação coletiva e a construção de uma CoP são relevantes no ambiente escolar para a promoção de ambiente inclusivo e garantia de direitos dos seus estudantes.

A falta de recursos na educação pública não deveria acarretar prejuízos em fase essencial para o desenvolvimento da criança. Cabe reflexão sobre as possibilidades inexploradas de formação densa e completa em CAA para os profissionais. Iniciativas, como a apresentada neste relato, permitem vislumbrar os avanços possíveis com uma formação mais completa, densa e estruturada.

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2018. Disponível em < http://basenacionalcomum.mec.gov.br/abase/#infantil/os-campos-de-experiencias > acesso em: 02 de set. 2023

MASSARO, M. Música por meio de sistemas de comunicação alternativa: inserção do aluno com deficiência na atividade pedagógica. 2012. 113 f. Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Filosofia e Ciências de Marília, 2012. 

SALLORENZO, Letícia. Sindicato do Professores do Distrito Federal. Censo e a educação especial: inclusão ocorre em quantidade. E em qualidade? Brasília, 2023. Disponível em < https://www.sinprodf.org.br/alunos-de-educacao-especial-inclusao-ocorre-em-quantidade-e-em-qualidade/> acesso em:  01 de set. 2023

SCHIRMER, C. R., and NUNES, L. R. O. P. Análise da formação continuada em serviço sobre Comunicação Alternativa para professores de Sala de Recursos Multifuncionais de Referência: abordagem problematizadora. In: NUNES, L. R. O. P., and SCHIRMER, C. R., orgs. Salas abertas: formação de professores e práticas pedagógicas em comunicação alternativa e ampliada nas salas de recurso multifuncionais. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2017, pp. 117-136

WENGER-TRAYNER, E. et al. Introduction to communities of practice. A brief overview of concept and it uses. 2015. Disponível em < https://www.wenger-trayner.com/introduction-to-communities-of-practice/ > acesso em: 15 de set 2023

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Instituições
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  • 3. Barreiras e Soluções na CAA
Palavras-chave
comunicação aumentativa e alternativa
comunidade de prática
formação de professores
educação infantil
acessibilidade comunicacional