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Introdução
Nos últimos anos, a expansão das plataformas de entrega de alimentos tem reconfigurado o panorama laboral e as dinâmicas socioeconômicas em diversas partes do mundo. Esse fenômeno, intensificado ainda mais pela pandemia global de COVID-19, não apenas impactou a economia e a rotina diária, mas também suscitou inúmeras preocupações relacionadas às condições de trabalho, bem-estar e segurança alimentar dos entregadores de aplicativo (Aquino, Pilate e Felix, 2020). A compreensão aprofundada dessas complexas interações se revela fundamental para informar políticas e intervenções que visem mitigar as disparidades e promover ambientes alimentares saudáveis e acessíveis.
Nesse contexto, a distribuição desigual de mercados, supermercados e feiras, conforme as diferentes estruturas socioeconômicas dos bairros, tem sido notada, com regiões mais ricas frequentemente desfrutando de maior disponibilidade e variedade de produtos alimentícios, enquanto áreas menos favorecidas sofrem com opções mais limitadas. Esses ambientes alimentares são configurados por uma teia complexa de fatores, que incluem elementos físicos, políticos, econômicos e socioculturais, todos convergindo para moldar os padrões de consumo e escolhas alimentares dos indivíduos (Swinburn, 2011).
Paralelamente, a condição laboral dos entregadores de aplicativo, predominantemente caracterizada por baixos rendimentos e instabilidade ocupacional (Manzano e Krein, 2020; Abílio 2019; Aquino, Pilate e Felix, 2020), acrescenta um nível adicional de complexidade às questões relacionadas à alimentação. A disseminação da COVID-19 e as medidas restritivas decorrentes dela exacerbaram ainda mais as dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores informais, evidenciando como a insegurança alimentar e nutricional pode ser agravada em contextos de crise (Laborde, 2020).
Objetivo
Analisar a relação entre como os processos de trabalho afetam a segurança alimentar e as práticas nutricionais dos entregadores de comida da cidade de Curitiba – PR.
Métodos
Este estudo, baseado em uma pesquisa de doutorado, utilizou uma abordagem qualiquantitativa. Um questionário semiestruturado com 50 questões abordou aspectos socioeconômicos, características do trabalho, padrões de alimentação, saúde, sono, satisfação no trabalho, acesso a serviços de saúde e impactos da Covid-19. A segurança alimentar foi avaliada pela Escala Brasileira de Segurança Alimentar e Nutricional (EBIA), com 14 perguntas fechadas sobre acesso a alimentos (Segall-Corrêa et al, 2014).
Os dados foram coletados em 10 pontos de entrega, localizados em áreas centrais ou adjacentes, devido à concentração de estabelecimentos comerciais de refeições. Além dos questionários, entrevistas em profundidade foram realizadas, gravadas e transcritas para análise de conteúdo.
Os resultados incluem a caracterização do perfil dos entregadores, utilizando estatística descritiva com o Microsoft Excel. O conteúdo das entrevistas foi analisado com o software NVivo (QSR International Pty Ltd. Version 10, 2012), resultando em quatro categorias temáticas.
As categorias consideradas são: Segurança e Insegurança Alimentar e Nutricional; Processos de trabalho e a fome; Impactos da pandemia de COVID-19 na alimentação; e Sistemas alimentares e a insegurança alimentar e nutricional.
Resultados/Discussão
Perfil dos entregadores
Foram entrevistados 94 entregadores de comida, sendo 26 ciclistas e 68 motociclistas. A maioria era composta por homens (92) e duas mulheres. A idade média foi de 35 anos, com 54% tendo ensino médio. Em relação à etnia, 53,2% se declararam brancos, 40,5% negros e 6,3% de origem indígena ou asiática. A renda média foi de R$ 2584,00, mas os motoentregadores ganharam em média R$ 3654,18, não incluindo gastos com manutenção e combustível (R$ 1.500 a R$ 2.000). Em média, este grupo trabalha 10,8h/dia e 6 dias por semana, sendo que 70% dependem exclusivamente desse trabalho para renda
Práticas alimentares:
1. Segurança e Insegurança Alimentar e Nutricional:
Neste estudo, foram identificadas diferenças entre aqueles em situação de segurança alimentar (SAN) e insegurança alimentar (IAN). Entre os entregadores com IAN, 60% estavam nessa condição, com diferentes graus. Dos 55 em IAN, 20 relataram não ter tempo para comer durante o trabalho. Embora o grupo com IAN frequente mais restaurantes e se alimente com mais frequência, suas escolhas alimentares no trabalho incluem lanches ricos em gordura, sal, açúcar e produtos ultraprocessados. Como pode ser identificado da fala do motoentregador de aplicativo e do cicloentregador:
[insatisfeito] Por conta de tudo isso, né? É, não ter o lugar adequado, não ter a hora de almoço,nem a própria empresa paga um almoço ou algo assim do tipo (M_Ter3)
Análises baseadas em inquéritos como a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) e a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) revelam que o aporte proporcionado pela alimentação fora do lar é menor para aqueles que adquirem quantidades reduzidas de alimentos. Nesse contexto, famílias de renda mais baixa enfrentam restrições financeiras que as impedem de fazer refeições fora de casa, resultando em menor flexibilidade para consumir alimentos quando não são preparados em seu próprio lar. Como resultado, os indivíduos de baixa renda dependem mais da preparação e consumo de refeições em casa para suprir suas necessidades alimentares (Ribeiro Júnior, 2021).
No contexto desta pesquisa, a falta de espaços adequados para armazenar e aquecer alimentos entre os entregadores impossibilita que se alimentem no local de trabalho com refeições mais apropriadas. Essa situação impacta financeiramente, já que os gastos com alimentação no trabalho reduzem os ganhos mensais. Isso perpetua o ciclo de IAN, levando a mais entregas e horas de trabalho sem garantia de remuneração. Os entregadores muitas vezes optam por lanches ultraprocessados mais acessíveis. As plataformas só remuneram as entregas, não a jornada completa, o que limita ainda mais os ganhos e que acaba por impedir outras atividades (Abílio, 2020).
Dessa forma, motoentregadores e cicloentregadores se autogerenciam, para conseguirem se manter e sustentar a sua família. Para isso estão dispostos a longas jornadas de trabalho sem segurança e sem direitos trabalhistas. Além de atingirem metas arriscadas em tempos climáticos chuvosos e em locais com alta demanda. Nesse contexto, o marketing do empreendedorismo dá lugar ao autogerenciamento subordinado e a estratégias de sobrevivência (Abílio, 2020).
2. Processos de trabalho e a fome:
Apesar da retórica sobre autonomia nas entregas, a condição socioeconômica dos entregadores quando ingressam nas plataformas digitais de entrega exerce influência sobre seus ganhos. O tempo de trabalho parece ter pouco impacto nessa situação, resultando em maior experiência para lidar com as dificuldades diárias. A falta de oportunidades de progressão de carreira nessas plataformas significa que os ganhos estão vinculados principalmente ao tempo gasto em entregas, o que, por sua vez, impossibilita a exploração de outras atividades que poderiam levar a profissões mais bem remuneradas. A ascensão dos ciclos para motoentregadores é a única progressão observada, considerando que o início como cicloentregadores muitas vezes serve como uma porta de entrada para essa categoria.
A gamificação, estratégia proveniente dos jogos, leva os entregadores a trabalharem mais horas na busca por aumentar seus ganhos. Pontuações e bônus na entrega durante condições desafiadoras, como chuva, incentivam essa corrida por remuneração (Oliveira, 2020). Isso muitas vezes leva os entregadores a arriscarem ainda mais suas vidas. O dilema é que, à medida que a qualidade de vida diminui, os ganhos aumentam, levando muitos a sacrificar suas refeições ou descanso:
Sempre trago bolacha de casa se der fome, de vez em quando como comida ou compro lanches e salgados em lanchonetes. O volume de trabalho é grande, daí às vezes não dá pra comer (M_App11)
Motoentregadores terceirizados, cujos restaurantes não assumem responsabilidade pela alimentação, também enfrentam fome no trabalho, devido à incerteza em relação à disponibilidade de alimentos para essa categoria.
Em vista desses desafios, os entregadores enfrentam dificuldades em adquirir uma alimentação em quantidade e qualidade adequadas. A necessidade de se alimentar adequadamente durante o trabalho exige mais tempo e dinheiro para frequentar restaurantes, já que as condições laborais muitas vezes impedem que levem comida de casa. Isso culmina em uma situação de fome e insegurança alimentar, especialmente para os entregadores de aplicativo, que frequentemente optam por pular refeições ou consumir alimentos ultraprocessados para economizar tempo e dinheiro, permitindo que realizem mais entregas.
Apesar das tentativas de melhorar suas condições de trabalho, incluindo a alimentação, essa questão enfrentou veto presidencial na Lei 14.297, direcionada aos entregadores de aplicativo e promulgada após a pandemia. Essa situação demonstra o desinteresse das autoridades governamentais e das próprias plataformas em melhorar aspectos significativos do processo de trabalho nessa modalidade de entrega. Isso ocorre porque os entregadores não são reconhecidos como trabalhadores, mas sim como usuários, conforme determinações judiciais recentes no Brasil (Vidigal, 2021).
3. Impactos da pandemia de COVID-19 na alimentação:
Os índices de insegurança alimentar sofreram agravamento em decorrência da pandemia de covid-19 em todo o mundo. Em 2021, ano em que este estudo foi conduzido, estima-se que entre 702 e 828 milhões de pessoas tenham enfrentado situações de fome, e as projeções indicam que aproximadamente 670 milhões de indivíduos permanecerão nessa condição até 2030. Esse cenário é particularmente preocupante nos níveis moderado e grave, que englobam um total de 2,3 bilhões de pessoas (FAO, 2022).
No contexto brasileiro, o aumento da demanda e do número de entregadores de comida durante a pandemia não se traduziu em um incremento de renda para esses profissionais. Além disso, tal cenário expôs situações de abuso e riscos (Abílio, 2019).
No tocante ao contexto doméstico, a pandemia impactou cerca da metade do grupo em situação de insegurança alimentar grave, resultando em diminuição de renda para 10 deles, que passaram a depender do apoio de familiares, amigos e vizinhos para garantir o sustento de suas famílias. Em contraste, entre o grupo em situação de segurança alimentar, apenas um indivíduo relatou necessitar desse tipo de assistência.
Durante a pandemia, o governo federal implementou o auxílio emergencial, direcionado a grupos vulneráveis, incluindo beneficiários de programas de transferência de renda, trabalhadores informais, desempregados e pessoas de baixa renda, maiores de 18 anos e mulheres chefes de família. Entre os 41 entregadores que receberam esse auxílio, 73% (30) estavam em situação de insegurança alimentar grave (IAN). É importante notar que, embora uma parcela significativa dos entregadores que receberam o auxílio estivesse em situação de carência, quando observamos essa proporção em relação ao total de entregadores em IAN, constatamos que apenas um pouco mais da metade (55%) teve acesso ao benefício, deixando 45% dos entregadores nesse estado sem receber, mesmo após a solicitação. Isso sugere que o auxílio não conseguiu efetivamente alterar a situação alimentar dos entregadores e suas famílias.
A interligação entre alimentação no ambiente de trabalho e alimentação domiciliar revela que, quanto maior a insegurança alimentar nos lares, mais desafiador se torna alimentar-se adequadamente durante o trabalho. Isso ocorre pois a maior parte dos ganhos é destinada às despesas do domicílio, deixando pouco para ser alocado à alimentação no ambiente de trabalho. Este cenário reflete a dificuldade em superar a fome no trabalho e a insegurança alimentar em casa através das atividades de entrega. Conforme relatado, mesmo quando há aumento da renda, ela tende a ser direcionada às despesas domésticas ou à manutenção das bicicletas ou motocicletas. Além disso, devido ao impacto da inflação dos alimentos no Brasil sobre opções saudáveis (Ferreira, 2022), essas opções ainda não se tornam viáveis para os entregadores durante suas refeições de trabalho. Como pode ser identificado no discurso de um entregador de aplicativo:
(Durante a pandemia) Não dava pra comprar uma carne pro final de semana. A gente comprava mais era vina pra fazer cachorro-quente (...) Tá demais os preços, né. Realmente impactou na alimentação nossa, eu lembro que com 400 reais a gente passava assim o mês inteiro sem comprar mais nada. Agora você compra três sacolinhas ali (C_App_reg1)
Especificamente no caso dos entregadores de aplicativo, observa-se que eles trabalham mais horas do que a média dos trabalhadores em geral, mas recebem remunerações inferiores e enfrentam dificuldades em ingressar (principalmente entre os mais jovens) ou reintegrar-se ao mercado de trabalho. Essa situação leva os trabalhadores informais, como os entregadores, a prolongar suas jornadas de trabalho, expondo-os ainda mais à contaminação por covid-19.
4. Sistemas alimentares e a insegurança alimentar e nutricional
Os ambientes alimentares abrangem um conjunto de elementos físicos, políticos, econômicos e socioculturais que, mediados por condições sociais e oportunidades, moldam as escolhas alimentares e o estado nutricional dos indivíduos, conforme abordado por Swinburn (2011). Esses ambientes podem desencadear comportamentos negativos em saúde e alimentação, sendo influenciados por determinantes individuais, políticos, sociais e culturais. Elementos como acesso físico, custo, informações sobre alimentos e qualidade dos produtos desempenham papéis cruciais na formação dos ambientes alimentares (HLPE, 2017).
No caso dos entregadores de comida entrevistados, o ambiente físico frequentado durante o trabalho oferece opções de estabelecimentos que comercializam alimentos adequados - não se configurando como um pântano ou deserto alimentar. Entretanto, são as condições sociais determinadas pela renda insuficiente e falta de suporte das plataformas e empresas terceirizadas que levam esses entregadores a enfrentar situações de fome e de insegurança alimentar:
Muitas vezes eu fui almoçar, tipo, 3h da tarde, 4h da tarde. Porque eu tava longe, do outro lado da cidade e aí esperava até chegar onde tinha a marmita mais barata (C_App_reg1).
Por outro lado, o ambiente alimentar no domicílio desses trabalhadores tende a ser menos favorável, caracterizado por opções escassas e mais caras, o que pode ser comparado a um deserto alimentar. A falta de acesso, em especial à renda, mais do que a mera disponibilidade, é um fator que conduz às situações de insegurança alimentar e fome.
A pandemia impulsionou o crescimento das plataformas de entrega, resultando em um ambiente alimentar digital desfavorável para trabalhadores e consumidores. O aumento significativo dos pedidos de delivery no Brasil, com maior incidência em lanches, hambúrgueres e pizzas, reflete a disponibilidade de alimentos com baixo valor nutricional e alto teor calórico, representando riscos à saúde (Delivery Much, 2020). Nesse contexto, o ambiente alimentar digital assume características de um "pântano alimentar", com uma predominância de opções inadequadas, incentivando compras impulsivas de refeições de perfil nutricional inadequado e atraindo consumidores por meio de estratégias como combos, promoções e programações algorítmicas (Pitts et al, 2018).
Dessa forma, em um mundo marcado por desigualdades sociais e econômicas, a questão da insegurança alimentar ganha contornos complexos e multifacetados, especialmente no contexto dos entregadores de aplicativo. Este estudo revela que a insegurança alimentar desses trabalhadores é resultado de uma intrincada interação entre fatores socioeconômicos, condições de trabalho precárias e ambientes alimentares desfavoráveis. A busca por soluções requer ações coordenadas em diversas esferas, desde a promoção de ambientes alimentares mais sustentáveis até a implementação de políticas que garantam renda digna e acesso a alimentos saudáveis para todos os trabalhadores, contribuindo assim para um futuro mais justo e nutritivo.
Considerações Finais
A pesquisa centrou-se na compreensão das práticas alimentares dos entregadores de alimentos, explorando a complexidade dos seus distintos processos de trabalho. A análise dessas interligações revelou as vivências de fome durante as atividades laborais e como essa realidade influencia a insegurança alimentar em suas casas. Evidencia-se, assim, que o processo de trabalho dos entregadores de aplicativo frequentemente resulta em situações de fome durante o expediente, contribuindo para diversos graus de insegurança alimentar e nutricional.
Constata-se que, com exceção dos motofretistas formais, os entregadores só conseguem alimentar-se de maneira mais adequada quando recebem comida por doação de empresas e restaurantes. Esse cenário é particularmente crítico para os entregadores de aplicativo devido à imprevisibilidade de vários aspectos do trabalho, incluindo os ganhos, o que prejudica a possibilidade de estabelecer uma rotina alimentar organizada.
Em última análise, a ausência de práticas alimentares adequadas é apenas uma das muitas dificuldades enfrentadas pelos entregadores, mas destaca a falta de garantia, por parte das empresas, plataformas e do poder público, de um mínimo que assegure a qualidade de vida, tanto no ambiente de trabalho quanto no domicílio.
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