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Ao trazer em evidência a ideia de memória, é possível identificar dois fenômenos, dentre eles, um, socialmente, mais evidente que o outro; sendo eles o individual e o coletivo. No caso do primeiro, o mais discutido, provém de vivências pessoais; e, já o segundo, diz respeito aos adquiridos por projeção e identificação, através de um grupo ou coletividade. A pesquisa “Memória e participação social de crianças e jovens quilombolas”, vinculada a Universidade Federal Fluminense, tem como objetivo principal compreender através da memória e do resgate histórico da comunidade quilombola de Cafuringa, em Campos dos Goytacazes/RJ, quais são as reverberações socioculturais que atravessam os sujeitos no processo de formação e constituição identitária enquanto quilombolas e afrodescendentes. Visa, assim, compreender como a memória social e, consequentemente, a história, servem de subsídio para a inclinação religiosa-cultural da comunidade, posto que fornecem elementos de justificação social para a religião atual O procedimento metodológico do projeto conta com o número de 30 crianças e jovens, que vivem em Cafuringa, sendo que a coleta de dados ocorrera por meio de oficinas realizadas entre os anos de 2017 a 2019 e de entrevistas feitas com oito moradores mais velhos da comunidade, em questão em 2019 e 2021. Observou-se a predominância de perspectivas estigmatizantes acerca das religiões de matriz africana e entre outros elementos que compõem a cultura afro-brasileira. Além disso, destaca-se a lembrança de determinados sujeitos, tal como a antiga matriarca, “Dona Moreninha”, responsável por incentivar a valorização de componentes culturais e históricos de Cafuringa, entre eles as comemorações de carnaval, o jongo e os bailes, além das lendas locais. A religião evangélica chegou a Cafuringa lentamente através de um casal que realizava cultos nas casas de alguns moradores da comunidade e oportunamente, pois a matriarca começa a perder influência. Ocorre, assim, a conversão de cerca de 70% da comunidade para a mesma, segundo o pastor. Toda essa movimentação, fornece abertura para questionamentos acerca da contribuição da religião de matriz africana para Cafuringa e a população que ali vive. Portanto, é possível notar a ocorrência da tentativa de captura das possibilidades de significação e convivência com religiões que não estão inseridas no prisma da religião evangélica. Entretanto, alguns elementos culturais resistem e são relembradas com carinho, como a poética do jongo presente na escrita das jovens ou a transmissão das lendas.
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