ENTRE YAMIS E PONCIÁS
“Uma das características mais importantes do rizoma talvez seja a de ter sempre inúmeras entradas”, conforme as palavras de Deleuze. Sendo assim, ao cotejar o encantamento oral da cantiga em Iourubá Iba Yami Osoronga com a narrativa da personagem Nêngua Kainda, do romance de Conceição Evaristo Ponciá Vicêncio, percebemos o entrelaçar dos empréstimos orais de duas cosmovisões do continente africano, trazidas pelos povos africanos escravizados ao Brasil. Empréstimos orais esses que se transformam em narrativas de mundos que aqui são também rizomáticos, onde as sentenças escritas remetem a um passado de respeito às tradições milenares onde a mulher incorpora a ideia e o sentimento desse devir Derridiano, recuperado através das concepções de linguagem modernas que as incluem no cotidiano brasileiro. E pelo vozerio que se entrecruza rizomaticamente - se aproximam e se distanciam - na medida em que sejam comparadas umas às outras, já que são as frutas do mesmo Baobá ou da mesma Calabaceira. Afinal, a cosmovisão/teologia africana e afro-brasileira sempre sofreu a hostilidade, o racismo e a perseguição, sendo que, as mulheres, na sua representação litúrgica e escrita, por muito tempo foram relegadas e obsucrecidas. A ‘afroteofobia’ silenciou-as religiosamente em várias instituições, desde a escolar até a midiática. Contudo, teve na Literatura a possibilidade que, seus adeptos, seus sacerdotes, pudessem manifestar-se e colocar-se. Intentamos, assim, verificar esses enraizamentos e confluências, tanto no campo oral e escrito, de recuperação valorativa dessas mulheres nos textos que serão apresentados, observando as pontuações teóricas dessas narrativas a partir das prerrogativas de Eduardo Assis Duarte (2011), Ligia Fonseca Ferreira (2009), Henrique Cunha Junior (2004) e Sérgio Paulo Adolfo (2013).