94449

CONSTRUÇÃO DO CASO CLÍNICO E INTERSETORIALIDADE

Favoritar este trabalho

"INTRODUÇÃO: Os processos de trabalho presentes nos CAPSij convocam a equipe multiprofissional à uma práxis clínica – ampliada e compartilhada¹. A reabilitação psicossocial de crianças e adolescentes traz como indispensável a construção de uma rede intersetorial de intervenção ² é uma diretriz para práticas inclusivas, embora ainda seja um desafio para as RAPS. A experiência prática tem mostrado as dificuldades de articulação entre os setores. Destacam-se os entraves existentes na relação entre o CAPSij e a Escola, para a construção de PTS³ compartilhados. Este estudo de caso pretende discutir as possibilidades e limitações das ações intersetoriais, a partir da construção de um caso clínico em psicanálise. METODOLOGIA: A elaboração do caso clínico se deu a partir do manejo da relação transferencial e fazendo uso de interpretações4 para depreender a singularidade da história do sujeito; as informações obtidas, através dos registros em prontuário serviram como balizas temporais para o estabelecimento de marcos cronológicos do acompanhamento do caso. Para sua apresentação, optou-se pela elaboração de um conto, gênero literário que serve como recurso simbólico para constituir um saber do pesquisador-analista sobre o sujeito. RESULTADOS: O conto intitulado “Procura-se escola” inicia-se com a chegada de uma adolescente ao CAPSij sendo trazida pelo SAMU após a ocorrência de uma crise de heteroagressividade na escola Embora tenha deferido socos, ponta-pés e xingamentos, a protagonista é marcada por seus traços infantis. Sua mãe, traz consigo histórias de violência, abandono e morte, tendo seus projetos futuros sido extinguidos. O pai, abortou-a desde pequena, embora busque se reconciliar com a paternidade perdida, com presentes e promessas, intoxicado pelo uso nocivo de álcool. Em meio às histórias parentais que a atravessam, nossa protagonista segue a saga em busca de criar um corpo para si, mas que transborda e não cabe nos estabelecimentos de ensino. E no encontro com o outro, tenta atrair os olhares e ouvidos para, embora alcance somente afetos coléricos. CONCLUSÕES: O caso clínico evidencia diferentes tipos de escuta do sofrimento psíquico e, consequentemente, distintas propostas de intervenção. A compreensão do sintomas manifestos e sua relação com a historia singular do sujeito exige um tempo que está em dissonância com a temporalidade dos estabelecimentos de ensino. O agir pedagógico e o ato clínico circunscrevem posições distintas do sujeito no laço social. Portanto, a implementação de arranjos possíveis, que viabilizem a cogestão do PTS da adolescente são necessários para garantir direitos e promover cidadania. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. CAMPOS, G. W. S.; AMARAL, M. A. A clínica ampliada e compartilhada, a gestão democrática e redes de atenção como referenciais teórico- operacionais para a reforma do hospital. Ciência e Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 12, n. 4, 2007. 2. COUTO, M.C.V.; DELGADO, P.G.G. Intersetorialidade: uma exigência da clínica com crianças na Atenção Psicossocial. In: Lauridsen-Ribeiro, EL & Tanaka, OY. Atenção em Saúde Mental para crianças e adolescentes no SUS. SP: Hucitec, 2010. 3. Brasil. Ministério da Saúde (MS). Política Nacional de Humanização. Clínica Ampliada, equipe de referência e projeto terapêutico singular. 2ª ed. Brasília: MS; 2008. 4. VAL, A.C.; LIMA, M.A.C. A construção do caso clínico como forma de pesquisa em psicanálise. Ágora (Rio J.), Rio de Janeiro, v.17, n.1, p. 99-115, 2014."