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Este ensaio refere-se a uma investigação que está em curso na qual busco analisar cenas e imagens de comensalidade com o intuito de discutir o imbricamento entre os temas da comensalidade e da fome, como produtoras e reprodutoras de desigualdades sejam elas ecônomicas, de gênero, de raça, de classe, de geração, atuadas de modo interseccional. Para o enfrentamento deste debate, reconhece que o revigoramento dos temas do comer e da comida demanda esforços para serem lidos fora do enquadramento cartesiano que persiste na compreensão dos objetos de interesse no campo da alimentação e cultura. Para tanto, sugere-se ainda a busca outras epistemes e ontologias, especialmente aquelas forjadas no eixo sul, a exemplo de leituras decoloniais que possibilitam, por seu turno, colaborar para produzir uma revisão de conceitos e perspectivas com os quais a Antropologia da Alimentação e/ou o campo da Alimentação e Cultura se constituiu no território latinoamericano.
Assim, parto da imagem icônica da comensalidade em família que povoa o nosso imaginário quando pensamos no tema. Se buscarmos imagens na internet iremos encontrar esta figuração com enorme frequência. As cenas expõem um modelo idealizado de família, forjado na sociedade moderna entre o século XIX e XX – família mononuclear, monoparental, heteronormativa, patrimonialista, primando a autoridade patriarcal, estabelecidas pelos laços matrimoniais calcados no ideário do amor romântico. Para algumas análises sociais, esta cena corresponde a esfera da reprodução social das sociedades capitalistas – integra atividades da sexualidade, cuidado, alimentação, e fundamentalmente reprodução de corpos destinado para a força do trabalho. É o que chamamos no Brasil de “família margarina”, termo que se popularizou a partir comerciais produzidos ao final dos anos 1980 no Brasil de uma marca da multinacional Gessy Lever, a Doriana, ainda muito presente nas gôndolas dos supermercados brasileiros.
Sobre isso, Campos (2023), ao discutir a relação entre publicidade e branquitude, faz uma interessante discussão sobre este modelo de família idealizada, unida e feliz se tornando ao que ele chama de uma espécie de arquétipo do sucesso doméstico”. Todavia, o cerne da sua discussão é sobre o recorte racial já que as imagens disseminadas são de famílias brancas e que, mesmo inserindo pessoas negras, substituindo os modelos/atores, os modos proferidos de comensalidade não correspondem ao que seja os arranjos familiares brasileiros, plurais e diversos, ou seja, noção plural de família que, por seu turno, englobaria também famílias granparentais, pluriparentais, homoafetivas, no qual padrastos, madrastas, enteados, enteadas, mães chefes de família, casais homoafetivos, avós, tios, os parentes – ao lado de outros modelos de constituíção de famílias que vemos nos povos tradicionais, povos de matriz africana, e tantos outros possíveis agregados em uma dinâmica fluída de construção e reconstrução permanente, com vistas ao árduo exercício de instituir distintos laços de afetividade e solidariedade necessários para a produção da vida.
Assim, ainda que se tenha uma discussão fértil sobre a multideterminação dos arranjos familiares no contexto brasileiro, o ideal da “família margarina” impera como referente para pensar tanto, conceitos e noções, como as políticas no campo da saúde, alimentação e nutrição.
O que eu argumento é que a noção de comensalidade que vem sendo acolhida nas políticas públicas está baseada em um ideia de declínio consequente da modernidade e que deve ser recuperada. Esta perspectiva dialoga com a teoria de Claude Fischler sobre a desestruturação das práticas alimentares, ou seja, não há espaço e nem tempo para comer na sociedade moderna (Fischler, 1979, 2001). Com estas premissas, adotou-se como estratégia a recuperação da comensalidade como promotora da saúde. Todavia, a pergunta é de que prática de comensalidade estamos falando, pois a ela parece ressurgir acompanhada pelo ideário romântico da família margarina.
A mesa expressa um micro espaço no qual os conflitos sociais e as relações de poder são produzidas e reproduzidas, e as práticas de comensalidade a partir deste modelo hegêmonico podem ser perpetuadora de relações de sociabilidae promotoras de uma sorte de desigualdades sejam ecônomicas, sociais, de gênero, raça, geração dentre outras. É um espaço de fato muito simbólico para a perpetuação do patriarcado. Deste modo, este ensaio segue tomando como estratégia analítica as seguintes questões.
Quem produz a comida? Esta cena também demarca a invisibilidade do trabalho doméstico e as desigualdades que o sustentam. Mulheres, e até crianças, mulheres negras e pobres que compõem o exército de empregadas domésticas especialmente no Brasil, com sua tradição escravagista sustentam este trabalho. Temos aqui uma primeira relação entre a sustentação desta comensalidade “saudável” por mulheres de outras camadas sociais nem sempre garante a comensalidade na sua casa. Deste modo, pode-se aludiar que o modelo hegemônico de comensalidade, se trata de um modelo sustentado pela fome.
Deve-se lembrar que a inserção das mulheres no mercado de trabalho é uma conquista do movimento feminista que produziu mudanças na configuração do trabalho doméstico, todavia, não da mesma forma para todas as mulheres. Ao contrário da crença de que as mulheres abandonaram o trabalho doméstico por conta a inserção no trabalho doméstico, as mulheres da classe operária não deixaram de estar na cozinha empreendendo uma dupla jornada de trabalho e muitas delas em distintas cozinhas, da sua casa, não raro marcada por precariedades, e das casas das classes médias e elites. Em uma Nota Informativa do Ministério do Desenvolvimento Social publicada em 2023, divulga que em 2022, cerca de 5,8 milhões de pessoas, sendo 92% mulheres e 61,5% mulheres negras se ocupam o trabalho doméstico, perfazendo a categoria que mais emprega mulheres no Brasil, especialmente aquelas de baixa escolaridade e renda, compondo ainda o maior grupamento profissional da força de trabalho de cuidado no Brasil (Brasil, 2023). Muitas mulheres da classe trabalhadora estão na cozinha numa situação de opressão no qual outras mulheres de classe média, em geral brancas, contribuindo para garantir a segurança alimentar, e alimentação saudável da família, enquanto o seu próprio arranjo familiar pode estar em vivenciando uma situação de fome.
Outra interrogação que se pode fazer é sobre quem se senta à mesa. Nem todos circulam pela esfera doméstica estão autorizados a sentar-se à mesa: as próprias trabalhadoras domésticas, mas também crianças castigadas, pessoas com deficiência, idosos com dificuldade em estar nela – capacitismo e ageísmo ampliam as camadas interssecionais de análise. Em suma, a família margarina executa as estratégias de higienização dos corpos aceitos e validados para compor esta cena invisibilizando os dissidentes. Ademais, quem se senta à mesa segue ainda se submetendo a uma hierarquia de poderes e opressão que ordena a distribuição de pessoas ao redor dela, assim como a partilha da refeição, o controle de gestos, em suma, existe uma biopolítica de corpos que é exercida neste espaço.
Outra interrogação a ser feita, entretanto, não esgotando o debate, seria quem limpa a mesa. Retomamos o tema do trabalho doméstico no qual as mulheres - mães, filhas ou empregadas domésticas - entram de novo em cena nesta face oculta das comensalidades. Françoise Vèrges (2020), citando o antropólogo David Graeber no seu livro Feminismo Decolonial, sublinha a necessidade de reimaginar a classe trabalhadora como a "classe cuidadora", ou seja, aqueles cujo trabalho consiste em cuidar de seres humanos, plantas e animais, a fim de manter ou aumentar a liberdade de outra pessoa. Assim, o autor se refere também, na leitura de Vergès, a necessidade de pensar numa classe trabalhadora colocando as mulheres em primeiro lugar, ao contrário das representações históricas que têm sido feitas dos trabalhadores.
Para concluir, faço alusão a última pergunta que é a que estou me dedicando agora nesta investigação e que trata dos imbricamentos entre a comensalidade e fome no qual pretendo colocar em tela como as distintas cenas de comensalidade estão relacionadas e interagindo dentro da sociedade capitalista em uma relação de poder e exploração: quem provê os alimentos para esta família de classe média? Que modelo de produção de alimentos sustenta esta familia?
Para tanto, põe-se lado a lado esta imagem de família de classe média urbana e esta família de pequenos produtores rurais. Aqui quais pontos pretendo discutir:
a) analisar estas imagens dissidentes de modos de comensalidade em contextos de fome. Quando falamos de comensalidade não é esta imagem que nos vêm a mente. Para tanto, estou me apoiando no trabalho de Maria do Carmos Soares de Freitas A Agonia da Fome, que é um estudo fenomenológico da fome, e de Julian Garcia Lopez, que trabalha com a antropologia da fome em regiões da Guatemala. Junto a estes autores, uma publicação no nosso núcleo de pesquisa sobre como matérias jornalísticas em um programa da televisão brasileira tem produzido e reproduzido os discursos da fome durante a pandemia (Rigaud, 2023). Em uma síntese destas referências, poderia afirmar o como, no nosso imaginário, as imagens da fome são produzidas a partir de um esvaziamento dos sentidos de existência dos famintos – assim como a exploração das pratos, panelas, geladeiras vazias perdidos entre os rostos e olhares perdidos, transformando as cenas em uma mercantilização de um contrangimento a partir do espetáculo da comoção pública. São imagens que nos convocam para a prática da caridade – doar o que sobra – e não da solidariedade – partilhar com igualdade. É o que López, em um texto intitulado Fotografías de cuerpos desnutridos: ética y pornografia contemporaneas, afirma que estas estão longe de gerar empatias igualitárias, ao contrário, elas provocam distância entre os representados e os consumidores das fotografias da fome.
b) Como as duas cenas se relacionam. De onde vem os alimentos dispostos da mesa da família de classe média podem ser potencializadores da fome desta família rural se eles vem do agronégocio ou das práticas dissidentes a exemplo da agroecologia. Não se trata aqui da culpabilização ds escolhas das famílias de classe média pois sabemos que o modelo vigente não permite uma autonomia plena de nossas escolhas alimentares. Trata da politização do comer ou como no Brasil forjou o comer como ato político.
À Guisa da conclusão...
O que ainda pretendo com esta reflexão? Ao discutir a pluralidade de cenas de comensalidade em interação, forjar um aprofundamento da noção de comensalidades plurais, para contrapor a referência desta comensalidade idealizada patriarcal, racista, patrimonialista e classista. Sacralizamos esta imagem para defender a alimentação saudável. A noção de comensalidades plurais está para além de colocar em lado a lado as distintas formas como unas, atentar-se ao entreespaços, acentuando a discussão de como elas estão profundamente imbricadas se se produzem e reproduzem mutuamente. Considerando o modelo hegemônico de comensalidade é por em tela como as formas de comensalidade subalternas sustentam outras e aprofundam as desigualdades.
Outro ponto que tento discutir é o comer como ato político como um comer ético-político-afetivo, ou ainda um comer cosmopolítico. Pretendo discutir a contrapelo a produção de alimentos e a desigualdade no campo, começando pela mesa para o campo e não do campo a mesa como usualmente discutimos os sistemas alimentares. Na sociedades modernas capitalistas e o seu modo de vida é que tem pautado campo transformando-o em uma plataforma de exploração como denomina Airton Krenak, intelectual indígena brasileiro.
Ademais, a noção de comer como ato cosmopolítico – tenho construído em diálogo com Isabele Stengers, AnneMarie Mol, Donna Harraway e pensadores das cosmologias indígenas, me faz pensar o quão antropocentrada é a discussão dos sistemas alimentares como o objetivo fim é dos alimentos são os humanes. O alimento, o comer e a comida é atravessada por outros propósitos que é alimentar e sustentar o planeta. Portanto, seria interessante pensarmos o comer a partir do descentramento do humano em um esforço de sairmos do enquadramento cartesiano que persiste no nossa percepção sobre os nossos objetos de interesse e buscando outras epistemes e ontologias.
Referência bibliográfica:
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CAMPOS, L. A.; FELIX, M.; FERES JUNIOR, J.. A Família Margarina Recebe Visitas: Branquitude e publicidade em cinco décadas (1968-2017). Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 38, n. 111, p. e3811005, 2023.
FISCHLER, C. Gastro-nomie et gastro-anomie: sagesse du corps et crise bioculturelle de l’alimentation moderne. Communications, n. 31, p. 189-120, 1979.
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LOPEZ GARCIA, Julian. Fotografías de cuerpos desnutridos: ética y pornografia contemporaneas. In: JUAREZ, Lorenzo Mariano; MUÑOZ GONZÁLEZ, Beatriz (coord). Cuerpos Sin Fuero. Políticas de la subalternidad. Puertollano: Ediciones Puertollano. 2011
VERGÈS, Françoise. Um feminismo decolonial. Trad. de Dias, Jamille Pinheiro; Camargo, Raquel. São Paulo: Editora Ubu, 2020. 144p
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