INTRODUÇÃO
Este trabalho emerge de um processo de pesquisa de doutoramento que lança o olhar para o corpo e sua sacralidade no sentido de interroga-lo para dar a ver e pensar outros modos de interagir com o mundo, em especial em sua dimensão educativa. A pesquisa envolve a experiência com o cinema como linguagem indireta, uma possibilidade investigativa fenomenológica que engaja o exercício da percepção, no que tange ao deixar-se atingir pelas imagens. Para essa comunicação, interrogamos o estatuto das imagens no documentário Baraka (1993) do diretor e fotógrafo cinematográfico Ron Fricke, que tem como subtítulo: “um mundo além das palavras”. Aqui, o silenciamento da linguagem falada no filme, já nos remete por si só, para as possibilidades outras de habitar as dinâmicas imagéticas, uma perspectiva que convida para o engajamento do olhar com o corpo, um imbricamento necessário para a organização do conhecimento. O olhar para Baraka outorga um estilo próprio de emergir na fenomenologia de Merleau-Ponty que se engendra a partir das pistas metodológicas criadas no interior do Grupo de Pesquisa Estesia/VER como podemos conferir nos escritos de Neto e Lima (2018) que lançam os moldes como o grupo concebe e pratica a pesquisa qualitativa. Portanto, a pesquisa engaja saberes que enveredam na imersão da estesia, um modo de visibilidade que abraça a necessidade de uma reabilitação ontológica e epistemológica do corpo e de sua sensibilidade, como esforço de reaprender a ver o mundo.
O QUE BARAKA NOS REVELA SOBRE O CORPO, O SAGRADO E A EDUCAÇÃO?
Para dar vazão a questão que se preza neste estudo, recorremos a algumas cenas que revelaram reflexões sobre o corpo, o sagrado e a educação. Exprimimos aqui os cenários que se abrem para a visibilidades dos templos e sinagogas sob a escuta de sinos, com interações de corpos representativos de diversas religiões que se comportam em gestos de devoção, reverência, meditação, oração. Nessa dinâmica imagética os closes são valorizados para enfatizar o uso dos livros nas interações que fazem com os espaços sagrados. Nas várias religiões exibidas, o livro se faz simbólico nessas paisagens. A sensação é que nesse fenômeno de se relacionar com as coisas do mundo, o estado afetivo e a expressão corporal parecem não estabelecerem sintonia. A relação do corpo com a linguagem escrita, idealizada, simbolizada pelo livro, insinua nuances da racionalização do corpo que contrastam com as cenas anteriores em que os corpos tomam aspectos do “ser selvagem” como manifestado nas cenas do ritual dramático da indonésia com os ritmos do Kecak, e também nas cenas em que os corpos dos aborígenes australianos ritualizam seus mitos para coincidir com Uluru, o maior monólito da terra. Percebe-se que as estruturas gestuais nesses cenários por vezes fomentam o sagrado vivido sob o nexo intelectualizado, ventilado nos atos das explicações, na ideia de sujeito cognitivo; e por vezes conduz à linguagem indireta, fecunda, ser no mundo, aquela que permite a comunicação silenciosa do corpo, realçando assim, uma nova concepção do ser de linguagem, numa lógica encarnada, essa mesma que queremos tratar nos processos educativos.
A análise do sagrado do corpo nas paisagens de Baraka se perfila considerando também os estudos de Mircea Eliade (2001, 2004), Joseph Campbell (2009), Carl Jung (2008, 2014), Marcel Mauss (2003, 2015) e Clément & Kristeva (2001), autores que em suas particularidades nos ajudam a sentir/viver/perceber o sagrado do corpo pelas nuances do rito, do mito, do simbólico, do sacrifício, da sexualidade, da dádiva e da correspondência do corpo com a natureza, considerando, por exemplo, os enigmas existentes nessa conjuntura.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Mediante as reflexões deste estudo, no exercício de ver as paisagens fílmicas de Baraka, fomos a busca de sentidos que revelassem um corpo sacral, que sai de si mesmo e guia-se até o outro para se confundir, misturar-se e voltar para reconstruir a sua interioridade. Fomos buscar realçar o sagrado como elemento do corpo, liberto de uma delineação religiosa, para garantir o seu desfrute em todo espaço de contemplação em que os sujeitos possam ter oportunidade de se afetar, desejar, se encantar. O sagrado que é vivido através de uma outra linguagem, a indireta, em que os sujeitos são oportunizados a imbricar-se na experiência e no relacionamento do corpo com o mundo através do seu potencial estesiológico. Nesse sentido, enaltecemos o fenômeno educativo numa conjuntura que se liberta do intelectualismo exacerbado, do dualismo e se funda na experiencia do corpo como carne do mundo, assim como nos mostram as notas do último curso sobre a Natureza (MERLEAU-PONTY, 2006), que não deriva de um pensar, mas de um sentir, de um comportamento expressivo que cambiam entre o inteligível e o sensível.
REFERÊNCIAS
CAMPBELL, J. O Poder do Mito. São Paulo: Palas Athena, 2009.
CLÉMENT, C.; KRISTEVA, J. O feminino e o sagrado. Tradução de Raquel Gutiérrez. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.
ELIADE, M. Mito e Realidade. São Paulo: Perspectiva, 2004.
_____________ Sagrado e o Profano. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
JUNG, Carl. G. (Org.). O homem e seus Símbolos. 2.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
____________ Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.
MAUSS, M.; HUBERT, H. Sobre o sacrifício. São Paulo: Cosac Naify, 2005.
MAUSS, M. “Ensaio sobre a Dádiva”. In: MAUSS, Marcel. Sociologia e Antropologia. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.
MERLEAU-PONTY, M. Psicologia e Pedagogia da Criança. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
____________________ A Natureza: curso no Collège de France. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
NETO, A. A. L.; LIMA, A.T.P. Um modo novo de sentir: a fenomenologia de Mereleau-Ponty, a pesquisa qualitativa e o desassossego da estesiologia. In: NÓBREGA, T. P. (Org.) Estesia: Corpo e Fenomenologia em Movimento. São Paulo: Liber Ars, 2018.