O CHATO “OUVIDOR DE VOZES” E A INSERÇÃO AO TRABALHO FORMAL: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA
"INTRODUÇÃO: A inclusão social pela via do trabalho apresenta-se como uma importante estratégia que favorece a solidificação do novo modelo de cuidado proposto pela Reforma Psiquiátrica Brasileira e, principalmente, favorece a reinserção social das pessoas em sofrimento psíquico. Entre os modelos que tem esta finalidade temos o Projeto de Gerência de Trabalho que objetiva oferecer as condições necessárias para que a pessoa com transtorno mental tenha acesso e consiga permanecer no trabalho, entendendo que o trabalho formal é um meio para a reconstrução da cidadania1. Nesta mesma direção temos a Metodologia do Trabalho Apoiado que, por meio de uma equipe especializada, favorece a capacitação, inserção e permanência da pessoa com Deficiência Intelectual ao mercado. Os CAPS’s são dispositivos que também tem como um dos objetivos promover a (re)inserção social das pessoas que tem prejuízos decorrentes do sofrimento causado pelo transtorno mental por meio do trabalho2. OBJETIVO: Descrever as complexas experiências do acompanhamento de um usuário de um CAPS II em seu processo de inserção ao mercado formal de trabalho. METODOLOGIA: O presente trabalho trata do relato de experiências do processo de inserção de um usuário do CAPS ao mercado de trabalho. As intervenções e ações de cuidado aconteceram no período de maio de 2015 a março de 2016, porém, este usuário já era acompanhado pelo CAPS II há dois anos. No intuito de preservar a identidade do usuário, o chamaremos de Beto. Conhecemos Beto em um Centro de Atenção Psicossocial II, localizado na Zona Sul de São Paulo. Uma das autoras deste estudo assume a referência do caso em maio de 2015. Naquela época ele tinha 42 anos e um histórico permeado por várias internações psiquiátricas consequentes de inúmeras tentativas de suicídio. As relações estabelecidas com o serviço eram muito difíceis, pois o seu comportamento era hostil e agressivo diante de situações em que ele era frustrado. Percebemos que, diante de sua difícil história de vida, Beto encontrava na “doença” um jeito de estar e permanecer no mundo. Este lugar de “doente” fazia sentido para ele, que se empenhava em sustentar-se ali por meio de várias tentativas de suicídio que, apesar de considerarmos o sofrimento vivido por ele, entendíamos que eram tentativas “frouxas”. Por várias vezes, Beto se dirigia a esquina do Pronto Socorro mais próximo e tentava se jogar entre os carros que passavam pela rua. Dizia que “as vozes me mandaram fazer”. Diante disto pensamos ser importante investir no resgate de cidadania e principalmente, em alcançar um novo lugar social para Beto. RESULTADOS: A partir das novas relações proporcionadas no ambiente de trabalho, Beto sentiu-se valorizado como sujeito e pode desfrutar dos direitos como qualquer cidadão. As relações com os profissionais e outros usuários do CAPS também tiveram uma modificação importante. Beto estava mais tolerante as frustrações e respeitava o outro como sujeito2,3. Percebemos o quanto o trabalho foi um agente transformador daquele sujeito e o quanto foi capaz de produzir subjetividade neste processo. Ao ser questionado sobre as vozes Beto respondeu: “Ainda ouço e elas me mandam ir trabalhar!” CONSIDERAÇÕES FINAIS: Apesar das complexas e difíceis demandas que acompanham os casos que chegam ao CAPS, constatamos que o investimento e aposta neste sujeito “chato, complicado e agressivo”, assim como a consequente inserção ao mercado de trabalho trouxeram modificações expressivas em sua maneira de relacionar. Estas modificações sugerem que a inserção ao mercado de trabalho é uma potente possibilidade para o resgate dos Projetos de Vida destes sujeitos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 1. SALIS ACA. Projeto Gerência de Trabalho e Inclusão Social de Usuários de Saúde Mental PSICOLOGIA: CIÊNCIA E PROFISSÃO, 2013; 33 (3), 758-771. 2. BÜRKE KP, BIANCHESSI DLC. O trabalho como possibilidade de (re)inserção social do usuário de um Centro de Atenção Psicossocial na perspectiva da equipe e do usuário. Estud. pesqui. psicol. 2013; 13(3): 957-976. 3. AMARANTE, P. Psiquiatria Social e Reforma Psiquiátrica. Rio de Janeiro: FIOCRUZ, 2008."