O PERFIL SOCIODEMOGRÁFICO, DE TRATAMENTO E DE SATISFAÇÃO DE USUÁRIOS DE CENTROS DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL
Nas últimas décadas houve uma mudança de modelo assistencial de saúde mental e pessoas com transtornos mentais (TM) graves passaram a ser atendidas em serviços territoriais, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Neste modelo a pessoa é compreendida como um sujeito de direitos, inserido em um território. Conhecer quem são os usuários dos CAPS e as características do atendimento recebido é importante para a produção de dados para a gestão dos CAPS. Buscou-se caracterizar o perfil socioeconômico, de atendimento e de satisfação dos usuários de CAPS II e III adulto da cidade de São Paulo. Trata-se de um estudo quantitativo, aprovado pelos Comitês de Ética em pesquisa da EEUSP (1.235.315) e da SMS SP (nº 1.244.469). A coleta de dados foi realizada por meio de um questionário com 222 usuários de 16 CAPS, no período de março a outubro de 2016. Foi realizada análise descritiva por meio do programa SPSS 22.0. Predominaram homens (54%), negros (50%), idade média de 45 anos, de baixa escolaridade (32%), que não trabalhavam e nem estudavam no momento da coleta (68 %), 33% tinham renda familiar entre um e dois salários mínimos e 86 % residiam com outras pessoas. Sobre o atendimento, 68% são usuários do CAPS há mais de dois anos, atendidos principalmente pelo psiquiatra (80%) e psicólogo (77%). O diagnóstico era conhecido por 68%, o transtorno psicótico foi o mais frequente (38%). Sobre a satisfação com o atendimento, 43% retornariam ao serviço para um novo tratamento e 56% avaliaram positivamente a própria saúde mental. Chamou a atenção que 86% dos respondentes não foram informados onde fazer críticas sobre o atendimento. Os usuários do CAPS vivenciam uma vulnerabilidade social evidenciada pela baixa escolaridade, pelo não acesso ao trabalho e educação e por sua baixa renda familiar. Considerando que é por meio de políticas públicas que encontramos formas de enfrentamento para reduzir as desigualdades sociais¹, os avanços das Políticas de saúde mental e de assistência social ainda não foram suficientes para promover melhores condições socioeconômicas para as pessoas com TM. Somado a essa situação de vulnerabilidade, o acesso ao serviço de ouvidor, um direito de todos os cidadãos, não é potencializado pelo CAPS. A função da ouvidoria é transformar em oportunidades de melhoria as reclamações, críticas e sugestões, defendendo assim os interesses do cidadão². De certo modo, é negado ao usuário do CAPS o direito de colocar-se frente às suas necessidades. O perfil socioeconômico dos usuários reflete a exclusão social sofrida pela população estudada. O perfil de atendimento evidenciou o desconhecimento do seu diagnóstico por boa parte dos usuários e um predomínio de atendimentos realizados por profissionais “psi”. Mais da metade da população atendida no CAPS retornariam ao serviço para um novo tratamento, inferindo uma satisfação positiva quanto ao atendimento. Recomenda-se que as políticas públicas sejam aprimoradas no que diz respeito à promoção de justiça social e de inclusão social. Referências 1. Barata, RB. Como e por que as desigualdades sociais fazem mal à saúde. 1 ed. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2009. 2. MELO, MP. Ouvidoria: direito fundamental de acesso à justiça e defesa da cidadania. [Apresentação no Congresso Internacional Interdisciplinar em Sociais e Humanidades; Setembro de 2012; Rio de Janeiro].