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CARTOGRAFIA DE UM CAPS AD: O AFETO COMO PARTE INTEGRANTE DO MODUS OPERANDI.

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"O fenômeno das drogas hegemonicamente tem sua complexidade reduzida a ações e discursos preconceituosos, proibicionistas e normativos¹. Trabalhadores dos Centros de Atenção Psicossocial álcool e outras drogas (CAPSad) estão atravessados por tais concepções. Embora a política de saúde² destaque a Redução de Danos (RD) como orientadora das práticas, não garante a sua incorporação no modus operandi dos serviços. A RD rompe com a perspectiva da solução universal e ressalta o projeto terapêutico singular dialogado com o usuário, marcando o afeto no encontro entre trabalhadores e usuários e suas implicações em práticas e discursos. O objetivo do presente trabalho é cartografar o modus operandi de um CAPSad de Campinas/SP, mapeando implicações e motivações do processo de trabalho singularmente constituído nas práticas multidisciplinares para além das portarias e regulamentações. Utilizou-se da observação, vivência e reflexão crítica das práticas, registradas em diário de campo, tendo a cartografia³ como metodologia de análise. Observou-se que os recursos de cuidado neste CAPSad – acolhimento, ambiência, cuidado intensivo, oficinas abertas, leito de observação, atendimento individual e grupal, unidade de acolhimento, articulação de rede, leito noite em serviço parceiro, internação hospitalar – são preenchidos com afetos que cada usuário desperta na equipe. Por meio da cartografia, pode-se traçar linhas de força que atravessam a instituição, trabalhadores e usuários. Nas linhas duras, controle e normatização, regras universais, abstinência como meta de tratamento. Nas linhas flexíveis, de natureza micropolítica, vemos a RD, a singularidade da construção do projeto terapêutico junto ao usuário. Já as linhas de fuga, os processos de rompimento e desvio abrem espaços para formas inéditas de existência e resistência às amarras subjetivas, quando usuários e equipe potencializam outras vivências ultrapassando delimitações da droga e do tratamento. Neste mapeamento, foram encontrados discursos de profissionais que tipificam os usuários: “passado”, “manipulador”, “maluco”, “frito”, “preservado”, “conservado” etc. Revela, assim, a “clínica da frustração”, em que as expectativas da equipe na abstinência acarretam atitudes tutelares e ausentes de potência e resiliência. A transferência de afetos entre usuários e profissionais por vezes é menosprezada no processo de trabalho carregado de demandas crescentes. Contudo, foram presenciadas construções em diferentes espaços que visam a escolha do sujeito frente ao uso da droga, reconhecendo a importância da relação sujeito-substância e a impossibilidade de competir com esta. Conclui-se que este trabalho proporcionou aos envolvidos reflexão e análise crítica da prática desenvolvida pela equipe, identificando a necessidade de um novo modus operandi, orientado pela ética e técnica da RD. São fundamentais espaços de verbalização, expressão e cuidado da própria equipe sem julgamentos morais dos afetos cotidianos, num processo de educação permanente em saúde, que problematize os atuais modos de pensar e agir, promovendo motivação para transformar o serviço e criar novas práticas. ¹Fiore M, O lugar do Estado na questão das drogas: o paradigma proibicionistas e as alternativas. Nov Estud CEBRAP 2012 Mar; 92: 9-21 ²Ministério da Saúde. A política do MS para a atenção integral a usuários de álcool e outras drogas; 2. ed. Brasília: MS; 2004. ³Deleuze G, Guattari F, Mil platôs – Vol 1. Rio de Janeiro: Editora 34; 1995."