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Desde março de 2020, com a chegada do novo coronavírus no Brasil, a sociedade tem sido impactada devido à necessidade de restrição da circulação de pessoas. Como medida para conter a propagação do vírus, os serviços foram suspensos ou tiveram grande alteração em seu funcionamento, como é o caso dos serviços de saúde. Nesse sentido, o presente trabalho visa compartilhar um relato de experiência dos autores a partir do estágio profissionalizante da graduação em Psicologia, realizado em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) do estado de Santa Catarina. Assim, a proposta é refletir sobre os efeitos dos atendimentos grupais na modalidade remota e das possibilidades de sustentação da escuta, em sua dimensão de clínica ampliada, durante a pandemia de covid-19. No CAPS, dispositivo que atua em rede e tem como um dos principais objetivos a superação da lógica manicomial e a reinserção social dos sujeitos, foi e tem sido necessário atualizar as estratégias de cuidado para que possam ser garantidos os devidos atendimentos e a atenção aos usuários. Atualização aqui no sentido que Dimenstein, Simoni & Londero (2020) apontam, como a invenção a partir de algo que já existe. Uma dessas possibilidades de invenção foram os grupos online, como forma de manter espaços de convivência entre os usuários, ainda que com limitações e diferenças fundamentais. A particularidade do trabalho grupal realizado nos Centros de Atenção Psicossocial é ser voltado para sujeitos, em grande maioria, com grave e persistente sofrimento psíquico. Os grupos podem ter diferentes enfoques, duração e finalidades, mas no geral voltam-se para a ampliação de redes sociais, formação de vínculos, reabilitação social, entre outros. A proposta de realizar e dar continuidade de forma remota aos grupos terapêuticos no CAPS vai em uma via de aposta na circulação da palavra, de poder compartilhar vivências encontrar alguma ancoragem para angústia sentida por cada usuário que busca o serviço ou já está com um plano terapêutico traçado e manifesta o desejo de compor o espaço grupal. É como um dos grupos coordenados pelos estagiários em que, na tentativa de descrevê-lo durante uma supervisão clínica, caracterizou-se como um “encontro nos bancos da praça”, em que ora um senta ao lado do outro e diz sobre si, ora outro se junta e compartilha sua angústia e questiona se mais alguém se sente assim. No espaço virtual, as trocas emergem na medida em que o grupo passa a se reconhecer enquanto tal e passam a direcionar a palavra uns para os outros. Espaços como este que têm proporcionado aos usuários uma forma de romper com o isolamento social, ainda que garantindo o distanciamento físico, à medida que proporcionam a escuta e espaço para ampliação de laços. É possível retomar a expressão de Figueiredo (2011) em que diz “CAPS bom é CAPS vazio” com a seguinte inquietação: sob o risco de reproduzir o modelo manicomial, o trabalho deve realizar-se no território e voltar-se para fora, mas e quando a preocupação com a propagação de um vírus letal incide sobre a relação que os usuários mantém com o serviço e esse “vazio” remete à migração para o ambiente virtual? De que território estamos falando? O trabalho que será compartilhado diz respeito às experiências ainda em curso e, portanto, abertas às reinvenções e construções que a prática suscita. Sustentar espaços de apoio, simbolização do vivido, trocas e acolhimento tem se mostrado possível através dos grupos virtuais. No entanto, profissionais, estagiários e usuários ainda estão recolhendo os efeitos dessa prática e elaborando o que significa transitar pelos discursos e afetos por intermédio das telas. Em consonância com que Broide et. al. (2011) apresenta, constituem-se como espaços de troca possíveis que transpassam as paredes do isolamento, trazendo para a convivência e para a rotina novos elementos e novos personagens para a trama do dia-a-dia desses sujeitos.
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