RODA DE CONVERSA SOBRE DIREITOS E CIDADANIA: UMA ESTRATÉGIA DE EMPODERAMENTO
A população com necessidade de cuidado em decorrência do uso abusivo de álcool e outras drogas, assistida nos Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD), em sua grande maioria, faz parte de um quadro de vulnerabilidade social decorrente de contextos socioculturais e econômicos desfavorecidos, cujos direitos muitas vezes se encontram violados, enfrentando estigmas e preconceitos. Este trabalho trata-se de um relato de experiência a partir da inserção da Residência Multiprofissional em Rede de Atenção Psicossocial da Unifesp – Campus Baixada Santista em um CAPS AD modalidade II do município de Santos/ SP, o qual pretende contar uma vivência de encontros de cuidado com os usuários sob a perspectiva de exercício de cidadania e garantia de direitos. A partir das práticas cotidianas desenvolvidas no serviço e reflexões geradas, percebeu-se como um desafio a promoção de assistência integral e acessos, visto que se trata de um campo repleto de contradições. Apesar do sucateamento dos investimentos em políticas públicas voltadas neste campo, percebe-se um espaço potente quanto as relações de cuidado entre os atores da rede envolvidos e ao protagonismo dos usuários. A partir de uma das assembleias, as quais são realizadas mensalmente neste equipamento, foi possível identificar o desejo de criação de um espaço que proporcionasse trocas sobre a temática “Direitos e Cidadania”. Enquanto residentes e parceiras de cuidado, compomos junto aos usuários uma roda de conversa, configurando-se como um espaço aberto para todos. Esta roda foi disparadora para encontros que aconteceram com frequência semanal, onde se buscou prezar pela construção coletiva e a valorização do saber de cada um, legitimando assim o cuidar ético-político. Através deste empoderamento, favoreceu-se vivenciar relações horizontalizadas, possibilitando a constituição de novas interações e subjetividades. Os assuntos tratados se davam espontaneamente ou através de algum assunto disparador trazido pelos participantes, viabilizando as discussões pautadas na autogestão. Os encontros tiveram duração de abril a agosto de 2016, com participação média de dez usuários por encontro. Identificamos a potência destes encontros por proporcionar aos participantes se olharem enquanto sujeitos de direitos e promover a busca da cidadania. Ressalta-se inclusive que foi possível a confecção de um documento abaixo-assinado feito coletivamente, direcionado posteriormente ao órgão municipal responsável pela gestão de saúde mental no município, reivindicando algumas faltas identificadas no serviço. Apesar de desafiador, o modo de se fazer os encontros refletiu nas próprias relações entre os usuários em outros contextos, promovendo maior coletividade nas tomadas de decisões e respeito nos momentos de diálogos.