PRÁTICAS ALIMENTARES E TELETRABALHO

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Relato de pesquisa - Oral
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Resumo

Resumo Introdução O Programa de Gestão e Desempenho (PGD) do Governo Federal foi instituído pelo decreto nº 11.072, de 17 de maio de 2022 (Brasil, 2022). Neste âmbito se estabelece uma nova lógica de serviço, incluido a possibilidade de teletrabalho para os servidores públicos, impulsionado pelas experiências positivas durante a pandemia de COVID-19. O PGD se apoia em justificativas como melhoria da gestão das equipes, maior engajamento e transparência, redução de despesas e aumento da qualidade de vida para os participantes (Brasil, 2023a). A principal vantagem do teletrabalho para os empregadores relaciona-se a redução dos custos, por exemplo com alimentação e transporte, enquanto para os trabalhadores são elencadas: maior privacidade, interação familiar e qualidade de vida geral (Filardi, 2020). No entanto, é importante ressaltar que o teletrabalho ganha destaque no Brasil em meio a um movimento neoliberal e aspectos do processo de precarização relacionados a esta modalidade de trabalho vem sendo apontados como: ampliação da exploração laboral, com intensificação das jornadas, apropriação do espaço privado da residência dos trabalhadores, isolamento e prejuizos à organização coletiva dos trabalhadores (Carvalho e Oliveira, 2024; Durães, Bridi e Dutra, 2021; Sousa, 2022). Além disso, é importante considerar que este modelo ainda pode resultar em alto nível de isolamento social, más condições ergonômicas, entre outros fatores que podem gerar riscos para a saúde física e mental dos envolvidos. Nota-se, por exemplo, que a transição do trabalho presencial para o teletrabalho pode ser marcada por alguns efeitos prejudiciais ao indivíduo como excesso de trabalho, falta de apoio da empresa, equipamento de trabalho inadequado (Tavares, 2017), falta de motivação e comprometimento com a organização (Filandri, 2020), e alterações nos padrões de atividade física, consumo de álcool e sono (Kubo, 2021). Também se observa mudanças nos hábitos alimentares, como substituição de refeições por lanches, refeições solitárias e uma diminuição do número total de refeições diárias, especialmente as realizadas fora de casa (Kubo, 2021). Sobre este último aspecto, a alimentação, considerando a generalização do teletrabalho como um fenômeno recente, ainda não se conhece de modo amplo a extensão das mudanças geradas por este modelo laboral nas práticas alimentares de teletrabalhadores. É importante considerar que essa integração entre trabalho e lar pode afetar a organização das tarefas domésticas e de cuidados da família, impactando indiretamente a segurança alimentar e nutricional. Por isso, segundo Araújo & Lua (2021), essas mudanças devem mobilizar ações e intervenções que possam garantir a segurança alimentar e nutricional. Diante deste cenário, busca-se nesse estudo elementos para entender a relação entre práticas alimentares e trabalho de funcionários públicos de universidades federais que passaram a adotar o teletrabalho a partir do PGD. Métodos A seleção dos participantes da pesquisa se deu com base em levantamento realizado junto às instituições públicas federais brasileiras que adotaram o PGD. Dentre as instituições e órgãos que aderiram ao programa, optou-se por fazer um recorte entre as instituições de ensino, mais especificamente universidades. Foram adotados como critérios de inclusão: (i) pertencer ao quadro de servidores das universidades federais; (ii) estar participando do programa de gestão e desempenho há pelo menos 3 meses. Foi solicitada a cada uma, que atendeu aos critérios de inclusão, a lista de servidores atuando em trabalho remoto, com base na Lei de Acesso à Informação (Brasil, 2011), no portal do Governo Federal (https://falabr.cgu.gov.br/web/home). Foi realizada consulta à página institucional de cada universidade para obtenção dos e-mails institucionais dos servidores atuando no PGD. A seguir, os servidores em teletrabalho foram contatados pela equipe de pesquisa via e-mail institucional, a fim de fazer o convite para participar da pesquisa. Também foram contactadas algumas instituições e feito o pedido de divulgação da pesquisa entre os servidores participantes do PGD. Foram encaminhados os questionários de coletas de dados aos servidores que assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido, aceitando participar da pesquisa. O questionário foi disponibilizado por meio da plataforma Google Forms e foi dividido em seções: sociodemográfico (idade, gênero etc); alimentar, baseado no questionário da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico/Vigitel (Brasil, 2022b); laboral (perfil do trabalho desenvolvido pelos participantes). A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa com o CAAE n. 71751023.8.0000.5285. A partir dos dados coletados acerca da frequência de trabalho remoto, os participantes foram divididos em dois grupos: (i) aqueles que trabalhavam até dois dias por semana em home office/teletrabalho e (ii) aqueles que trabalhavam três dias ou mais. Com isso, foi realizado o cálculo de razão de chances para buscar associações significativas entre o segundo grupo e mudanças na rotina alimentar. Para os cálculos foi utilizado o software Microsoft Excel (Versão 2406). Resultados/discussão Ao todo a amostra foi composta por 397 servidores públicos de universidades federais, com idade média de 41 anos, 69% do gênero feminino, 69% de etnia branca, 44% com mestrado completo, 67% casados ou em união estável, 71% convivendo com duas a três pessoas em casa, 54% sem filhos, 58% recebendo de dois a cinco salários-mínimos e 36% habitando a região Sul do país. O primeiro grupo consistiu em 113 servidores em regime de teletrabalho em até dois dias semanais, enquanto o segundo grupo foi composto por 284 que trabalhavam de três a cinco dias. A maioria dos participantes (69%) considera que come melhor em casa do que fora de casa. Trabalhar remotamente três dias ou mais por semana apareceu como um fator que aumentou a probabilidade do trabalhador considerar que se alimenta melhor em casa do que fora de casa (OR 1.4572, 95% intervalo de confiança 0.9201-2.3080, p=0.1), embora o valor de p não indique significância estatística. Em 64% dos casos o trabalhador é o próprio responsável pelo preparo das refeições. Vale ressaltar que na divisão do trabalho doméstico, costuma recair sobre as mulheres a responsabilidade pela alimentação da família e a maior parte dos respondentes indicaram ser do sexo feminino. De modo geral, os trabalhadores não têm o costume de não realizar o almoço ou substitui-lo por um lanche durante a jornada de trabalho, apenas 3% relataram “pular” o almoço e 74% afirmaram nunca substituir o almoço por lanches. Cerca de 43% dos participantes relataram almoçar sozinhos três ou mais vezes por semana e enquanto 69% relatam nunca almoçar enquanto trabalha. O costume de almoçar sozinho (OR 1.1365, 95% CI 0.7030-1.8373, p=0.6), almoçar enquanto trabalha (OR 1.413, 95% CI 0.4549-4.3883, p=0.5) e trabalhar acima da carga horária estipulada (OR 1.3378, 95% CI 0.8099-2.2098, p=0.2) mostrou-se mais elevado entre aqueles que trabalham remotamente três ou mais dias, apesar do valor de p não indicar significância estatística. Por outro lado, trabalhar remotamente três dias ou mais por semana diminuiu a probabilidade de considerar que se alimenta melhor fora de casa (OR 0.4949, 95% CI 0.2437-1.0052, p=0.05), de não realizar o café da manhã (OR 0.7906, 95% CI 0.4292-1.4564, p=0.4), de não realizar o jantar (OR 0.8490, 95% CI 0.5252-1.3724, p=0.5) e consumir almoço produzido fora de casa (OR 0.3808, 95% CI 0.2182-0.6645, p<0.001). No entanto, quase metade dos participantes (47%) relatou almoçar comida preparada fora de casa (marmita, delivery, restaurante) pelo menos 2 vezes por semana. Considerações finais A maior parte dos participantes da pesquisa eram mulheres, brancas, com escolaridade alta, casadas e sem filhos. De modo geral, os servidores consideram que se alimentam melhor em casa do que fora de casa, sendo a maioria responsáveis pelo preparo das próprias refeições. Apesar disso, a aquisição de almoço preparado fora de casa mais de duas vezes por semana foi identificado em quase metade dos participantes. Considera-se que há entre os participantes uma tendência a reduzir o consumo de alimentos fora do lar, o que poderia impactar positivamente os servidores, considerando que refeições caseiras podem ser nutricionalmente mais saudáveis. Por outro lado, é considerável o percentual de trabalhadores que relatam almoçarem sem companhia, o que poderia ter impactos negativos na convivência e na saúde mental. Referências Araújo, T. M. D., & Lua, I. (2021). O trabalho mudou-se para casa: trabalho remoto no contexto da pandemia de COVID-19. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, 46, e27. Bloom, Nicholas; Liang, James; Roberts, John; Ying, Zhichun J. Does working from home work? Evidence from a chinese experiment. National Bureau of Economic Research, 2013. Disponível em: https://www.nber.org/papers/w18871. Acesso em: 1 jul. 2024. Brasil. Decreto Nº 11.072, de 17 de maio de 2022. 2022a. Dispõe sobre o Programa de Gestão e Desempenho – PGD da administração pública federal direta, autárquica e funcional. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/decreto/d11072…. Acesso em: 1 jul. 2024. Brasil. Guia prático para implementação e execução do PGD na Administração Pública Federal. 2023a. Disponível em: https://www.gov.br/servidor/pt-br/assuntos/programa-de-gestao/nova-in-2…. Acesso em: 1 jul. 2024. Brasil. Presidência da República. Lei n. 12.527, de 18 de novembro de 2011. Regula o acesso à informação inciso II do § 3° do art. 37 e no § 2° do art. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/lei/l12527.htm. Acesso em: 1 jul. 2024. Brasil. Programa de Gestão e Desempenho (PGD). 2023b. Disponível em: https://www.gov.br/servidor/pt-br/assuntos/programa-de-gestao/quem-ja-i…. Acesso em: 1 jul. 2024. Brasil. Vigitel Brasil 2006-2021: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico: estimativas sobre frequência e distribuição sociodemográfica do estado nutricional e consumo alimentar nas capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal entre 2006 e 2021 : estado nutricional e consumo alimentar. Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Análise em Saúde e Vigilância de Doenças Não Transmissíveis. – Brasília: Ministério da Saúde, 2022b. Carvalho, Gabriella Melo de; Oliveira, Paulo Eduardo Vieira de. A inobservância do direito à desconexão no teletrabalho como forma de precarização das relações trabalhistas. Revista de Direito: Trabalho, Sociedade e Cidadania. Brasília, v.16, n.16, jan./jul, 2024. Durães, B., Bridi, M. A. da C., & Dutra, R. Q. O teletrabalho na pandemia da covid-19: uma nova armadilha do capital?. Sociedade e Estado, 36(3), 945–966, 2021. Filardi, F.; Castro, R. M. P. D.; Zanini, M. T. F.. Vantagens e desvantagens do teletrabalho na administração pública: análise das experiências do Serpro e da Receita Federal. Cadernos EBAPE.BR, v. 18, n. 1, p. 28–46, jan. 2020. Kaduk, A.; Genadek, K.; Kelly, E.L.; Moen, P. Involuntary vs. voluntary flexible work: Insights for scholars and stakeholders. Community Work Fam. 2019, 22, 412–442. Kubo, Y.; et al. A cross-sectional study of the association between frequency of telecommuting and unhealthy dietary habits among Japanese workers during the COVID-19 pandemic. Journal of Occupational Health, v. 63, n. 1, p. 1–9, 2021. DOI: 10.1002/1348-9585.12281. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/1348-9585.12281. Acesso em 1 jul. 2024. Sousa, Maria Júlia Costa Leite e. Expansão do teletrabalho no contexto pandêmico: uma nova face da precarização? Laborare. Ano V, Número 8, Jan-Jun/2022, pp. 240-262. Tavares, A. I. Telework and health effects review. International Journal of Healthcare, v. 3, n. 2, p. 30-36, 2017.

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Instituições
  • 1 PPGSAN/Escola de Nutrição/Unirio
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Eixo Temático
  • Comida e cultura: Os múltiplos olhares sobre a alimentação
Palavras-chave
trabalhador
setor público
práticas alimentares
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