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ETNOGRAFIA DO USO DO CRACK E DO PROGRAMA DE BRAÇOS ABERTOS DA PREFEITURA PAULISTANA

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Introdução Diferente da cocaína em pó que pode ser inalada ou injetada, o crack em pedra é fumado, o que o assemelha quanto à rapidez de início dos efeitos e sua magnitude ao uso da cocaína por via intravenosa. Outras implicações do uso do crack dizem respeito à dinâmica social de uso. Trata-se de uma droga que, sob certas circunstâncias, revela-se empatogênica, o que faz surgir, aliado a outros fatores como sua disponibilidade e vulnerabilidade da população em situação de rua, as cenas de uso conhecidas como cracolândias, um importante problema de saúde pública. Objetivo: Descrever o padrão de uso do crack e os fatores pessoais associados através de dados obtidos por pesquisa etnográfica. Metodologia: Pretendeu-se observar cuidadosamente, através de uma pesquisa etnográfica, indivíduos em seu dia a dia, registrando quando fazem, o que fazem, onde, com quem, e porque, evitando as cegueiras das noções pré-concebidas. Para tanto, em nossa pesquisa sobre usuários de crack adentramos na comunidade sob estudo, muito similarmente ao realizado por Grund (1993), como o antropólogo cultural clássico que estuda uma sociedade tradicional. Nossa análise resultante se fundamentou-se no estudo da experiência e percepção dos sujeitos sobre seu contexto, buscando apreender, por meio da imersão no grupo, modos de vida e padrões de significado. Descrever, como recomenda Patton (1980), estes ambientes e as atividades que neles se desenrolam, assim como as pessoas e os significados por elas atribuídos a tais atividades. Jorgensen (1989) atribui à etnografia a capacidade de compreender processos, inter-relações pessoais e possíveis padrões desenvolvidos nos contextos sociais. Finalmente, Grinnell (1997) aponta a possibilidade de identificar problemas e gerar hipóteses para futuros estudos. Resultados Com apoio estatal criou-se um negócio lucrativo e sem riscos, no qual o poder público envia atualmente milhares de usuários para serem ‘tratados’ e engordarem os bolsos dos donos de clínicas, um verdadeiro complexo industrial do abuso de drogas. Isto não seria possível sem certas crenças criadas desde o início da chamada “Guerra às Drogas”. A primeira delas é a de que, com menos usuários nas ruas teremos uma menor quantidade de uso abusivo. No caso do crack, isto se dá de modo mais dramático por se desconsiderar a possibilidade de qualquer uso não abusivo da substância. Portanto, fica mais forte a ideia de que se punindo os usuários e reduzindo-se pela repressão a disponibilidade da droga combate-se uma suposta epidemia. Não se acredita, ou melhor, se desconhecem os controles sociais informais que poderiam ser fomentados e se considera que todos que usam crack são necessariamente abusadores. Porém, iniciativas como o De Braços Abertos nos mostram como controles sociais formais razoáveis podem interagir perfeitamente com rituais e sanções responsáveis por estabelecer controles sociais informais. Conclusões: Além de apontar a existência de controles informais sobre o uso do crack a pesquisa procurou observar o que ocorria de fato nas cenas de uso, sem preocupar-se em fazer um discurso antidrogas, ou em desencorajar seu uso. Se partíssemos do pressuposto do uso de substâncias tornadas ilícitas ser um mal absoluto a ser combatido de todas as maneiras, teríamos feito um estudo mais dedutivo que indutivo. Referências 1. Grund JP. Drug use as a social Ritual: Functionality, symbolism and determinants of self-regulation. Rotterdam : Institute Voor Verslavingsondersoek, Erasmus Universiteit; 1993. 2. Pattton MQ. Qualitative evaluation methods. Londres: Sage Publications; 1980. 3. Jorgensen DL. Participant observation: a methodology for human studies. Newbury park, CA: Sage; 1989. 4. Grinnell RM. Social work research & evaluation: quantitative and qualitative approuches. Ed. Itasca, Illinois: E. E. Peacock Publishers; 1997.