DIAGNÓSTICO RÁPIDO DE SAN: APLICAÇÃO DE FERRAMENTAS DE DIÁLOGOS COMO INSTRUMENTOS DE PESQUISA

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Resumo

APRESENTAÇÃO Este resumo relata a experiência vivenciada por estudantes do Mestrado Profissional em Rede Nacional em Gestão e Regulação de Recursos Hídricos – ProfÁgua, projetos CAPES, ANA AUXPE nº 2717/2015, do polo UFPE no qual estão vinculados. A experiência aconteceu em duas comunidades de pescadores e pescadoras artesanais que residem no entorno da barragem do Carpina, localizada entre a Zona da Mata Norte e Agreste do estado de Pernambuco. Esta barragem além de abastecer cinco municípios (Feira Nova, Lagoa de Itaenga, Lagoa do Carro, Limoeiro e Glória do Goitá) apresenta como fonte de alternativas para a promoção da soberania e segurança alimentar por meio da pesca artesanal e da agricultura irrigada. Os sujeitos pesquisados e pesquisadas, com os quais a experiência foi vivenciada, são pescadores e pescadoras artesanais e agricultores e agricultoras que apresentaram por meio de ferramentas de diálogo participativo as estratégias de manutenção da profissão, organização e mediação de conflitos, para superar e/ou promover a soberania e segurança alimentar e nutricional de suas famílias. Participando das oficinas os protagonistas dessa experiência transmitiram seus ensinamentos e vivência para a realização do diagnóstico rápido de segurança alimentar e nutricional – DRSAN, objeto da pesquisa de mestrado na qual utilizou-se as quatros dimensões (disponibilidade, acesso, utilização biológica e estabilidade) da Segurança Alimentar e Nutricional – SAN no enfoque de identificar se a pesca artesanal praticada na barragem do Carpina de fato promove a SAN dessas famílias. O objetivo é relatar a experiência de aplicação de oficinas participativas que compõem o Diagnóstico Rápido de SAN como instrumento de obtenção de dados para a construção de indicadores de SAN e com isso mapear as políticas públicas para a promoção da SAN. DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA As áreas definidas para esta pesquisa situam-se no entorno da barragem do Carpina, neste espaço se encontra a comunidade da Agrovila do município de Lagoa do Carro e a Comunidade do Sítio Sebo, no município de Feira Nova, Pernambuco. A experiência se deu no período de setembro de 2017 a setembro de 2018. A barragem do Carpina é um reservatório construído pelo Departamento Nacional de Obras Contra as Secas – DNOCS, no ano de 1978, com o objetivo de controlar o escoamento superficial para minimizar os impactos das enchentes em alguns municípios da bacia hidrográfica do rio Capibaribe inclusive da capital pernambucana, Recife, na qual foi bastante atingida na grande cheia de 1975. Os pescadores e pescadoras artesanais fazem parte da Colônia de Pescadores Z-18, os agricultores e agricultoras da ASSECO - Associação de Serviços Comunitários da Agrovila da barragem e ACOPASBA - Associação Comunitária dos Pescadores e Aquicultores do Sítio Sebo e Barragem, município de Feira Nova, reúne pescadores/as, agricultores/as, apicultores/as e outros profissionais. O trabalho desenvolvido utilizou o diagnóstico rápido de SAN, no qual compreendem ferramentas de diálogos para obtenção do que se pretendem investigar. Neste caso, foi idealizado para o preenchimento do protocolo de indicares de Segurança Alimentar e Nutricional. Esse instrumento de indicadores foi baseado em um trabalho aplicado ao município de Mutuípe, estado da Bahia, elaborado por Panelli, et al. (2008). Baseando-se neste protocolo, foram elaborados o que melhor se aplica ao objeto de estudo. O maior desafio desse tipo de pesquisa se deve ao vínculo de confiança necessário para desenvolver as atividades com o público envolvido. O que torna o processo relativamente lento. Para a condução das atividades a coleta de informações junto à comunidade se dividiu em três etapas, a saber: Fase exploratória - consistiu em visita de campo e as oficinas com aplicação das ferramentas de diálogos. A ideia central desse momento foi identificar além dos aspectos ambientais do reservatório e do seu entorno, as atividades desenvolvidas pelo público estudo dos meios de sustento e manutenção de suas famílias. Como também as formas de organização coletiva, mediação de conflitos e estratégias de manutenção de seus ofícios. Por fim, verificar o acesso as políticas públicas relacionados com a SAN. O segundo momento se refere à construção dos indicadores de SAN de acordo com as quatro dimensões de SAN (disponibilidade, acesso, utilização biológica e estabilidade) na perspectiva de diagnosticar se a pesca artesanal promove a SAN, por meio do reservatório de Carpina. Como instrumento de verificação, utilizou-se como referência o manual elaborado pelo Programa de Apoio aos actores Não Estatais “No Pintcha Pa Dizinvolvimentu”. Esse material orienta o uso de ferramentas de diálogos com objetivos de diagnosticar em linhas gerais a situação de SAN em determinados territórios. Segundo Panelli et al. (2008), a FAO propõe que os pesquisadores de SAN elaborem seus próprios instrumentos de diagnóstico de SAN, considerando a realidade local e os indicadores básicos sugeridos por essa instituição. Todo o trabalho foi desenvolvido por dois estudantes, sempre revezando nas atividades entre as anotações e como facilitador/a das técnicas. Todas as técnicas empregadas foram idealizadas para que respondessem aos objetivos de investigação, desde a caracterização da paisagem estudada, histórico da implantação da barragem e a consolidação da pesca artesanal. Para tal fim, as instituições envolvidas foram agrupadas por localização geográfica. As duas instituições da comunidade da agrovila (município de Lagoa do Carro), revezando o local dos encontros e a associação do município de Feira Nova ambas em datas diferentes. Foram escolhidas as ferramentas participativas, listadas abaixo, na qual apresenta objetivos, tipos de ferramentas participativas utilizadas na coleta dos dados e aplicação das técnicas, conforme (MORAES, 2019, VERDEJO, 2006): 1 Técnica - Apresentação da proposta da pesquisa as comunidades por meio de reunião. Objetivo - introduzir o objetivo, iniciar um processo de confiança com a comunidade. Aplicação - conversa informal e construção da agenda para o início do estudo de campo; 2. Técnica - Mapa dos recursos naturais. Objetivo - criar uma situação de debate sobre as condições e acesso dos recursos naturais da barragem e da comunidade. Aplicação - Desenho dos elementos naturais principais, como fonte de água, vegetação, quintais produtivos, roçados e lugares fragilizados como erosões e depósito de lixo; 3.Técnica – Travessia. Objetivos - identificar as áreas naturais, os conflitos e as potencialidades de desenvolvimento. Aplicação - por meio de caminhada a locais pré-estabelecidos pelos integrantes. Elaboração de um diagrama contendo os seguintes aspectos para preenchimento do que foi visualizado: solo, vegetação, cultura, fonte de água e problemas; 4.Técnica - Cenário de alternativas. Objetivos - elencar para os problemas as alternativas para solucioná-los. Aplicação – elaboração de uma matriz com os cenários encontrados pelos integrantes. 5. Técnica - Matriz de priorização de problemas. Objetivo - Identificar os principais problemas por ordem de importância. Aplicação - por meio de cartaz elencar os problemas e nível de prioridades; 6. Técnica - Linha do tempo – Objetivos - visualizar as etapas de construção da barragem, inauguração e a consolidação da pesca. Aplicação - Desenho de calendário histórico, dividido por décadas. Os participantes preenchem por meio debates, como ocorreu a construção levando em consideração os fatores sociais, econômico e ambiental; 7. Técnica - Diagrama histórico do rio. Objetivo - visualizar como era o rio antes da barragem e depois da barragem na perspectiva do olhar de três gerações: avós, pais e filhos. Aplicação - desenho de um cartaz onde foram abordados os mais diversos assuntos ligados a barragem por essas gerações; 8. Técnica - Árvore do Problema. Objetivo - levantar as causas-efeitos de alguns problemas, mencionados em outros encontros. Aplicação - por meio de um desenho de uma árvore se levantam as questões do debate. As raízes da árvore são as causas do problema, tronco: o problema propriamente dito e os galhos: os efeitos do problema; 9. Técnica – FOFA. Objetivo - identificar o nível organizacional dos grupos. Aplicação - com o grupo reunido realizou-se uma chuva de ideias sobre como se poderia melhorar a pesca na barragem. A partir desse momento, os grupos discutiram as fortalezas, fragilidades oportunidades e ameaças na barragem; 10. Técnica - Acompanhamento de um dia da pesca. Objetivos - visualizar como, quando, onde pescam na barragem e os tipos de ferramentas utilizadas para a captura do pescado. Aplicação - Pesca com grupo de pescadores. 11 Técnica - Acompanhamento da venda do pescado. Objetivos - visualizar a venda do pescado e a relação com os consumidores. Aplicação - Acompanhamento na feira do município de Feira Nova. 12 Técnica - Visita ao tanque escavado para produção de tilápias. Objetivos - identificar qual a necessidade de criação de tilápias pela família. Aplicação - acompanhamento da captura de peixes e a entrega ao “atravessador” para venda do pescado em outros municípios do Agreste de Pernambuco. Partindo das respostas encontradas nas oficinas os indicadores construídos na perspectiva das dimensões da SAN foram respondidos as indagações a saber, segundo a HLPE (2014): 1. Disponibilidade de alimentos: a quantidade de peixes no reservatório é suficiente para uma demanda de comercialização e consumo; 2. Acesso: físico e econômico das populações que vivem da pesca, desde a captura, distribuição, armazenamento e distribuição aos consumidores; 3. Utilização: modo de preparo e consumo do pescado, interfere na absorção de nutrientes e minerais. 4. Estabilidade: Transversal as demais dimensões, uma vez alterada qualquer dimensão esta é afetada. Como exemplo as mudanças climáticas que afetam a disponibilidade do peixe no reservatório. Nas mesmas oficinas o tema recursos hídricos foi inserido por se tratar de um reservatório responsável pela prática da pesca artesanal, agricultura irrigada e a contribuição desse recurso para a Segurança Alimentar: 1. Disponibilidade Hídrica para a SAN: a oferta pode ser menor que a demanda, os usos múltiplos da água podem gerar conflitos e competições. Escassez hídrica por longos períodos de estiagens. 2. Utilização biológica/qualidade: água de qualidade para todos os usos da água pode contribuir significativamente para a redução de riscos à saúde. No mundo inteiro calcula-se que cerca de 289.000 crianças com idade menor que 5 anos morrem por contato com água contaminada, ausência/deficiência em esgotamento sanitários e má higiene (WATERAID, 2018). As mulheres e as meninas por serem gestoras primárias da água, são as primeiras a se contaminarem por contato de águas poluídas, em eventos extremos de secas são elas que definham primeiro que os homens (ANA, 2013). 3. Acesso à água: o acesso da população à água depende de fatores físicos e econômicos, a infraestrutura física para seu fornecimento, influencia na oferta, que pode ser limitada, distribuída de modo desigual e competitiva. O acesso à água é ofertado de modo desigual principalmente para grupos tradicionais. 4. Estabilidade da água para a SAN: as dimensões de SAN acima citadas interferem nessa dimensão, uma vez afetada por exemplo a disponibilidade, ao longo do tempo, afetada por estiagem prolongada influenciará a qualidade e o acesso. Essa dimensão se configura por ser regular e permanente. Com isso, não afetando as culturas, criação de animais e diversos usos. A terceira e última fase da pesquisa foi a análise de dados. Nesta fase, todas as informações foram sistematizadas e classificadas por temáticas e lançadas como meio de verificação nos indicadores de SAN, pontuando para cada resposta obtida de zero a 10, posteriormente comparada com a escala de SAN. Os resultados obtidos após a interpretação dos dados foram levados, para as instituições para a validação final. Este momento ocorreu no mês de setembro de 2018, quando foram ajustados e corrigidos o texto final. Resultados/discussão Com onze encontros e conversas informais foi possível diagnosticar em linhas gerais os objetivos da pesquisa do mestrado, respondendo à pergunta se a barragem do Carpina por meio da pesca artesanal promove a segurança alimentar e nutricional dos atores envolvidos na pesquisa. As ferramentas aplicadas permitiram perceber as ausências de políticas públicas de várias áreas o que torna esse público mais vulnerável à insegurança alimentar e nutricional. Segundo Béné et al. (2011), o estigma que carregam os pescadores/as artesanais no qual são afirmados que são pobres por desenvolver esta atividade e que irá desaparecer ao longo do tempo, merece atenção. Segundo os autores, após estudos realizados na bacia do Volta, maior lago artificial da África e bacia do Baixo Mekong situado no Sudeste Asiático entre os Países da Camboja, Tailândia, República Democrática Popular do Laos e Vietnã, não existe uma relação entre classe social e a pesca artesanal. Para eles a associação tem vínculos relacionados à ineficiência de promoção das políticas públicas como: acesso à terra, crédito, educação, energia elétrica, saúde e medicamentos. E o pouco poder de mobilização social por parte da sociedade civil. Os autores ainda abordam que as populações que residem entorno de grandes concentrações de água são mais expostas às doenças de veiculação hídrica. Logo, para os autores, não é o fato de serem pescadores que os tornam pobres, mas a ausência de ofertas desses serviços é o que torna essas pessoas mais pobres. Portanto, concluem que afirmar que a pesca artesanal é um espaço para pobres é algo simplista e reducionista. Neste trabalho, foi possível coletar por meio de materiais lúdicos, instrumentos que promovam o debate, a participação na qual possam as/os pesquisadas/os se enxergar como atores principais de suas próprias experiências narradas, onde expõem suas opiniões, sentimentos, propostas e críticas. Esse tipo de trabalho além de ser prazeroso para os integrantes, colabora na mediação de solução de problemas coletivos e um meio de verificação dos indicadores de SAN. Essa metodologia se configura como excelente meio de verificar as condições de SAN em um determinado território. A sua aplicação é simples, o maior desafio é a integração e a confiança dos/as pescadores/as, em relação aos pesquisadores. Todas as oficinas contaram com participação expressiva do público estudado. O diagnóstico revelou que o público envolvido encontra-se em situação de Insegurança Alimentar e Nutricional moderada e que a barragem do Carpina mesmo com inúmeros problemas de ordem ambiental é possível promover a SAN da população do seu entorno. Conclusão/considerações finais O desenvolvimento deste trabalho permitiu constatar que no universo acadêmico é possível aplicar outras técnicas metodológicas de pesquisa, inclusive a lúdica para busca de dados. Além de testar novos instrumentos para se identificar por meio de um sistema alimentar, as suas fragilidades e eficiências para assegurar a SAN da comunidade avaliada ou em outros territórios. Estas atividades além de enriquecimento pessoal e profissional promoveu em todas as oficinas, em todas as suas fases, envolvimento emocional, comprometimento e um forte senso dos/as pesquisados/as. As intervenções e mediações do/a aluno/a ocorreram sempre no sentido de nortear as discussões e delinear a realidade e percepções dos envolvidos/as sobre o seu papel na promoção da SAN de suas famílias e do local onde estão inseridos/as. Referências bibliográficas MORAES, Ana Paula de. DESAFIOS DA PESCA ARTESANAL EM RESERVATÓRIOS PARA A SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL. Recife: 2019, 121 folhas. Dissertação (Mestrado), Universidade Federal de Pernambuco. CTG. Pós – Graduação em Recursos Hídricos, 2019. AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS (Brasil). Cuidando das águas: soluções para melhorar a qualidade dos recursos hídricos. Agência Nacional de Águas, Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. 2. ed. Brasília: ANA, 2013. 157p. BÉNÉ. C; FRIENDS R. Poverty in small-scale inland fisheries: old issues, new analysis. Progress in Development Studies, 1, 2 (2011): 119-144. Disponível em: < https://www.researchgate.net/publication/258174695_Poverty_in_small-scal.... Acesso em: 23 nov. 2018 HLPE - High Level Panel of Experts. Contribución del agua a la seguridad alimentarias y la nutrición. Un informe del Grupo de alto nível de expertos en seguridad alimentaria y nutrición – HLPE. Comitê de Seguridad Alimentaria Mundial, Roma 2015, informe n. 9. Disponível em: <http://www.fao.org/cfs/cfs-hlpe/informes/es/>. Acesso em: 28 mai. 2018. HLPE, High Level Panel of Experts. La pesca y la acuicultura sostenibles para la seguiridad alimentaria y la nutrición. Un informe del Grupo de alto nível de extertos em seguridade alimentaria y nutrición del Comitê de Seguridad Alimentaria Mundial, Roma, 2014. PANELLI-MARTINS, BÁRBARA EDUARDA. Análise de método de avaliação da segurança alimentar e nutricional: uma contribuição à política municipal de SAN / Bárbara Eduarda Panelli-Martins. -- Salvador: UFBA / Escola de Nutrição, 2007. 138 f. VERDEJO, M. E. Diagnóstico Rural Participativo: Um guia prático. Brasília: Secretaria da Agricultura Familiar – MDA, 2006. WATERAID, 2018. O Relatório do estado da lacuna da água – A situação da água no mundo 2018. Disponível em: <https://washmatters.wateraid.org/sites/g/files/jkxoof256/files/The%20Wat.... Acesso em: 18 abril. 2019.

Instituições
  • 1 Universidade Federal de Pernambuco
  • 2 Universidade de Pernambuco
Eixo Temático
  • Tema 6 - A Construção da Pesquisa em SAN: avaliações, métodos e indicadores.
Palavras-chave
Soberania
Segurança Alimentar e Nutricional
Vivência