Identidade, memória e poder nas crônicas de Lima Barreto e João do RIo
O trabalho constitui-se de uma análise das representações da etnicidade, da memória e do poder em crônicas de Lima Barreto e de João do Rio. Partindo de uma análise contextual da crônica dos dois autores, procuramos compreender o olhar dos cronistas em relação à modernização do Rio de Janeiro no período compreendido entre 1905 a 1922, e as transformações ocorridas no Rio de Janeiro, no auge da Belle Époque. O trabalho utiliza uma análise metodológica qualitativa, selecionando algumas dentre as várias crônicas dos autores, tendo por objetivo demonstrar por meio de tais crônicas, a pertinência e a relevância de nossa abordagem. A abordagem constitui um desdobramento da pesquisa de mestrado, tendo avançado no sentido de constituir, também, diálogo com alguns romances de Lima Barreto como Clara dos Anjos e Recordações do escrivão Isaías Caminha. Temos por objetivo mostrar que, embora as suas produções mantenham pontos de contato, apresentam uma abordagem discursiva diferenciada, não obstante os dois tenham escrito no calor das transições entre Monarquia e República. Há também a busca por demonstrar a etnicidade presente nos textos de Lima Barreto e João do Rio, como uma forma de interagir com a cidade demonstrando-a como espaço de exclusão social.
As crônicas permitem perceber a cidade como espaço de tensões sociais de memória e pertencimento, bem como de reafirmação de uma eterna diáspora que os problemas sociais representados nos textos, provocam sobre personagens da cidade. As tensões presentes, possibilitam uma reflexão profícua sobre percursos identitários de indivíduos que vivem sobre a égide do trânsito, da diáspora, ainda que na cidade. Uma cidade que alimenta as margens, mas as oculta. Perceber a cidade como espaço de exclusão mas, também, observar os encontros que ela produz, na saga de personagens extremamente comuns às malhas urbanas que se reproduzem na cidade contemporânea; é fundamental para pensar o negro nas cidades e as cidades para que o negro de fato encontre a inclusão, o espaço de pertencimento e honra que lhe cabe como sujeito de direitos.
Reconhecer nas obras de Lima Barreto e de João do Rio, os engendramentos do poder e suas estratégias de coerção social e exclusão; possibilita pensar se na cidade contemporânea, não vemos os mesmos problemas e, temos, por outro lado, a urgência de ações do Estado para dar visibilidade aos direitos do negro. Para que, não mais personagens mas, cidadãos de fato possam definir seus lugares na cidade.