94448

PSIQUIATRIZAÇÃO DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES: UMA GENEALOGIA

Favoritar este trabalho

Introdução: A ideia de psiquiatrização surge para problematizar os modos de governo de crianças e suas famílias por meio de estratégias classificatórias e interventivas acionadas pelo saber-poder psiquiátrico. Dito de outro modo, por psiquiatrização entende-se a extensão do saber-poder psiquiátrico a outros domínios da vida (justiça, educação, trabalho) como regulador de relações e conflitos sociais (FOUCAULT¹, 2006). Consideramos ser de extrema importância contextualizar historicamente discursos que produzem verdades sobre a infância e adolescência, amparando práticas e regulamentando políticas. Assim, o objetivo deste trabalho é explorar diversos movimentos, cenários e formatos em que se engendram a psiquiatrização, do século XVIII e XIX, aos dias atuais. Metodologia: Esta pesquisa foi amparada amparada na perspectiva genealógica de Michel Foucault, que propõe a identificação dos jogos de forças, de poder, de submissão e resistência a partir dos quais certa realidade é conformada. Assim, não se trata de uma busca pela essência ou pela verdade, mas de problematizar e de historicizar o que é tido como essencial e sem data (FOUCAULT², 1999). Isso nos permite repensar o que se apresenta como natural, objetivo, imparcial e imutável. Permite-nos também discutir a ideia de uma instância teórica que, ao chamar-se científica, seria a única a carregar a veracidade sobre episódios supostamente estanques. Partindo do curso “O poder psiquiátrico” de Foucault, buscamos referências sobre a noção da “criança anormal” no Brasil (LOBO³, 2009) e, posteriormente, buscamos em revistas de psiquiatria da infância suas atualizações hoje. Resultados: Encontramos os seguintes momentos do saber-poder psiquiátrico: expansão de seus domínios (do hospício aos mais diversos sistemas disciplinares – escola, oficina, exército, prisão), encontro com a infância e a noção de criança anormal, articulações com a justiça (do doente ao perigoso e da cura à defesa social), incursões no período de higiene mental e eugenia no Brasil (as crianças e adolescentes anormais do século XX), vinculações com as neurociências (a atual psiquiatria do desenvolvimento e suas propostas de prevenção), movimentos de aproximação, afastamento e reaproximação do modelo médico (medicalização, remedicalização e movimentos resistentes). Conclusões: Concluímos que os momentos do saber-poder psiquiátrico se cruzam e se sobrepõe, borrando fronteiras cronológicas que os dividiriam. Deste modo, os atuais diagnósticos psiquiátricos destinados às crianças e adolescentes carregam uma história que os antecede e que os impede, portanto, de ser considerados isentos de contextos e interesses que permeiam sua formulação. Ademais, foi possível vislumbrar a tarefa de ordenar diferenças e controlar variações que coloca como “anormais” justamente as crianças e adolescentes que perturbam a ordem e a disciplina. Nessa esteira, os questionamentos, as oposições e as revoltas também se tornam sinais de transtornos psiquiátricos, silenciando expressões que não cabem e não interessam às normas sociais. Referências 1 FOUCAULT, M. O poder psiquiátrico: curso no Collège de France (1973-1974). São Paulo: Martins Fontes, 2006. 2 FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1999.