O TRABALHO VIVO EM ATO: EXPERIÊNCIA NO PROGRAMA DE BRAÇOS ABERTOS
Introdução: Implantado em Janeiro de 2014, no município de São Paulo, na área conhecida por Cracolândia, o Programa De Braços Abertos (DBA) objetiva “promover a reabilitação psicossocial de pessoas em situação de vulnerabilidade social e uso abusivo de substâncias psicoativas, por meio da promoção de direitos e de ações assistenciais”1, que propõe o cuidado em meio aberto, operando sob a lógica da redução de danos, contrapondo-se a internação enquanto única possibilidade de tratamento, principalmente, dos usuários de crack. Rui, Fiore e Tófoli2 apontam que o DBA oportuniza moradia, refeições, ofertas de trabalho e renda e acesso aos serviços da rede municipal, principalmente de saúde, sem a exigência de interrupção do consumo de crack ou de outras drogas. Opera ainda com a integração de diversas secretarias municipais, principalmente, as de Saúde, Segurança Urbana, Direitos Humanos e Cidadania; Trabalho e Empreendedorismo; Assistência e Desenvolvimento Social. Assim, este trabalho tem por objetivo discutir o trabalho vivo3 em ato produzido no Programa DBA. Metodologia: Esse relato consiste na vivência no Programa De Braços Abertos, em outubro de 2015, durante quinze dias, referente ao Estágio Eletivo da 2ª turma da RIS-ESP/CE. A análise foi realizada a partir da sistematização proposta por Holliday4. Resultados: Por meio da articulação realizada junto a SMS de São Paulo, enquanto profissionais de saúde-residentes, nos foi possível vivenciar essa proposta vanguardista. A experiência no DBA oportunizou vivenciar os mais diferentes processos de trabalho e cuidado realizados não só no território da Cracolândia, mas também nos serviços que a assistem a região do Centro de São Paulo. Franco, Merhy3 apontam que “o trabalho vivo é o trabalho em ato, no seu exato momento de produção, criação, portanto se realiza na atividade do trabalhador”, de forma que os encontros proporcionados no cotidiano dos trabalhadores, principalmente, do campo da saúde, nos agenciaram nesta experiência a perceber tanto as potencialidades (Intersetorialidade, ainda que fragilizada; Foco nas pessoas e em suas vidas; Baixa exigência, para entrada no programa; Cuidado em liberdade) quanto as fragilidades (Precariedade das estruturas físicas, dos serviços e hotéis; Ausência de diálogo com o Estado; Dificuldade do acompanhamento longitudinal; Insuficiência de vagas no programas) desta forma de cuidar, que amplia o cuidado para além do campo institucionalizado. Conclusões: Os agenciamentos desta experiência no DBA referem-se, principalmente, ao olhar sobre o cuidado aos usuários de substâncias psicoativas, dentre as quais: a quebra do imaginário/estereótipo social do “SER ZUMBI”; a reafirmação da liberdade como potente estratégia de cuidado; o uso da arte como promotora de vínculos e transformação social; a consideração do sujeito enquanto protagonista no seu processo de saúde; os modos de sobrevivência/resistência “no fluxo”. Marcas estas que foram sentidas no corpo, a partir da vivência desse processo de trabalho vivo em ato, que interage com as mais diversas tecnologias disponíveis ali, no cotidiano. Referências: 1. São Paulo. Decreto nº 55.067, de 28 de abril de 2014. Regulamenta o Programa De Braços Abertos e altera o Decreto nº 44.484, de 10 de março de 2004, que regulamenta o Programa Operação Trabalho [Internet]. Diário Oficial da cidade de São Paulo. 2004. 2. Rui. T.; Fiore, M.; Tófoli, L.F. “Pesquisa preliminar de avaliação do Programa ‘De Braços Abertos”. São Paulo; Plataforma Brasileira de Política de Drogas (PBPD)/ Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM); 2016. [acesso em 2016 nov 04]. Disponível em: http://pbpd.org.br/wordpress/wp-content/uploads/2016/07/Pesquisa-De-Bra-... 3. Franco TB, Merhy EE. Cartografias do Trabalho e Cuidado em Saúde. Revista Tempus Actas de Saúde Coletiva. 2012; 6(2):151-63. [acesso em 2016 nov 04]. Disponível em: http://tempus.unb.br/index.php/tempus/article/viewFile/1120/1034 4. Holliday OJ. Para sistematizar experiências. 2.ed. Brasília: MMA, 2006.