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Por vezes, o debate acerca das relações interespecíficas fica relegado às ciências biológicas e visto como um assunto de interesse apenas desta área, contudo, esta é uma visão prejudicial para o desenvolvimento da ciência, especialmente quando pensamos o fazer antropológico. Influenciados pela herança deixada pelas religiões monoteístas, a ciência ocidental tende a ver o homem como esse ser privilegiado em detrimento aos demais: a nossa vida pulsa mais intensamente que a dos outros seres, nossos pensamentos são mais complexos e nossa espécie goza de uma autonomia intrínseca. Tal visão nos leva a estabelecer relações de dominação ou domesticação sobre a natureza ao passo que exclui toda a diversidade que nos forja. Repensar as relações multiespécies objetiva estabelecer uma nova relação científica, menos segmentada e, conseguinte, mais colaborativa, instaurando um estado de sempre-em-processo. Um processo que se dispõe a repensar como dividimos o mundo com outros seres e organismos não humanos e explorar a fronteira entre o eu e o outro, enxergando a fauna e a flora como ativos na construção do mundo. No que tange os instrumentos metodológicos, o Núcleo de Estudos Rurais da UFF/Campos possui um cronograma de leitura com reuniões quinzenais em que compartilhamos os pontos principais abordados pelos autores, analisando o impacto de suas ideias no arcabouço antropológico além de articular as teorias com a área de pesquisa do grupo: o de ruralidades. O pensar interespecífico a partir de uma visão que não põe o ser humano como superior à natureza pode ser notado na forma em que o núcleo conduz suas oficinas. Atualmente temos como objetivo principal a concepção de um banco comunitário de sementes no acampamento Cícero Guedes, a exposição feita nas oficinas ofertadas aos agricultores a respeito das nuances que permeiam a construção do banco envolvem temas como a importância das sementes crioulas até os perigos das sementes transgênicas, essa diferença é exposta não só pelos benefícios ou malefícios que cada semente pode causar ao homem, mas também por seus impactos na flora e na fauna uma vez que elas estão em constante interação conosco. É preciso ultrapassar o pensamento de que o homem seria um organismo separado do planeta, pois assim poderemos expandir debates como de igualdade social, justiça e colonialidade uma vez que são todos temas perpassados pelo entrelaçamento multiespécie - podemos observar essa relação nas sequelas do período colonial que reverberam até os dias atuais, como a relação das plantations com a domesticação generalizada que afetou a natureza, os animais e, visto que, a medida em que provocamos mudanças elas também nos mudam, o homem.
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